Cássia Eller (2015)

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Cássia EllerA minha primeira lembrança da Cássia Eller não poderia ser mais estereotipada. Em 2001, quando eu era um adolescente que curtia Backstreet Boys, assisti uma edição do Jornal Nacional em que mostraram parte da apresentação da cantora no Rock in Rio. No palco, Cássia cantava, sorria e mostrava os peitos para uma platéia enlouquecida. Vendo aquilo, tudo o que meu cérebro juvenil conseguiu processar foi “Que pessoa maluca!”. Eu não conhecia o trabalho da artista, ignorava as particularidades da vida pessoal da mulher e isso, acrescido da minha imaturidade, não me permitiu vê-la além daquele gesto inesperado e transgressor.

Mudaram as estações, tudo mudou: coloquei as boybands no cantinho da nostalgia,  apaixonei-me por rock e heavy metal, saí do sofá e fui conferir o Rock in Rio ao vivo e, no meio de tudo isso, conheci a Cássia Eller. Conheci? Segundo a própria, nem mesmo quem conversou com ela ou até mesmo foi para a cama com ela conheceu-a por completo, quem dirá então alguém que leu uma ou outra matéria por aí e que passou algumas tardes ouvindo o Acústico MTV dela. Cássia Eller, documentário do diretor Paulo Henrique Fontenelle, joga uma pouco de luz tanto na carreira quanto na vida pessoal da cantora e, ainda que isso não seja suficiente para dissecá-la (se é que isso seja realmente possível), contribui para o enriquecimento do nosso olhar para o próximo e nos estimula, através do relato de uma força criativa indomável, a valorizarmos nossas particularidades e transformá-las em nosso meio de interação com o mundo.

Cássia Eller - Cena 3Fontenelle opta por iniciar sua narrativa não exatamente a partir do nascimento da Cássia mulher, que até é citado, mas sim do nascimento da Cássia como artista, que aconteceu entre seus 14 e 18 anos quando ela ganhou um violão, interessou-se por rock e iniciou sua carreira realizando apresentações em casas de show em Brasília. Através de fotos e relatos de pessoas que conviveram com ela no período, o diretor começa a construir aqui um dos principais argumentos de seu documentário: Cássia era, sobretudo, uma pessoa tímida que utilizava a arte como forma de extravasar suas emoções. Em um episódio engraçado contado pelo músico Oswaldo Montenegro, que na época comandou a cantora em um espetáculo teatral, ficamos sabendo de uma menina retraída que foi capaz de raspar as sobrancelhas e substitui-las por traços de canetinha para viver um personagem, comportamento que, antes de revelar a contradição de uma pessoa que definia-se como tímida, reforça a ideia de alguém que utilizava a extravagância como escudo contra a falta de aptidão para o convívio social.

Cássia Eller - CenaA bissexualidade de Cássia, fato de conhecimento público, poderia ser abordada pelo diretor em um tom demasiadamente respeitoso e politicamente correto, mas felizmente não é assim. Talvez naquela que seja a primeira menção do assunto no filme, Maria Eugênia, companheira com quem a cantora conviveu da adolescência até a morte, relembra e conta (da forma mais desbocada possível) do dia em que elas se conheceram. Apresentadas por amigos após o término de um show, Maria Eugênia, que então estava acompanhada por um namorado, diz que a simples presença de Cássia fez com que ela “arrepiasse até os cabelos do cu”. Palmas para o diretor, tanto por não estender-se além do necessário nessa questão da sexualidade (já que trata-se de uma decisão de fórum íntimo que DEVE ser respeitada), quanto por manter esse tom informal, por vezes até chulo, dos depoimentos. Cássia era poesia, mas também era alguém que cantava sobre um príncipe chato que “vivia dando no saco” dela, ou seja, falar sobre sua vida em tom moralista e com discursos “certinhos” soaria falso. Essa “naturalidade”, aliás, também é usada para tratar o tema das drogas, outro assunto polêmico que Fontenelle trata pragmaticamente: ela usava  e isso também dizia respeito somente a ela.

