Cavalcade (1933)

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CavalcadeQuase 2 meses após o Birdman levar a estatueta de Melhor Filme de 2015, retomo o meu projeto de conhecer todos os vencedores da principal categoria do Oscar. O longa de hoje é o Cavalcade, título que tem a menor nota no IMDB dentre todos as produções que venceram a disputa e que me rendeu uma sessão no mínimo “diferente”. Explico-lhes o porque após a sinopse.

Em 1899, a Inglaterra guerreava com a África do Sul no conflito que ficou conhecido como Guerra de Bôeres. Jane Marryot (Diana Wynyard) e Ellen Bridges (Una O’Connor), respectivamente patroa e empregada, veem seus esposos serem enviados para a frente de combate e aguardam ansiosas e apreensivas pelo regresso dos mesmos. Os laços de amizade entre as duas mulheres fortalecem-se na dor da ausência e na alegria do retorno, já que Robert Marryot (Clive Brook) e Alfred Bridges (Herbert Mundin) sobrevivem ao conflito e regressam sãos e salvos para casa. O início do século XX, no entanto, não traria apenas felicidades para os personagens, e é através dos olhos de Jane que vemos as tragédias pessoais e mundiais que marcaram a trajetória daquelas famílias.

Eu gosto de filmes antigos. Por eles apresentarem ideias de mundo e técnicas cinematográficas majoritariamente diferentes daquelas que podemos observar nos lançamentos, tendo a ter um certo “carinho” por eles. Essa afeição inclui uma curiosidade diferenciada para com o que será mostrado e, principalmente, compressão com as perdas que o tempo geralmente impõe à imagem e ao som. Cavalcade, porém, mostrou-se além dessa minha boa vontade e foi bem complicado de assistir.

Cavalcade - CenaNo que diz respeito a imagem e ao som, eu sei que devo associar a qualidade precária do que vi e ouvi ao arquivo mequetrefe de 700mb que baixei. Certamente um arquivo um pouco maior resolveria o problema do visual granulado e das vozes estouradas, mas nem por isso deixei de ficar assustado com a obscuridade do material. O filme começou, eu olhei para a minha esposa e, apesar de ela ter dito “preocupa não, dá para assistir”, o que eu realmente entendi na expressão dela foi “olha o tipo de furada que tu arrumou para fazermos hoje” rs Todo caso, passado esse estranhamento inicial, concentramo-nos na história com a esperança de que ela trouxesse algo cativante que compensasse as dificuldades da mídia mas não foi bem isso o que aconteceu.

Cavalcade - Cena 5É bem comum, quando comentamos filmes antigos, classificá-los como “datados” para justificarmos a nossa indiferença ou dizer que eles “envelheceram bem” quando apreciamos o que foi visto. Cavalcade está no primeiro grupo. Como o poster que ilustra essa resenha anuncia, trata-se de “um filme de uma geração” e, obviamente, não é da minha geração que eles estão falando. Baseado em uma peça teatral do escritor Reginald Berkeley, o diretor Frank Lloyd conduziu uma narrativa que resume em 1h50min alguns dos principais desastres, tragédias e eventos bélicos do início do século, como a já citada Guerra de Bôeres, o naufrágio do Titanic, a morta da Rainha Vitória e a Primeira Guerra Mundial. Ainda que o espectador carregue consigo o interesse histórico pelo período, a vivacidade do tema e a empatia que ele deve ter provocado no público da época é anacronicamente impossível de ser recuperada por um espectador atual. Resta, portanto, o desenrolar dos fatos e episódios que constituem a trama como atrativos, mas nisso Cavalcade é deveras sem graça.

Cavalcade - Cena 2Jane, a personagem principal, é uma mulher que, resumidamente, viveu uma vida desgraçada. Apesar de ela contar com o amor incansável de Robert, um homem que faz declarações apaixonadas mesmo após 10 anos de casamento, ela passa a trama toda sofrendo por alguma coisa. Primeiro é a ausência do marido, depois uma tragédia envolvendo o filho mais velho, preocupações com esposo alcoólatra da empregada e, por último, com a ida do caçula para a guerra e seu envolvimento com uma moça de origem humilde. É muita cara de choro, preocupações e sofrimento para um filme só. Cenas como a morte de um personagem que é atropelado por cavalos desgovernados até despertam um ou outro sentimento (gostei do contraste da brutalidade do atropelamento com a inocência da menina que dança no mesmo cenário), mas de resto as lamentações e constantes passagens de tempo são deveras cansativas.

Cavalcade - Cena 4Posto tudo isso, a minha experiência “diferente” com Cavalcade constituiu em abordá-lo por outra perspectiva. Som ruim, imagem péssima, eventos com os quais eu não tenho nenhuma ligação emocional, cenas de guerra mal feitas, lamúrias mil… Só rindo de tudo isso para não morrer de tédio, certo? Lá pela metade da trama, eu e minha esposa começamos a comentar e criticar os exageros dos personagens, rindo das esquisitices da Una O’Connor (uma boa atriz, diga-se de passagem) e das bebedeiras de seu marido. Um casal apaixonado faz promessas de amor infinitas a bordo do Titanic? Rimos também. Quinto vencedor do Oscar de Melhor Filme, Cavalcade não sobreviveu ao teste do tempo e só me divertiu quando comecei a vê-lo levando em consideração o humor negro involuntário de certas cenas, o que é pouco, muito pouco, para um filme premiado como a melhor produção cinematográfica de seu ano.

Cavalcade - Cena 3

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Uma resposta »

  1. Esse filme trás relações superficiais entre os casais, um distanciamento entre homem e mulher e como a guerra modifica de forma superficial a vida de todos, retratando uma realidade muito superficial desse período.

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