O Pequeno Príncipe (2015)

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O Pequeno PríncipeNo último dia 15 de agosto acordei com 30 anos de idade, sujeito formado, senhor do meu próprio destino, dono de uma casa e titular de alguns boletos bancários que vencem, imperdoavelmente, todo quinto dia útil do mês. Já tem um bom tempo que venho brincando desse negócio de ser adulto e, na maior parte do tempo, fico feliz com os rumos que a minha vida tomou, mas vez ou outra não consigo evitar de olhar para o caminho que estou trilhando e sentir uma pitada de preocupação com os lugares aos quais ele parece levar. Esse tipo de autorreflexão, mais do que um lugar comum para quem adentra uma nova década de existência, é extremamente importante para lembrar-nos daquilo que realmente importa na vida, que é ser feliz. De que adianta obter sucesso profissional e dinheiro se você não consegue dormir bem assombrado por preocupações e pensamentos negativos frutos da forma exageradamente sistematizada e cética que tu encara o mundo? Será possível, depois do passar inexorável dos anos, voltar a “enxergar com o coração” e lembrar-se do quão belo o mundo parecia durante a nossa infância?

Nessa adaptação do clássico da literatura infantojuvenil escrita pelo francês Antoine de Saint-Exupéry, o diretor Mark Osborne (Kung Fu Panda) nos mostra como uma garotinha conseguiu salvar a si mesma da vida chata e padronizada que a mãe havia planejado para ela. A menina abandona uma rotina rígida de exercícios e estudos que poderiam garantir-lhe um ótimo emprego para passar os dias ouvindo as histórias sobre um Pequeno Príncipe contadas por seu vizinho, um aviador velhinho e amistoso.

O Pequeno Príncipe - Cena 5Então quer dizer que, continuando o raciocínio do primeiro parágrafo e aplicando o que vemos aqui nesse O Pequeno Príncipe, a chave para ser feliz é livrar-se de toda e qualquer forma de obrigação e viver a vida despreocupadamente, fazendo apenas aquilo que for agradável? Não, isso seria uma interpretação simplista e pouco pragmática da história e da própria vida. A lição, por assim dizer, que pode ser extraída tanto do filme quanto do livro (que eu reli antes de escrever essa resenha) é a de que é preciso estar atento para que os afazeres que a vida adulta nos impõe não acabem limitando-nos e definindo-nos enquanto pessoa. Isto posto, acredito que essa animação, ao contrário do que normalmente acontece, agradará mais ao pessoal mais velho do que as crianças, visto que, dependendo do quanto você deixar-se envolver-se pela história, a sessão poderá transformar-se em uma verdadeira catarse. Pessoalmente, “mergulhei de cabeça” no que vi e não me arrependi: O Pequeno Príncipe, assim como o Divertida Mente, me fez entrar em contato comigo mesmo e me ajudou a rever algumas prioridades na minha vida.

O Pequeno Príncipe - Cena 4Enquanto a molecada da sala de cinema divertia-se com as cenas de ação e com o visual caprichado da animação (comentarei mais sobre isso a seguir), eu estava lá no meu cantinho reavaliando algumas coisas após enxergar-me nos personagens e, obviamente, não ter gostado do que vi. A menininha e sua mãe (personagens que não possuem nomes e que, portanto, poderiam ser qualquer um de nós) seguem um planejamento bizarro de afazeres com o objetivo de tornarem-se pessoas “melhores” e bem sucedidas. O quadro em que a mãe registra a programação diária da garota é exagerado e caricatural, mas isso não me impediu de perceber, por exemplo, o quão bobo é estabelecer rotinas cansativas de atividades, tanto físicas quanto intelectuais, e achar que isso algum dia me fará feliz. Estudar, adquirir cultura através de filmes e livros e cuidar do corpo podem ser os meios, mas não os fins, para uma vida satisfatória, ou seja, não há porque privar-se da companhia da família, de um amigo ou de quem você ama em função de um pretenso autoaperfeiçoamento.

