Leviatã (2014)

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LeviatãO clima de instabilidade política que tomou conta do país desde as manifestações de junho/julho de 2013 impregnou as redes sociais de tal forma que tem sido praticamente impossível acessá-las e não encontrar textos, vídeos e montagens com conteúdo político. Evito comentar tais posts pelos seguintes motivos:

  • Política nunca esteve entre os meus assuntos favoritos, portanto sei que não possuo bagagem suficiente para discutir sem recorrer a vergonhosos “lugares comuns”.
  • A formação em História garantiu-me muito mais dúvidas do que certezas. Não trata-se daquele ceticismo juvenil que nos faz duvidar de tudo e de todos, mas sim de uma visão instrumentalizada para evitar as tentadoras respostas fáceis que nos são apresentadas diariamente como verdades irrefutáveis. Estudar historiografia me fez perceber que um povo gasta alguns bons anos para produzir pensamentos minimamente coerentes sobre um determinado período de sua história (a relação de Hollywood com a Guerra do Vietnã é um bom exemplo). A discussão imediata, aquela feita no “calor do momento”, é fundamental para o enriquecimento do processo dialético (tese – antítese – síntese), mas fazê-la com a vaidade de querer encontrar respostas definitivas para situações inquestionavelmente complexas nada mais é do que, para utilizar um termo popularizado por um ex-candidato a presidência, “levianismo”.

Leviatã - CenaNão posso deixar de pensar, no entanto, no quão bom deve ser viver sem essas preocupações metodológicas. Tomar a pílula azul, ler um ou dois textos, assistir uns vídeos e compartilhar uma montagem: pronto, lá estou eu expondo a “minha opinião”. As “certezas”, sejam elas políticas, sociais ou religiosas, são sedutoras e tranquilizantes pois elas nos fornecem um chão para pisarmos, nos dão uma sensação ilusória de que podemos entender e controlar nossas próprias vidas. É um caminho tentador e, não raramente, sinto um pouco de inveja de quem consegue “desligar o botão” dessa forma, mas ainda assim sigo optando pela pílula vermelha e pagando o preço de tentar manter a sanidade enquanto lido com minhas dúvidas e medos de viver em uma realidade caótica e imprevisível que pode nos esmagar a qualquer instante, tal qual acontece com o personagem principal desse perturbador Leviatã.

Kolya (Aleksey Serebryakov) é um operário russo que vê-se ameaçado de perder sua casa e o terreno no qual ela se encontra para a prefeitura. O local, disseram, é de interesse público e portanto deveria ser desapropriado. Como não está disposto a negociar, Kolya convoca Dmitriy (Vladimir Vdovichenkov), seu amigo e advogado, para defendê-lo na disputa judicial contra o município.

Leviatã - Cena 3Leviatã, filme do diretor Andrey Zvyagintsev vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro de 2015 e indicado na mesma categoria ao Oscar, é uma adaptação do Livro de Jó contido no Velho Testamento. Para quem não está familiarizado com essa parte da bíblia, Jó é aquele sujeito que, com a permissão divina, foi tentado pelo diabo para testar sua fé. Mesmo diante da morte de seus filhos e de sua ruína financeira, Jó permaneceu firme em sua devoção e acabou recompensado por Deus com uma vida longa cheia de alegrias e glórias. É uma história de fundo moral que vende uma “certeza”: toda fé será recompensada. A experiência e a observação empírica diária, porém, fazem-me refutar o exemplo de subserviência do personagem bíblico e encontrar paralelos muito mais palpáveis (ainda que desoladores) na tragédia de seu modernizado correspondente russo.

A forma mais natural, ainda que simplória, de abordarmos o sofrimento de Kolya é através de uma relação de causa e efeito. O diretor não nos fornece muitos detalhes do passado do personagem, mas com o que é mostrado durante as 2h20min de filme é possível dizer que ele não é exatamente uma pessoa fácil de se conviver. Reclamão, pessimista e beberrão, Kolya é emocionalmente descontrolado e as primeiras reações dele diante de problemas são sempre as piores possíveis. Uma pessoa assim, podemos concluir apoiados na sabedoria popular, irá “colher o que planta” e será o principal responsável por tudo aquilo de ruim que lhe acontecer, certo? Não necessariamente.

Leviatã - Cena 4O grande trunfo do diretor Andrey Zvyagintsev em Leviatã é utilizar o formato cinematográfico para questionar as limitações desse pensamento guiado pela causalidade. Kolya é uma pessoa negativa e, pragmaticamente falando, isso fecha muitas portas na vida, mas aqui vemos que nem todas as mazelas que o atingem são oriundas de suas ações. Quando Zvyagintsev explora paralelamente as outras pessoas e eventos que cercam o personagem, percebemos que ele foi vítimas de um sistema corrupto comandado pelo prefeito (Roman Madyanov), sacaneado pelo advogado que ele convocara para proteger-lhe, traído pela mulher (Elena Lyadova) e usado pelos amigos em quem ele costumava acreditar. Nós, que assistimos tudo isso de uma posição privilegiada e onipresente, podemos nos compadecer de Kolya porque sabemos que ele foi dizimado pelas forças esmagadoras do acaso, ele não é simplesmente uma bêbado descontrolado que recebeu o que merecia. O que deve ser observado aqui é que, diferente do que acontece nos filmes, nem sempre a vida nos permite ter acesso a todas as variáveis antes de julgarmos algo/alguém. Fosse o caso de Kolya discutido em uma rede social, conforme dito no começo do texto, é bem provável que ele fosse condenado por coisas que ele não cometeu visto que atribuir a culpa de tudo a ele seria bem mais fácil do que entender toda a situação. Fácil e irresponsável. No final das contas, como Thomas Hobbes diz no livro que empresta o  título para o filme, o homem continua sendo o lobo do próprio homem.

Leviatã - Cena 2Leviatã não é de fácil apreciação. No geral, tenho que concordar com a minha esposa quando ela disse, no término da sessão, que “só acontecem coisas tristes” no filme. Kolya é um homem sem fé e não há um Deus para salvá-lo após um longo período de sofrimento tal qual aconteceu com Jó: o movimento aqui é unicamente ladeira abaixo. Chamo atenção para o fato do filme começar e terminar da mesma forma, com imagens de montanhas e lagos, elementos atemporais, contrastando com closes de animais mortos e de objetos humanos destruídos para reforçar, acredito, a ideia da limitação e perenidade da nossa compreensão e poder de controle sobre a vida.

Leviatã - Cena 5

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