Vinhas da Ira (1940)

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Vinhas da IraTal qual eu havia relatado aqui, comecei a dar aulas de História em uma escola do Estado. A atividade, infelizmente, tem consumido quase todo o meu tempo livre (meu último post foi há mais de 10 dias =/), mas também tem sido gratificante em vários sentidos. Dia desses, por exemplo, eu estava explicando para os alunos sobre a Crise de 1929 nos EUA. O livro didático traz o básico sobre o assunto: pico de produção, oferta desenfreada de crédito, quebra da Bolsa de NY e o New Deal do presidente Franklin Delano Roosevelt. É o suficiente para uma aula expositiva? Sim, mas ao meu ver também é um conteúdo que tem tudo para ser maçante (distância temporal e geográfica da realidade dos estudantes) se não for aliado a algum outro tema/mídia que torne-o mais “palpável” para a garotada, que tem em média entre 16 e 18 anos. Na oportunidade, tive então a chance de falar para eles sobre esse Vinhas da Ira (a resenha está saindo com um atraso considerável), filme que eu acabara de ver e que dá nome e rostos para aquelas pessoas as quais o livro, em sua compreensível generalidade, refere-se apenas como “vítimas da Crise de 29”. Esse episódio me deixou feliz porquê, fora eu ter percebido que a abordagem aumentou o interesse deles, foi bom poder utilizar o cinema como instrumento de trabalho.

Baseado na pesquisa que o escritor John Steinbeck converteu em um aclamado romance, Vinhas da Ira conta a história de uma família que vê-se obrigada a migrar para a Califórnia em busca de emprego. Tendo vendido todas as suas terras por um preço irrisório para uma grande companhia agrícola, os personagens colocam todos os seus pertences em um caminhão velho e partem do estado de Oklahoma em busca de um trabalho que possa garantir-lhes a sobrevivência.

Antes de contar-lhes como utilizei essa história para ilustrar uma aula sobre “Crise de 29”, digo-lhes o que achei do trabalho do diretor John Ford. Estou terminando de ler o bacana The Film Book, um guia sobre a história do cinema mundial, e as citações sobre Ford são constantes. Descrito muitas vezes como “visionário” e como “um homem que soube compreender as mazelas de seu tempo”, o diretor é considerado um dos maiores expoentes da chamada Era de Ouro de Hollywood. Como foi o primeiro filme dele que assisti, não tenho condições de falar sobre sua obra como um todo, mas o que vi me fez acreditar que todos os elogios que li são merecidos.

Vinhas da Ira - Cena 4Vinhas da Ira é um drama contado no formato de um road movie (filme de estrada/viagem) que, apoiado em um notável trabalho de fotografia e uma atuação memorável do ator Henry Fonda, consegue transmitir uma mensagem de esperança sem transformar-se em um simples veiculo panfletário para as ideologias da época. Tom Joad, personagem de Fonda, começa a trama caminhando rumo a uma encruzilhada. O simbolismo da cena dá o tom do que veremos durante todo o filme, ou seja, um homem e sua família diante de situações que exigirão tomadas de decisões constantes. Os perrengues enfrentados por eles, consequências diretas da Crise de 29, poderiam ser retratados em um esquema do tipo “trabalhador coitadinho vs. Governo malvadão”, mas felizmente Ford opta por ir além desse maniqueísmo para mostrar que a solidariedade e a persistência são tão importantes em períodos de crise quanto as políticas econômicas sociais adotadas para superá-las.

Vinhas da Ira - CenaApós verem sua casa ser demolida (o que acontece em uma cena belíssima: caída a última parede, Ford mostra apenas a sombra dos personagens, como se eles tivessem sido reduzidos àquela condição), Tom e sua família partem para a Califórnia e, no caminho, encontram todo o tipo de gente. Vemos então a desonestidade dos agricultores que aproveitam o desespero alheio para lucrar e a indiferença da polícia com a situação dos migrantes, mas vemos também pessoas que conseguem sensibilizar-se com a luta dos personagens e que ajudam a tornar esse mundo um lugar menos miserável. Nesse sentido, a comunidade governamental que a família encontra após um longo período de reveses surge como um sonho depois de um pesadelo, mas é principalmente na cena ocorrida logo no início, em uma mercearia à beira da estrada, que vemos o poder da ação individual. Tom, que não tinha dinheiro suficiente para comprar um pão, é hostilizado por uma funcionária do local. Repreendida pelo patrão, que ordena que ela venda o produto mais barato, a mulher percebe o erro de julgamento que havia cometido e acaba ajudando o personagem a comprar algumas balas também. Como vemos na sequência, esse ato, apesar de pequeno, faz toda a diferença para os personagens.

Vinhas da Ira - Cena 2Eis a ligação que achei válida realizar com os alunos entre “Crise de 29”, esse Vinhas da Ira e a atualidade: solidariedade. Eu poderia ter falado sobre políticas estatais de caráter assistencialista, comparar situações anacrônicas ou até mesmo apontar “culpados” para a atual crise econômica/política brasileira (o que, obviamente, me obrigaria a assumir um arriscado posicionamento político), mas preferi extrair da história aquilo que ela tem de mais prático. A família de Tom poderia ter curvado-se diante das dificuldades, o dono da mercearia poderia não ter vendido o pão mais barato e a Mamãe Joad, personagem que rendeu um Oscar de Melhor Atriz para a Jane Darwell, poderia não ter compartilhado com as crianças pobres do acampamento a pouca quantidade de sopa que ela conseguiu preparar. Eles optaram, no entanto, por não desistirem e por ajudarem, cada um a sua maneira, os mais necessitados. Essa mensagem, algo verdadeiramente atemporal e apartidário, rendeu um ótimo filme e uma excelente aula.

Vinhas da Ira - Cena 3

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Uma resposta »

  1. Esse filme é um tapa na cara dos cidadãos hipocritas que criticam as políticas socio – econômicas de caráter assistencialista, que varias vezes é a única renda de uma família .

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