Foxy Brown (1974)

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Foxy BrownNo Jackie Brown, aquele filme “menos brilhante” da filmografia do Tarantino, a personagem título tem o seguinte diálogo com Max Cherry, o detetive interpretado pelo ator Robert Foster:

Max Cherry: Eu aposto que você está exatamente como você era aos 29 anos.
Jackie Brown: Bem, minha bunda não é mais a mesma.
Max Cherry: Maior?
Jackie Brown: É.
Max Cherry: Não há nada errado nisso!

Sábias palavras, Tarantino, sábias palavras. Pam Grier, a atriz que dá vida a Jackie, foi um dos principais nomes do período clássico do cinema black exploitation, gênero conhecido por explorar a imagem do negro americano relacionada a violência, sexo e drogas. Desde que vi o filme citado, grande admirador da beleza das mulheres negras que sou, fiquei curioso para conferir como a voluptuosa Pam Grier (48 anos quando gravou Jackie Brown) era aos “29 anos” quando atuou no auge da forma nas produções que a consagraram. Pesquisei a filmografia da moça e, dentre tantos longas com cartazes mostrando decotes generosos, escolhi esse Foxy Brown. Falo-vos agora como um homem satisfeito e admirado com o que viu.

Foxy Brown - Cena 2E o que vi, tão logo o filme começou, foi uma dessas maluquices psicodélicas setentistas que meio que dizem para a gente “prepare-se, nada fará sentido aqui!” rs. Ao som de uma música dançante, a cocotinha Pam Grier surge com um cabelão black power chacoalhando seus impressionantes atributos. Ela sorri, acena e troca de roupa. O fundo da tela pisca, brilha e muda de cor freneticamente. Completamente hipnotizado, fui dominado por um único e persistente pensamento: “Peitos, peitos, peitos!”. Jack Hill, o diretor e roteirista dessa loucura, certamente sabia o efeito que essa introdução (ui!) causaria no espectador e, tão logo ela termina, ele já nos liberta desse transe demoníaco ao nos fornecer a visão daquilo sem o qual nada mais importaria a partir dali: Foxy Brown (Grier), acordada durante a madrugada pelo irmão que precisava de ajuda, levanta-se e… tira a blusa. Pausa, volta a cena. Pausa. Repete. Acende um cigarro. Pronto, agora já é possível prestar atenção nos outros personagens e na trama rs

Exageros e brincadeiras à parte (os peitos da atriz são gigantescos mesmo), nem só de sutiãs nº48 é feito Foxy Brown. Produto de sua época, ele evoca temas como o vigilantismo e a segregação racial para contar uma históra de vingança. Foxy vê tanto o namorado (Terry Carter) quanto o irmão (Antonio Fargas) terem suas vidas destruídas por uma organização criminosa comandada pela inescrupulosa Katherine (Kathryn Loder). Disfarçada de garota de programa, a personagem infiltra-se na organização e utiliza seu charme e intelgência para destruir o esquema criminoso.

Foxy Brown - CenaFoxy Brown transborda sexualidade em suas cenas de nudez e nos diálogos sugestivos e foi principalmente por isso que eu gostei dele, mas é necessário reconhecer também o valor das questões hitóricas do roteiro. Pensado como uma continuação para outro filme da Grier (o aclamado Coffy), ele acaba apresentando alguns furos, como a falta de informações sobre o passado da personagem principal contrastando com a construção sólida do background do namorado dela, mas o que chama a atenção aqui, principalmente para quem recorre aos filmes buscando também um olhar para as particularidades do passado, é o alinhamento da trama com as contradições sociais de seu tempo. Hill faz do irmão de Foxy um sujeito amargurado pela pobreza e pelo preconceito que discursa contra o excludente e segregador “sonho americano” mas, para tanto, não o transforma em uma vítima. O cara, aliás, é um filho da puta sem a menor noção de lealdade. A personagem principal, por sua vez, é uma mulher forte, independente e segura de si cuja comparação com sua antagonista, a branca, ciumenta e emocionalmente desequilibrada Katherine, chega a ser cruel. Mesmo assim, nota-se que o discurso, apesar de exaltar a cor negra, ainda considera-a como algo “exótico”. Um grupo de negros arma-se e começa a patrulhar o bairro, em uma clara alusão aos Panteras Negras? Há um personagem para dizer que isso é ilegal e constitui vigilantismo. Hill soa liberal, mas o passar dos anos permite-nos perceber que ele não conseguiu livrar-se completamente do conservadorismo que marcou a história americana naquele período quando escreveu seu filme.

Foxy Brown - Cena 3É possível e válido ler o filme através desse contexto político, mas nem de longe o foco dele é esse. Os black exploitatons são marcados sobretudo pela violência e aqui nós temos uma boa quantidade de cenas envolvendo o que há de melhor no amor entre os seres. Foxy atira no próprio irmão, queima um sujeito vivo, arranca as partes íntimas de um garanhão e atropela e tritura um bandido utilizando um monomotor. Quando não está na sua forma mais gráfica envolvendo litros de sangue falso, a pancadaria aparece num viés mais cômico. Dentre as cenas em que a Pam Grier aparece vestida, a que mais me agradou em Foxy Brown foi a invasão do bar lésbico em que ela dá uma surra em uma caminhoneira. A mulher diz que tem faixa preta em karatê e faz uma pose de combate engraçada só para cair em seguida toda estropiada no chão após ser atingida por um banco de madeira que Foxy arremessa contra ela. A confusão desenvolve-se então para uma briga de bar generalizada e um cenário majoritariamente masculino transforma-se no palco de um memorável festival de puxões de cabelo rs

Não foi à toa que o Tarantino resgatou a Pam Grier do ostracismo e transfomou-a na estrela de seu Jackie Brown. De fato, a atriz possuia um corpo capaz deixar qualquer um de boca aberta e encarnava com perfeição o tipo badass dos filmes de vingança, motivos mais do que suficientes para que ainda hoje ela mereça ser homenageada (entendam como quiserem rs) e para que valha a pena explorar sua filmografia.

Foxy Brown - Cena 4

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