Cássia Eller - Cena 2Cassia Eller conta ainda sobre a gravação do primeiro álbum da cantora, do início das críticas positivas, da fama e seus perrengues, traz curiosidades sobre seus principais hits (Malandragem, composição de Frejat e Cazuza, foi recusada pela cantora Ângela Ro Ro para depois tornar-se o maior sucesso de Cássia) e narra sua ascensão ao estrelato que culminou na icônica apresentação no Rock in Rio e na gravação do Acústico MTV. Fontenelle é competente e inventivo para seguir a linha temporal da vida da artista, resgatando arquivos de foto e vídeo que mostram-na ora no conforto de casa cuidando de seu único filho, Chicão, ora em programas de TV morrendo de vergonha das perguntas majoritariamente boçais feitas pelos apresentadores. O diretor nos empolga com as histórias de bastidores que envolveram a execução da Smells Like Teen Spirit no Rock in Rio (o Dave gostou!) e nos faz rir com a quantidade de vezes que ela errou a letra da Vá Morar com o Diabo na gravação do Acústico mas, inevitavelmente, chega o momento em que ele precisa falar sobre o fim trágico e prematuro que ela encontrou no fim de 2001 e aí fica difícil conter as lágrimas. Antes de falar disso, porém, permitam-me um parágrafo mais pessoal.

Cássia Eller - Cena 5Não, eu ainda não posso dizer que conheci a Cássia Eller. Eu adoro o Acústico MTV do fundo do meu coração, mas ouvi pouquíssimo material dela fora desse álbum. Seria falsidade, portanto, falar-vos que sou um grande fã da cantora. O que posso dizer com toda sinceridade após assistir esse documentário é que, minimamente, ele mudou aquela visão que eu meio que encubei acriticamente lá na adolescência de que ela fosse uma doidona que mostrava os peitos no palco. Amadureci um pouquinho assistindo Cássia Eller. Entendo agora que o que vi (e o que geralmente vemos quando olhamos para o próximo), nada mais foi do que uma máscara que ela utilizava para conseguir suportar sabe-se lá quais paranoias e fobias sociais que ela carregava. Nisso, é significativo quando o Nando Reis aparece para dizer que o sucesso da parceria entre eles deu-se principalmente devido a identificação que eles sentiram com as esquisitices um do outro. Com a música, eles encontraram um meio de sobreviver e transformar essa timidez/estranheza trazidas no coração em algo belo e sincero da mesma forma que eu, que tenho uma dificuldade enorme para expressar-me pessoalmente sobre o que gosto, utilizo esse blog para sistematizar meus pensamentos sobre cinema. O que fica da “maluca de moicano” que cantava com tanta sinceridade “quem sabe eu ainda sou uma garotinha” é o exemplo de que a arte é um caminho para superarmos dificuldades e ofertarmos para o mundo o que há de melhor dentro de nós.

Cássia Eller - Cena 6Essa identificação forte e sincera com o que vi, com a pessoa humana, demasiadamente humana que ela foi (é bom que Fontenelle inclua relatos dos ataques ocasionais de raiva, medo e frustrações dela), provocaram introspecção e me fizeram chorar um bocado na parte final do documentário que trata da morte de Cássia. O enterro, com os fãs enchendo o lugar e cantando Por Enquanto, é desolador. É extremamente bom que o diretor faça justiça a família e a memória da cantora reforçando que o laudo excluiu a possibilidade da morte por overdose (Veja, eu quero é que você se top, top, top!) e que, no fim, o clima de tristeza seja substituído pela alegria da vitória revolucionária que Maria Eugênia conseguiu na justiça pela guarda de Chicão e que o menino, já um adolescente, esteja feliz e com os mesmos trejeitos da mãe, provas de que a influência de todas aquelas belezas que ela tirou do fundo do coração não foram apenas palavras pequenas ao vento. Se eu gostei? Estranho seria se eu não gostasse tanto assim 🙂

Cássia Eller - Cena 4

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Uma resposta »

  1. Parabens pelo texto sensivel como o filme, sua art é escrever e mostrar pra todos uma nova forma de interpretar os filmes.

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