007 Contra Spectre (2015)

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007 Contra SpectreAntes de ir ao cinema conferir essa nova aventura do Bond (Daniel Craig), revi o Skyfall para relembrar a trama e, ao contrário do que escrevi há 3 anos na época de seu lançamento, devo dizer que não achei ele tão ruim assim. As cenas de ação do diretor Sam Mendes são muito boas (principalmente aquela luta com as águas-vivas psicodélicas no fundo) e o personagem do Javier Barden, mesmo que não renda tanto quanto poderia (vendem-no como o próprio capiroto, entregam apenas um menino levado que precisa ser punido), é um bom vilão. Ainda não foi dessa vez, porém, que mudei minha opinião sobre o roteiro: mostrar um 007 envelhecido e decadente foi uma aposta infeliz que simplesmente não fez sentido dentro da proposta da série. Imagine tu vendo mais de um filme em que o agente, no lugar de saltar, atirar e correr atrás dos bandidos, ficasse reclamando de dores nas costas. Não dá, né?

Assim sendo, o Sam Mendes abandona essa abordagem em 007 Contra Spectre, mas isso não significa que ele, um diretor conhecido principalmente por filmes de drama (Beleza Americana, Foi Apenas um Sonho) tenha desistido de humanizar o personagem: em um mundo onde a dicotomia “bem x mal” já não é mais suficiente para entender as relações entre os povos, Bond enfrentará Spectre, uma organização que age infiltrada no MI6, e precisará reconsiderar as consequências, tanto para ele quanto para a sociedade, do uso de sua famosa “licença para matar”.

007 Contra Spectre - Cena 4Agora que não precisa mais nos mostrar o 007 errando tiros e realizando testes psicológicos, o diretor ficou livre para retratá-lo, logo de cara, como o sujeito implacável que ele sempre foi. Seguindo uma pista que M enviou-lhe postumamente, o agente começa Spectre na Cidade do México esgueirando-se no meio da população à procura de um homem que poderá revelar-lhe a existência de uma perigosa organização terrorista internacional. Como era de se esperar, o sujeito não está disposto a colaborar e isso faz com que Bond tenha que persegui-lo através das ruas da cidade, que estão lotadas devido a comemoração do Dia dos Mortos, enfrentando o poderio de fogo dos capangas que protegem o cara. Ao meu ver, essa abertura é a “cereja” dessa nova investida do Sam Mendes, uma cena que traz uma correria frenética em um cenário deslumbrante e que casa muitíssimo bem humor (tente não rir do Bond sentado no sofá após a queda do prédio rs), canastrice (o cara deixa uma mulher esperando-o na cama para correr atrás de um bandido) e ação absurda, ou seja, tudo aquilo que tornaram o 007 um dos personagens de maior longevidade da história do cinema. Dessa vez, o “melhor não ficou para o final”: entregam-no logo no início e isso não é de todo ruim.

007 Contra Spectre - CenaApós a tradicional abertura que traz a música tema do filme (dessa vez o responsável pela canção foi o cantor pop Sam Smith com a melancólica Writing’s on the Wall), o diretor gasta algum tempo reintroduzindo os personagens e elementos característicos da série. O novo M (Ralph Fiennes) continua questionando os métodos de Bond, Q (Ben Whishaw) continua fornecendo-lhe bugigangas e Moneypenny (Naomie Harris) continua sendo uma companheira fiel. A novidade reside no fato de que o governo britânico, temeroso com as intervenções catastróficas, ainda que eficientes, do MI6, estuda a possibilidade de substituir os agentes de campo por um novo método global que integrará os sistemas de vigilância de vários países para combater o terrorismo. Bond desconfia que há algo maligno por trás desse programa e, desobedecendo ordens diretas de M, inicia uma investigação por conta própria que o fará visitar lugares antigos de Roma, enfrentar o frio das montanhas austríacas e o calor das terras áridas do continente africano para descobrir a verdade.

007 Contra Spectre - Cena 5Spectre, ainda que não seja o melhor filme da “Era Craig” (ainda prefiro o Cassino Royale), é um filme muito bem equilibrado, sem dúvida alguma um título melhor do que seus dois antecessores o foram (Quantum of Solace e Skyfall). Ao longo das quase 2h30min de projeção, Mendes nos dá pelo menos 4 grandes cenas de ação (à sequência de abertura, acrescentem a perseguição de carro nas ruas de Roma, a cena do avião nas montanhas e o final) e completa o roteiro com citações e personagens que valorizam os eventos mostrados anteriormente na série. Le Chiffre, Mr. White e Silva, os vilões das últimas histórias, reaparecem em pessoa ou em diálogos para mostrar que até agora tudo o que o agente britânico fez foi enfrentar os braços infinitos da Spectre, uma organização gigantesca (que não por acaso usa o símbolo de um polvo marinho) comandada pelo misterioso Blofeld (Christoph Waltz). Blofeld é irônico, inteligente e falastrão (tudo aquilo que podemos esperar de um personagem do Waltz) e, mesmo sem oferecer um desafio físico à altura de Bond (tarefa que fica a cargo do Mr. Hinx do Dave Bautista), coloca a vida do herói em risco naquela cena que, de hoje em diante, fará qualquer sala de consultório odontológico parecer um parque de diversões.

007 Contra Spectre - Cena 2Spectre ainda nos oferece a chance de ver, de duas formas distintas, que o mundo realmente está mudando. A primeira diz respeito ao perfil das Bondgirls. Monica Bellucci, deusa de outrora, aparece rapidamente como uma viúva da qual Bond aproxima-se apenas para conseguir informações. O par romântico da vez é a lindinha e modernosa Léa Seydoux, que apareceu para o mundo como a lésbica do cabelo azul de Azul é a Cor Mais Quente. A outra mudança está na forma como a justiça é aplicada. Da mesma forma que há uma onda de violência e intolerância no mundo que clama por ações policiais como aquela vista no final do primeiro Tropa de Elite, há também quem defenda que não podemos combater o mal com o mal, que não é possível fazer justiça praticando exatamente os mesmos atos praticados pelos criminosos. Bond, que até então sempre usara sua “licença para matar” sem pestanejar em nome “de um bem maior”, terá no último confronto com Blofeld a chance de reavaliar seu papel enquanto defensor da paz. Por concordar com a linha de raciocínio desenvolvida nessa cena e por ter gostado de todas as sequências de ação absurdas, saí do cinema bastante satisfeito com 007 Contra Spectre. Pelo que li, o Daniel Craig ainda tem contrato para interpretar o personagem criado pelo Ian Fleming em pelo menos mais um filme, então fico na torcida para que o próximo título seja tão bom ou melhor do que esse para que a “Era Craig” termine com saldo positivo.

007 Contra Spectre - Cena 3

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  1. Excelente texto. Pelo que li, ficarei feliz de ver os rumos que a série está tomando. Aguardo chegar nos cinemas daqui!

  2. Goste do filme principalmente pq voltou o glamour dos filmes do 007 e sem diminuir a ação que prende a atenção.

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