Entre os Muros da Escola (2008)

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Entre os Muros da EscolaAno passado, durante uma aula do primeiro período do curso de Letras, a professora nos deu um artigo publicado em uma famosa revista mequetrefe de circulação nacional para pensarmos a relação entre o salário recebido pelo corpo docente e a qualidade do ensino. No texto, o autor defendia, utilizando mais ironias do que argumentos, que não há ligação comprovada entre o aumento dos vencimentos dos professores e a melhoria da educação. Segundo ele, o que precisa mudar é o método de ensino, e isso depende mais da boa vontade e criatividade do profissional responsável pela sala de aula do que de uma revisão salarial para a categoria.

Tendo trabalhado no ramo da educação por quase um ano e até hoje convivendo diariamente com pessoas que labutam na área, não pude deixar de discordar veementemente do que li, mas, como pude comprovar logo em seguida, a professora também não partilhava da opinião do autor. Antes de mais nada, ela sugeriu a leitura para que a turma pudesse pensar sobre a profissão sem romantismos e, acima de tudo, procurar soluções para as deficiências que existem no sistema. Os professores ganham mal e isso é uma realidade que nenhum texto conseguirá deturpar, mas é preciso coragem para reconhecer que, de fato, o problema não é unicamente financeiro. Falta investimento, mas também falta profissionalismo, interesse dos alunos e envolvimento dos pais, ou seja, a deficiência é sistêmica e não será combatida apenas com a injeção de dinheiro. Entre os Muros da Escola, filme vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2008 e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2009, é uma rica experiência ambientada na realidade escolar vivida, escrita e interpretada pelo francês François Bégaudeau que, devido a seu tom realista, traz muitas contribuições para o debate sobre a educação.

É o início de um novo ano letivo e os professores estão reunidos para desejarem as boas vindas uns para os outros. Eles apresentam-se, o diretor deseja boa sorte para todos e em seguida aqueles que estão a mais tempo na instituição tratam de falarem para os novatos sobre as turmas e alunos problemáticos da escola. Reunião encerrada, Marin (Bégaudeau), o responsável pela disciplina de Francês, assume uma sala composta por adolescentes de raças e nacionalidades variadas que não são conhecidos exatamente por serem educados e participativos. Inicia-se um período em que o ensino é construído diariamente em meio a indisciplina e embates de ego entre professor e alunos.

Entre os Muros da Escola - Cena 2A questão salarial não é o foco de Entre os Muros da Escola. Em uma determinada cena, os professores até reclamam do aumento do preço do café e consideram a compra de uma cafeteira para resolver o problema, o que muito vagamente pode sugerir alguma dificuldade financeira, mas para por aí. Auxiliado pelo roteiro de Bégaudeau, o diretor Laurent Cantent esforça-se mesmo é para reproduzir o complexo ambiente de sala de aula e o processo que envolve o aprendizado, expondo suas fraquezas, atribuindo responsabilidades a cada uma das partes envolvidas e, com isso, apontando prováveis caminhos para melhorar o ensino.

Quando eu disse que o filme traz um tom realista da coisa toda, eu me referi principalmente a forma como os professores são retratados aqui. Em filmes do gênero, como os clássicos Ao Mestre com Carinho e Mentes Perigosas, o normal é que o professor seja visto com uma figura quase imaculada dotada de força de vontade e paciência sobre-humana cujo objetivo de ensinar é maior do que qualquer dificuldade. Eles são (ou aprendem a ser) descolados e driblam os problemas diários com muita criatividade e bom humor. Ofereço os meus mais sinceros parabéns para quem consegue ser assim, mas acredito que essa caracterização heroica não representa o profissional “médio”, por assim dizer, do ensino. Professor desanima, implica com certos alunos, fica de mau humor e pensa em desistir, ou seja, professores são tão humanos quanto quaisquer outros profissionais. Entre ao Muros da Escola é centrado em Marin, mas nas reuniões que acontecem entre os docentes é possível ver que o diretor procurou retratar vários tipos de profissionais e nenhum deles lembram o Sidney Poitier e a Michelle Pfeiffer. A explosão de ódio e revolta de um deles contra a indisciplina dos alunos, aliás, é um dos momentos mais marcantes e verdadeiros do filme.