O Pequeno Príncipe - Cena 3Mark Osborne, portanto, não dirigiu uma simples adaptação do conto original, mas sim uma história sobre alguém interagindo com esse conto (caso o leitor não conheça o livro, a ‘menininha’ e a ‘mãe’ não existem na obra do Saint-Exupéry). Essa abordagem é legal porquê, mais do que utilizar a computação gráfica para dar vida ao carismático e estupefato Pequeno Príncipe, nos permite acompanhar como as personagens (principalmente a garotinha) interpretaram e aplicaram o que viram no livro em suas vidas e, com isso, conseguiram tornarem-se pessoas mais felizes. Aqui, devo fazer uma pausa no texto para contar-lhes algo especial que esse O Pequeno Príncipe me proporcionou.

O Pequeno Príncipe - Cena 6Estou tentando terminar essa resenha desde a semana passada. Geralmente, quando eu gosto MUITO de um filme, tenho dificuldade para escrever sobre ele, visto que o primeiro impulso é tecer um número sem fim de elogios, abordagem que não me agrada e que procuro evitar sempre que possível. Ontem, depois de reler o último parágrafo que eu havia escrito (ali onde digo que o filme mostra como as personagens aplicaram os ensinamentos do livro em suas vidas), decidi usar o que aprendi com o Saint-Exupéry para combater o “bloqueio criativo” que me assombrava: fui rever O Pequeno Príncipe e levei minha mãe comigo. Por uma infinidade de motivos que só podem serem definidos como “esquisitices de adultos”, não tenho tido muitas oportunidades de ficar a sós com ela e ter aquele tipo de momento que todo filho, independente da idade, precisa ter com a própria mãe. Sentados lá no escuro aconchegante do cinema, presenciamos então a história de uma mulher e uma criança que reencontraram o caminho de volta para o coração uma da outra e, como não poderia deixar de ser, todos aqueles bons sentimentos serviram para reforçar nossos laços e nos deram um dos momentos mais bonitos de nossa história juntos. Não tenho vergonha nenhuma de dizer que passei toda a cena final deitado no ombro dela chorando e que isso, ao meu ver, responde com um estrondoso “SIM” a pergunta (É possível voltar a “enxergar o mundo com o coração”?) que eu fiz no primeiro parágrafo. A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar…

O Pequeno Príncipe - CenaO Pequeno Príncipe me ofereceu a experiência mais emocionante e significativa que eu tive com cinema nos últimos anos. É verdade que muito disso deve-se a fatores subjetivos, mas também é justo dizer que o filme possui qualidades para agradar mesmo quem não esteja disposto a usá-lo para repensar a própria vida. O diretor Mark Osborne e sua equipe encheram o longa de músicas aconchegantes, daquelas que são capazes de transformar uma cena comum em um momento mágico, e realizaram um trabalho absurdamente bonito na parte visual. Para contrastar com o mundo “adulto” excessivamente cinza, geométrico e sem personalidade em que acontece a adaptação, Osborne misturou CGI e animação em stop motion para dar vida as andanças do Pequeno Príncipe. Papel crepom, panos, massinha e até mesmo madeira entalhada foram filmados, com uma sensibilidade ímpar, para compor as lembranças do aviador sobre o seu amigo vindo do asteroide B612. “Lindo” é pouco para definir. Junte a isso diálogos que, apesar de profundos e claramente dedicados ao público adulto, são colocados de forma direta e simples (tal qual são os questionamentos de uma criança) e pronto, temos uma experiência de vida completa pelo preço de um ingresso de cinema.

É isso aí, pessoal. Vi O Pequeno Príncipe duas vezes nos últimos 7 dias, reli o livro e agora estou aqui dizendo-lhes que ele me fez repensar algumas prioridades. Se, depois disso tudo, vocês ainda não convenceram-se de que trata-se de um filme cativante, cheio de coisas essenciais que são invisíveis aos olhos, não me restam palavras para fazê-los mudar de ideia. Ainda assim, desejo sinceramente que cada um de vocês que chegaram ao final desse texto longo possam um dia sentir o que eu senti vendo esse filme. Faz bem, de verdade 🙂

O Pequeno Príncipe - Cena 2

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  2. Acompanho o blog há cerca de um ano e sempre me identifiquei muito com suas impressões e perspectivas, todavia nunca tanto quanto agora, ao ler sua opinião sobre o Pequeno Princípe. Fiquei, realmente, muito tocada com a precisão e sensibilidade com as quais vc descreve a história e os sentimentos que ela lhe despertou.

    • Muito obrigado pelas palavras gentis, Clara. Por todos os sentimentos envolvidos, esse texto foi difícil de terminar, fico feliz que o resultado tenha agradado.

      Abraço

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