Cobain: Montage of Heck (2015)

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Cobain - Montage of HeckMesmo sem nunca ter sido a minha banda favorita, o Nirvana sempre esteve presente na minha vida depois que comecei a ouvir rock lá por volta do ano 2000. Músicas como Lithium, In Bloom e Negative Creep tem presença garantida em todas as playlists que monto, utilizei a letra da Smells Like Teen Spirit mais de uma vez na faculdade para falar sobre análise do discurso e, assim como todo mundo que algum dia começou a aprender tocar violão, já passei algumas tardes dedilhando os acordes iniciais da fácil e empolgante Come as You Are. Gosto do som, mas, parando para pensar, percebo que, quando trata-se da banda, o meu maior interesse é mesmo pela conturbada figura de seu vocalista: ainda que até hoje eu não tenha explorado completamente os álbuns Bleach e In Utero, já li o Heavier Than Heaven, biografia escrita pelo autor Charles R. Cross sobre o Kurt Cobain, e coloquei esse Cobain: Montage of Heck na minha lista de interesses tão logo ele foi anunciado. Mais do que o “maluco que masturbou-se no palco durante um show” ou o “drogadão que cometeu suicídio”, vejo o Cobain como uma figura trágica cuja incrível força criativa, apesar de ter mudado significativamente a história do rock, não foi suficiente para salvar ele mesmo da autodestruição. Esse ótimo documentário do diretor Brett Morgen ajuda-nos a entender um pouco melhor essa contradição.

Para contar a trajetória do vocalista, Morgen mistura depoimentos, filmagens de shows, vídeos caseiros e belíssimas animações baseadas nas anotações encontradas nos cadernos do líder do Nirvana. Optando por seguir a linha temporal, o diretor começa Montage of Heck com imagens do bebê Kurt dando os primeiros passos no seio de uma família que estava prestes a ser dissolvida. Apesar de não ser uma prática comum na época, os pais de Kurt divorciam-se e isso faz com que ele, que é descrito como uma criança reclusa e desobediente, cresça em lares diferentes dos quais ele sempre acabava sendo expulso devido ao mau comportamento. Esse começo, apesar de meio burocrático devido aqueles comentários previsíveis típicos de familiares (‘desde pequeno ele era MUITO criativo’), serve para vermos como inicia-se a relação de Kurt com o sexo, tema que moldaria significativamente sua futura personalidade. Consta que ele, já um pré-adolescente, perdeu a virgindade com uma garota que na região era considerada “retardada”. As zoações dos colegas foram impiedosas, mas nenhuma crítica foi pior do que aquelas que o próprio Kurt fez a si mesmo: invadido por um agoniante sentimento de culpa, ele tenta suicidar-se pela primeira vez e, ao que parece, passa a considerar o sexo como algo cínico e até mesmo bizarro, como pode ser visto, por exemplo, na letra da Moist Vagina (Ela tinha uma vagina úmida/Eu, particularmente, adorei a circunferência/Estive chupando as paredes do ânus dela).

Cobain - Montage of Heck - Cena 2Na sequência, Morgen passa a explorar o período de incubação do Nirvana, época em que Kurt deixou a família e foi morar com uma namorada. Trabalhando em serviços irregulares, ele passava a maior parte do tempo em casa tocando guitarra, desenhando e vendo televisão. A tal namorada descreve-o como uma pessoa hiperativa (ele simplesmente TINHA que estar fazendo alguma coisa o tempo todo) e alguns entrevistados, entre eles o Krist Novoselic, ex-baixista do Nirvana, comentam como Kurt conheceu e passou a gostar de punk rock. Aqui, fica claro que a intenção do diretor era contar a história do homem, e não a do músico ou de sua banda: Morgen não incluiu o Dave Grohl no documentário (inicialmente, por questões de agenda, depois por achar que era desnecessário) e não preocupa-se em dissecar o estilo de Kurt tocar ou compor. Quando fala dos primeiros passos do Nirvana, o diretor prefere focar na relação contraditória do vocalista com o outro. Apesar de considerar críticas como uma “forma de humilhação”, Kurt pode ser visto, em vídeos caseiros registrados por amigos, lendo obsessivamente tudo que a mídia publicava sobre a banda. Para quem sempre dizia em entrevistas que o que deveria importar era somente sua música, Kurt preocupava-se demais com a forma como os outros enxergavam ele e sua arte.

Cobain - Montage of Heck - Cena 4No meio de filmagens de shows históricos da banda (entre eles, o tal em que ele ‘simula’ masturbar-se no palco), versões orquestradas de hits como Heart Shaped Box, histórias de bastidores (as desavenças com o Axl Rose são citada várias vezes) e as tais animações que ajudam-nos a compreender a mente atormentada de Kurt (gostei muito daquela em que um bebê explode a cabeça de um cara com um chute rs), surge a extravagante Courtney Love. Apontada por muitos como a grande vilã da curta história do Nirvana, a ex-esposa de Kurt fala sobre como eles usavam drogas descontroladamente, sobre a polêmica pública em que se transformou sua gravidez (ela consumiu heroína durante a gestação) e a suposta traição que, como muitos levianamente apontaram, teria levado Kurt ao suicídio no mês de abril de 1994. Courtney defende-se, assumindo que, apesar de ter pensado em trair o marido, nunca chegou a fazê-lo, e abre seu arquivo pessoal para mostrar a paixão de Kurt pela filha do casal, Frances Cobain.

Cobain - Montage of Heck - Cena 3Esse final, que é marcado pela gravação do famoso MTV Unplugged da banda e pelas internações por overdose do vocalista, é particularmente triste porque mostra alguém que, mesmo com todos os motivos para ter uma vida feliz (fama, dinheiro, família) sucumbiu diante do desespero. Kurt prometeu que abandonaria tudo e todos para cuidar de Frances. Ele não queria ela precisasse passar pelos mesmos problemas familiares que ele passou, mas sua mente fragilizada, que provocou empatia expondo a apatia de toda uma geração pós-Guerra Fria, não foi forte o suficiente para cumprir a promessa. Por saber que, assim como Kurt, também tenho defeitos que, por mais que eu me esforce, simplesmente não consigo deixar de lado e, por considerar que o diretor Brett Morgen realizou um ótimo trabalho de edição e condução de entrevistas, considerei Cobain: Montage of Heck um ótimo documentário sobre rock e uma excelente oportunidade para reflexão.

Cobain - Montage of Heck - Cena

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