Monsieur Verdoux (1947)

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Monsieur VerdouxAtores marcados por seus trabalhos em comédias costumam dar-se muitíssimo bem quando aparecem em produções mais “sérias” de drama e suspense. Acostumados que estamos a associar seus rostos à cenas cômicas, olhamos com estranhamento e surpresa quando eles aparecem na tela depressivos ou cometendo algum crime bárbaro, sendo as interpretações do Steve Carell no recente Foxcatcher e o do Robin Williams no Insônia bons exemplos de como essa discrepância pode ser utilizada para a construção de personagens controversos.

Em 1947, 7 anos depois de lançar O Grande Ditador, Charles Chaplin, seguramente um dos maiores (senão o maior) humorista de Hollywood de todos os tempos, deu um passo arriscado em sua carreira e decidiu interpretar um assassino em série. Baseado em um roteiro escrito pelo lendário Orson Welles (Cidadão Kane) sobre a vida do francês Henri Désiré Landru, o criminoso que ficou conhecido como “Barba Azul”, Chaplin dirigiu e estrelou um filme de humor negro que explora a dualidade que cada um de nós carrega dentro si. O público da época foi impiedoso com essa mudança de ares do cineasta e lhe impôs um de seus piores resultados de bilheteria até então. Escolhi-o, sem saber desse contexto, apenas porque queria ver outro filme do ator (putz, passaram-se quase 3 anos desde que vi o Em Busca do Ouro!) mas, agora que tomei conhecimento dessa rejeição, não posso deixar de usar esse texto para argumentar contra ela.

Henry Verdoux (Chaplin), mais conhecido como Monsieur Verdoux, é um ex-funcionário de banco que perdeu seu emprego após a grande depressão que marcou o início dos anos 30. Sem dinheiro e com esposa e filho para sustentar, Verdoux passa a viajar em território francês em busca de mulheres, sobretudo viúvas e velhas solteironas, com o objetivo de relacionar-se com elas e, posteriormente, assassiná-las e roubar seus bens. Denunciado pela irmã de uma das vítimas, o personagem passa a ser seguido por um inspetor de polícia enquanto tenta aplicar um novo golpe em uma ricaça.

Monsieur Verdoux - CenaMonsieur Verdoux acaba sendo uma boa oportunidade para pensarmos sobre a tal “zona de conforto”. Em um nível mais superficial, há o fato do Chaplin estar fora de seu estilo interpretando um vilão em um filme de suspensse. Acredito que, sempre que o nome do ator é citado, a primeira imagem que vem na cabeça das pessoas é a do Vagabundo que ele vive em filmes como Luzes da Cidade. Em 1947, com o cinema mudo que o consagrou praticamente morto e enterrado, era de se esperar que o cineasta apostasse nesse estereótipo para conseguir manter-se na ativa. Surpreende, portanto, pensar que ele abriu mão de sua “fórmula de sucesso” para dedicar-se a um projeto diferente e arriscado que lhe permitisse mostrar outra faceta de seu talento. Monsieur Verdoux tem algumas cenas de humor que poderiam estar em qualquer um dos clássicos do ator, momentos divertidos como aquele em que ele tenta jogar uma de suas muitas esposas em um rio, mas a maior parte da trama é dedicada a passagens em que o sorriso cínico do personagem esconde o instinto de sobrevivência de um animal acuado. O Chaplin, que sempre fez todo mundo rir, definitivamente mostrou que também era capaz de amedrontar.

Monsieur Verdoux - Cena 3Ainda sobre a “zona de conforto”, o filme trata das consequências que eventos imprevisíveis e incontroláveis podem ter na vida de um cidadão comum e o que ele está disposto a fazer para superá-los. Verdoux era um bom trabalhador e pai de família até o momento em que a crise financeira fê-lo perder o emprego. Retirado do conforto e da segurança que o trabalho lhe proporcionava, o personagem poderia muito bem buscar forças para reinventar-se e encontrar uma forma honesta de ganhar a vida e sustentar sua família, mas a raiva e a frustração por ter perdido tudo devido a um problema que ele não contribuiu diretamente para criar foi preponderante para que ele entrasse sem remorso no mundo do crime. Em tempos de crise e concorrência incessante no mercado de trabalho, quando precisamos aperfeiçoarmo-nos constantemente para mantermos nossos postos, o relato de Verdoux em que ele diz que usou sua inteligência para o bem até que o mundo obrigou-o a ser mal fizeram-me pensar no quão tênue é a linha que separa a honestidade do desespero. O discurso do personagem no final, uma relativização dos conceitos de bem e mal, é um tapa direto na cara de políticos e empresários que manipulam o sistema em benefício próprio sem preocuparem-se com as consequências nefastas que isso pode trazer para os trabalhadores. Verdoux pode até ter optado pelo caminho errado, mas é difícil deixar de reconhecer que ele também é uma vítima e um produto de erros cometidos em instâncias superiores.

Monsieur Verdoux - Cena 4Monsieur Verdoux, portanto, traz o Chaplin de um jeito que nós não estamos acostumados a ver e um roteiro que mescla o lado cômico e humanitário do ator com a visão de mundo por vezes desoladora e sombria do Orson Welles. Gostei muito da forma como utilizam a música para “contar sem mostrar” algumas passagens mais violentas, como quando Verdoux entra com uma mulher em um quarto e a melodia nos dá a certeza de que ela não sairá viva de lá, e dos bons sentimentos que exalam do encontro do assassino com a personagem da atriz Marilyn Nash, um raio de esperança e inocência no meio de todo o cinismo e frieza associado as questões financeiras colocadas pelo filme. Ótimo filme, ótima interpretação, o único motivo que me ocorre para justificar a rejeição do público na época do lançamento é o mal da mente fechada que insiste em sempre querer mais do mesmo.

Monsieur Verdoux - Cena 2

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