Peter Pan (2015)

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Peter PanComo o meu tempo para assistir e resenhar filmes está ficando cada vez mais escasso devido a essa aventura level hard interminável chamada “vida adulta”, estou procurando ser bem criterioso com o que escolho para ver, porém nem sempre uma análise a posteriori me ajuda a evitar perder tempo com produções mequetrefes.

No último final de semana, por exemplo, fui ao cinema e, na impossibilidade de assistir todos os lançamentos tal qual eu fazia há uns 3 anos, vi-me na obrigação de escolher entre dois títulos. Um era o A Travessia, versão hollywoodiana do Robert Zemeckis (Forrest Gump) para a incrível história que já havia sido contada em 2008 no vencedor do Oscar de Melhor Documentário O Equilibrista. O outro era esse Peter Pan, nova roupagem do diretor Joe Wright para o clássico do inglês J. M. Barrie sobre o menino voador da Terra do Nunca. Ainda que a primeira opção possuísse mais atrativos (gosto do Zemeckis, a história é fantástica), acabei optando pela segunda confiante de que aquilo que eu havia visto no trailer renderia um bom filme. E o que esse trailer tinha para me deixar tão esperançoso? Um barco velejando através de bolhas d’água flutuantes, um crocodilo gigantesco saltando em um lago e um menino atrevido dizendo que nunca curvaria-se diante de um vilão, tudo isso ao som de uma música bonitinha que conferia às cenas um aspecto de sonho bom. É uma pena que, mais uma vez, o Joe Wright tenha concentrado-se mais no visual do que no roteiro, fazendo desse Peter Pan a adaptação mais fraca dentre todas as que já vi até hoje para a história do personagem.

Peter Pan - Cena 5Nessa onda recente de oferecer novos pontos de vista sobre histórias clássicas, Wright leva-nos até os primórdios da infância de Peter (Levi Miller) para contar-nos como ele conheceu seus principais aliados e inimigos. Peter, que havia sido abandonado ainda bebê pela mãe, é sequestrado de um orfanato pelos piratas comandados pelo terrível Barba Negra (Hugh Jackman) e levado até a mágica e misteriosa Terra do Nunca, lugar em que ele descobre, entre outras coisas, que pode voar. Aliando-se ao malandrão James Hook (Garrett Hedlund), o garoto consegue escapar do cativeiro e passa então a investigar informações sobre o paradeiro de sua mãe.

Se, no futuro, eu ler algo a respeito dos produtores do Peter Pan terem intervido no processo de produção desse longa tal qual os do Quarteto Fantástico o fizeram naquela bomba lançada esse ano pela Fox, sorrirei discretamente e pensarei comigo mesmo “Eu sabia!” rs A impressão que tive é a de que vi duas propostas completamente distintas condensadas em um único filme, como se o diretor tivesse sido obrigado a mudar subitamente o que estava fazendo devido a algum tipo de pressão externa. Claro que o Wright também pode simplesmente ter errado feio na conclusão da trama, ofertando em sua metade final um produto de ação genérico bem abaixo do espetáculo visual e sonoro que ele mostra no início, mas é difícil acreditar que algo que começou tão bem termine de forma tão desastrosa assim, sem mais nem menos.IMG_1779.DNGMesmo que, no fim das contas, esse Peter Pan seja decepcionante, ninguém ousará dizer que o começo promissor dele não é capaz de nos empolgar e levar-nos de volta à infância. As cenas no orfanato, apesar de esbarrarem nas atuações forçadas do elenco infantil (sério, crianças não conversam daquele jeito), são bem divertidas e até mesmo surpreendentes. É difícil, por exemplo, tu ver um filme “para a família” em que meninos falam sobre peido (rs) e que freiras tentam matar livrar-se de garotos fazendo-os executarem serviços perigosos. Terminada essa mistura de Chiquititas com Charles Dickens, Joe Wright utiliza o que há de melhor na computação gráfica atual para criar a cena fantástica em que os piratas invadem nosso mundo para sequestrar os órfãos. No geral, o 3D do filme não tem nada de inovador (profundidade, objetos que são arremessados contra o espectador), mas aqui ele é fundamental para a grandiosidade da cena, que começa rápida e empolgante, com uma incrível batalha aérea, e termina com a linda e poética passagem do barco navegando no espaço/céu relatada no primeiro parágrafo.

PANEm seu pico de diversão, Peter Pan traz o Hugh Jackman cantando uma versão cadenciada da Smells Like Teen Spirit do Nirvana. Depois disso, infelizmente, a qualidade cai drasticamente. O visual da tribo dos Garotos Perdidos é legal, mostrar o início da relação entre o Gancho e o Smee foi um acerto e o Crocodilo Tic Tac está amedrontador, mas é inegável que a segunda parte da trama é carente de cenas empolgantes. Há uma luta meia boca entre o Gancho e um primo do Jet Li, muita correria e uma tentativa boba de utilizar a personagem da Rooney Mara em cenas românticas. Sem nada parecido com as belezas conceituais do início, quase caí no sono quando os personagens foram procurar o tal Reino das Fadas e, quando percebi, o filme já estava em sua última cena, uma batalha genérica envolvendo todos os personagens. Aqui, dois dos momentos que deveriam emocionar o espectador (o ‘encontro’ de Peter e sua mãe; o personagem finalmente dominando a técnica de voo) são feitos às pressas para cederem tempo para a pancadaria, que não traz absolutamente nada que tu vá lembrar uma semana depois de ver o filme.

Wright começa a trama com um diálogo dizendo que, às vezes, “inimigos começam como amigos e vice e versa”. O que é possível concluir disso? Que ele colocará Peter e Gancho do mesmo lado e depois nos mostrará como a relação azedou, certo? Sabe-se lá por qual motivo (para deixar um ‘gancho’ para uma continuação, talvez?), o diretor resolveu não mostrar o que separou os personagens. O Gancho perdendo a mão? Também não é aqui que tu verá isso. Peter Pan, tal qual o último filme do diretor, é uma experiência visual magnífica, mas o roteiro deixa muito a desejar e torna o longa simplório demais. Abordando a história diretamente, aquele filme de 2003 ainda é muito melhor. Explorando outras possibilidades envolvendo o conto, o Em Busca da Terra do Nunca continua insuperável. Como escolha de filme para o final de semana, foi uma aposta infeliz.

Peter Pan - Cena

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