Paraísos Artificiais (2012)

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Paraísos ArtificiaisEm 2012, quando Paraísos Artificiais foi lançado, não consegui encontrar motivos para assisti-lo. Pelo que entendi através do trailer, tratava-se de um longa sobre o universo das festas rave e de temas que lhes são comumente relacionados, como a juventude, drogas e música eletrônica. Como na época eu nem sonhava em frequentar esse tipo de ambiente, deixei passar a oportunidade de ver o filme no cinema e meio que acabei esquecendo dele. O tempo passou, tive minha primeira (e traumática) experiência em um desses eventos e, recentemente, reencontrei o Paraísos Artificiais dentre os títulos disponíveis no Netflix. Dessa vez, a minha indiferença foi vencida por duas curiosidades distintas:

  1. Haveria no filme algo tão bizarro quanto o que experimentei pessoalmente na festa que fui no começo desse ano?
  2. Por qual motivo os usuários do Netflix avaliaram o filme negativamente (nota 2 de 5)? Teriam eles estranhado o tema ou, de fato, a produção comandada pelo diretor Marcos Prado seria um desastre?

Antes de contar-lhes sobre a terrível noite em que paguei 5 reais para beber uma lata de cerveja Crystal quente, vamos a segunda pergunta formulada ali acima. Obviamente, não tenho como precisar o motivo de outras pessoas terem rejeitado o filme, mas arrisco dizer que a maioria delas deve ter ficado perdida com a narrativa proposta pelo diretor. Marcos Prado, que fez seu nome no mercado cinematográfico nacional produzindo os dois Tropa de Elite, dispensa a linearidade temporal para contar uma história relativamente simples de ascensão e queda que tende a tornar-se confusa depois de algum tempo devido ao uso constante de flashbacks. Nando (Luca Bianchi) e Patrick (Bernardo Melo Barreto) vão para uma rave organizada em um local paradisíaco na costa nordestina. Lá, eles planejam viver um final de semana inesquecível, expectativa semelhante as de Lara (Lívia Bueno) e Érika (Nathalia Dill), duas amigas repletas de sonhos e vontade de vivenciar novas experiências. Os desdobramentos desses dias de liberdade absoluta, infelizmente, muda para pior a vida de todos.

Paraísos Artificiais - Cena 4Se fosse necessário, de forma bastante simplória, extrair uma “lição de moral” de Paraísos Artificiais, poderíamos dizer que o filme está nos dizendo que “as drogas não compensam” ou até mesmo que “não há ação sem reação”. O roteiro, que também é assinado pelo diretor, tenta desconstruir o glamour, por assim dizer, das festas rave e suas viagens de ácido assim como os Tropa‘s o fizeram com a romantização do crime que não raramente pode ser vista nas produções nacionais. Marcos quer que o espectador saiba que o caminho das drogas, seja o do consumo ou o do tráfico, é ilegal e destrói vidas e famílias. A intenção, inquestionavelmente boa, esbarra no formato proposto pelo diretor para difundi-la: optar por um “vai-e-vem” narrativo cujo maior mérito é guardar uma revelação para o final foi uma decisão infeliz. Em produções semelhantes, como Réquiem Para um Sonho, é justamente a linearidade da história que faz com que os últimos acontecimentos da trama tenham o peso que tem. Aqui, a quebra da linha temporal me fez olhar com indiferença, por exemplo, para as cenas desconexas que falam sobre a morte do pai de Nando.

Paraísos Artificiais - Cena 3Se a história decepciona, tanto pela superficialidade quanto pela narrativa equivocada, os outros elementos que compõe o filme também não conseguem agradar. A música é boa mas nunca é tocada tempo suficiente para empolgar, as experimentações visuais que emulam o uso drogas tem pouco espaço dentro da trama (basicamente, a cena dos ‘bois’ e essa aí do pôster) e a pegação entre as delicinhas Nathalia Dill e Lívia de Bueno, apesar de “estimulante”, não deixa de soar forçada. Para não dizer que nada funciona 100%, a fotografia está acima da média, capturando com precisão tanto a melancolia e a escuridão quando os personagens estão “na pior” no estrangeiro quanto a luz, o sol e a alegria quando eles estão fritando na rave. Falando em rave, paro por aqui o meu relato sobre o filme (resumindo: é chato e mal executado) para contar-lhes a experiência que vivi.

Paraísos Artificiais - CenaQuando fui morar em São José dos Campos-SP em 2012, conheci um cara que é um frequentador apaixonado de raves. De tanto conversar com ele e ouvir maravilhas sobre as festas, decidi que um dia eu experimentaria ir em uma. Cerca de 3 anos depois, surgiu a oportunidade perfeita: o local era perto, o preço do ingresso era bom e os organizadores tinham boas referências. O que deu errado? Tudo. Como os bombeiros negaram conceder alvará para a festa ser realizada no local previsto, os organizadores improvisaram toda a estrutura que eles haviam preparado em um novo lugar, uma chácara que ficava do lado do fim do mundo. A mudança, no entanto, não foi o pior da noite: a chuva recente transformou o local em uma piscina de lama, a cerveja era ruim, quente e cara, a única opção de comida era um espetinho de carne de monstro, os banheiros estavam num estado indescritível e a música, no final das contas, foi tocada através do som de um carro. Desconfiando que nenhum tipo de droga no mundo seria capaz de mudar essa realidade decepcionante, fui embora menos de 3 horas depois de ter chegado e terminei a noite em uma sorveteria rs Sei que, devido aos imprevistos, eu nem posso falar que vivi a experiência real de uma rave, mas esse episódio e o que vi em Paraísos Artificiais (observem a cara de psicopata do ator Bernardo Melo Barreto ‘dançando’) não me deixam nenhum pouco animado em tentar uma segunda vez.

Paraísos Artificiais - Cena 2

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  1. Tantos amigos me recomendaram esse filme, mas minha sensação foi a mesma que a sua. Queria ter lido esta resenha antes! hahaha

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