A Canção do Oceano (2014)

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A Canção do OceanoSaoirse, a menininha bonita que ilustra o pôster ao lado, é uma selkie. O que é uma selkie? Segundo o folclore irlandês, selkies são focas mágicas (!!!) que arrastam-se até a praia durante a noite e, transformadas em belas mulheres ou em homens do queixo quadrado, seduzem os transeuntes mais desavisados. Não pensem, porém, que A Canção do Oceano é sobre uma ninfa seduzindo marmanjos na beira do mar: de fato, é inevitável não apaixonar-se por Saoirse, mas isso acontece principalmente devido a pureza e a determinação que a personagem demonstra ao longo dessa história, na qual ela deve retornar à sua forma primitiva para salvar a si mesma, algumas fadas (!!!²) e os adultos amargurados com os quais ela convive.

Antenado que folclore e história oral caminham lado a lado, o diretor Tomm Moore começa o filme com uma bonita cena onde uma mãe passa para o filho os ensinamentos sobre as selkies. Bronach, que está grávida, diz para o pequeno Ben que “há mais sofrimento no mundo que ele possa entender” e presenteia-lhe com uma concha que guarda em seu interior o som do oceano. Naquela mesma noite, após Bronach não resistir ao parto, Saoirse chega ao mundo no seio de uma família destruída. Os anos passam e Ben, que até então fora uma criança feliz e criativa, fecha-se sobre si mesmo e passa a culpar a irmã pela perda da mãe.

Eu queria ter visto esse filme no começo do ano, na época do Oscar, mas infelizmente isso não foi possível. Dentre todos os concorrentes à estatueta de Melhor Animação, A Canção do Oceano foi o único que não encontrei no cinema/internet antes da premiação. Ironia do destino, uma semana após a Academia consagrar injustamente o Operação Big Hero, lá estava o longa disponível para download rs Cansado que eu estava após quase 3 meses vendo apenas produções indicadas ao Oscar, fui deixando-o de lado até hoje, quando já começam a surgir matérias em sites especializados sobre os prováveis concorrentes de 2016. Como a partir do mês que vem eu pretendo dedicar-me quase que exclusivamente a esses títulos, entrego-lhes agora a minha última resenha do Oscar de 2015, tarefa, aliás, que faço com alegria: é bom divulgar filmes legais como esse A Canção do Oceano.

A Canção do Oceano - Cena 2Para contar a lenda das selkies, o diretor Tomm Moore optou por um tipo de animação que está cada vez mais rara nos dias de hoje. No lugar da computação gráfica que tem ditado as regras em Hollywood, Moore combina o processo tradicional, que envolve traços manuais, com cenários feitos para lembrarem uma pintura. O resultado, como não poderia deixar de ser, é belíssimo e casa perfeitamente com o roteiro que tenta resgatar um pouco da inocência do mundo. Prestem atenção na sequência em que Saoirse utiliza um casaquinho de peles para transformar-se em selkie pela primeira vez: o mergulho dela com as outras focas não parece algo saído diretamente da imaginação de uma criança? É simplesmente MUITO bonito.

A Canção do Oceano - Cena 4Sobre a história, apesar dos personagens infantis, nota-se que o diretor trabalha temas essencialmente adultos. Ben sofre pela perda da mãe e isso faz com que ele maltrate bastante a irmã no começo do filme. A primeira reação da gente, óbvio, é classificar o comportamento dele como birra. Analisando um pouco mais a situação e fazendo a comparação com a trama do gigante Mac Lir que é contada paralelamente, vemos que o sofrimento do menino não é muito diferente de algumas dores que todos nós carregamos em nossos corações. A Canção do Oceano nos dá uma valorosa lição sobre como, mais do que tentar evitar esses percalços da vida, devemos valorizá-los como parte importante do nosso processo de amadurecimento, sem os quais nos tornaríamos pessoas frias, verdadeira estátuas ambulantes como sugere a esperta analogia feita pelo diretor.

A Canção do Oceano - CenaMoore conta-nos um pouco sobre o folclore de seu país (ele é irlandês), encanta nossos olhos e nos emociona com a história de Saoirse, mas, no geral, ele não foge muito dos moldes de uma aventura tradicional. Ben e a irmã precisam realizar uma viagem de regresso para casa e, no caminho, eles encontram crianças vestidas com roupas de Halloween, personagens engraçadinhos que cantam músicas engraçadinhas e corujas demoníacas (!!!³). As diferenças linguísticas me fizeram rir do nome do cachorro de Ben (‘Cu’, que significa ‘cão’ na Irlanda rs) e, mesmo que seja um tanto quanto previsível, gostei bastante do final. A Canção do Oceano não era o melhor dentre os concorrentes ao Oscar de Melhor Filme (ainda continuo achando que a estatueta deveria ter ido para o Como Treinar o Seu Dragão 2), mas não tenho dúvidas de que ele merece a visibilidade oferecida pela premiação. Deem uma chance para a pequena Saoirse, não há como arrepender-se.

A Canção do Oceano - Cena 3

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