Entre os Muros da Escola - Cena 3Ainda sobre Marin, é significativo que o ator François Bégaudeau tenha tido coragem de interpretar e retratar a si mesmo de forma tão humanizada, sinal de que ele tem consciência de que faz parte tanto do problema quanto da solução. Ao mesmo tempo que procura valorizar o conhecimento dos alunos e utilizar o diálogo e o intelecto para abordá-los e resolver conflitos, Marin também trata-os com ironia, por vezes até os menospreza (o que fica bem claro quando ele não os julga capazes de ver um certo filme) e, na cena mais forte da trama, xinga duas meninas de “vadias”. Ver os erros e acertos do personagem é uma boa oportunidade para os profissionais da área utilizarem a autocrítica para encontrarem um ponto de equilíbrio em suas atividades, de modo que eles não precisem ser nem aqueles professores malabaristas de cursinhos pré vestibular nem o sujeito amargurado obsoleto escravo do giz e do quadro.

Entre os Muros da Escola - Cena 5Explorando o outro lado da questão, o diretor também nos dá material para pensar sobre o papel do aluno. Acredite, você encontrará um ou dois adolescentes nesse filme para tu odiar até o final dos tempos. A tal Esmeralda, que é interpretada pela garota Esmeralda Ouertani (curiosidade: praticamente todo o elenco do filme é composto por atores não-profissionais), é o terror de qualquer professor: implicante, chata e prepotente, ela tem sempre uma ironia armada na ponta da língua para desestabilizar Marin. Cantet demonstra o quanto essas disputas de ego empobrecem e atrapalham as aulas e, ainda que dê-se o devido desconto devido a pouca idade dos alunos e aos muitos problemas pessoais que eles vivem nessa fase da vida, é preciso que tanto eles quanto os pais aceitem a crítica e também repensem suas atitudes. Como a própria Esmeralda prova no final do filme, a melhor arma de enfrentamento sempre será o conhecimento.

Entre os Muros da Escola - Cena 4Entre os Muros da Escola encara os desafios e as mazelas do sistema educacional e, tal qual o colunista que escreveu o artigo citado no início desse texto, sugere que, de imediato, é preciso que as partes envolvidas assumam suas respectivas responsabilidades para que, de fato, haja alguma melhora. Ao professor, cabe o papel de utilizar tudo aquilo que estiver ao seu dispor para transmitir conhecimento, procurando não deixar que as inevitáveis dificuldades do caminho transformem-no em uma peça engessada dentro do sistema. O aluno, por sua vez, precisa reconhecer que, ainda que inquestionavelmente defasada, a escola ainda é um dos locais que o preparará para a vida adulta e para o mercado de trabalho. Que eles questionem conteúdos ultrapassados (gostei das discussões sobre as diferenças entre a língua escrita e oral) e reivindiquem, por exemplo, a reestruturação das disciplinas e a inclusão de novas tecnologias, mas que o façam com consciência e respeito. Tudo isso, porém, não excluí o papel do Estado de valorizar todos os profissionais da educação, pagando-os adequadamente para que eles possam, entre outras coisas, terem tempo e disposição para aperfeiçoarem-se. Dito isso, reafirmo a minha reprovação ao que foi dito pelo colunista (infelizmente, não encontrei o texto para linkar aqui) e a quem trata com ofensas, balas de borracha e gás lacrimogêneo quem reivindica melhores condições de trabalho. Sem a união e a cooperação mútua entre família (alunos), escola (professores) e o Estado, será difícil algum dia o slogan “Brasil, pátria educadora”, de fato, representar a nossa realidade.

Entre os Muros da Escola - Cena

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  1. Bom filme, e o debate ainda melhor. Além o salário, a própria formação é bizarra. Já ouvi estudante de pedagogia reclamando de um professor que deu ‘um livro inteiro’ para ler durante o semestre (lembro que procurei e era um do paulo freire com pouco mais de 100 páginas :/ )

  2. Esse filme deixa claro a posição da maioria das pessoas que acreditam que o professor não pode erras e deve se desdobrar para criar um ambiente adequado para o ensino sem reclamar das péssimas condições físicas, materiais, indisciplina, baixo salário, falta de auxilio da família. Acredito que escola hoje é deposito de criança, os pais precisam trabalhar e jogam as crianças na escola sem se preocupar com o que acontece lá. Triste realidade.

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