Anna Karenina (2012)

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Anna KareninaPrecisei de quase 7 meses para concluir a leitura do monumental Ana Karênina do Tolstói. Tal qual a outra obra prima do escritor russo, Guerra e Paz (que rendeu uma adaptação sofrível para o cinema), este romance é considerado um dos pilares da literatura mundial e lê-lo, apesar de prazeroso, exige tempo e paciência. O exemplar que eu tenho, uma edição em capa dura da editora Nova Cultural, tem 654 páginas com uma média de 400-500 palavras cada uma. É MUITA informação e, para quem não está familiarizado com o trabalho do cara, vale dizer também que ele não costuma ir, por assim dizer, “direto ao ponto”. Vários capítulos do livro em questão são extensas e detalhadas descrições psicológicas e visuais dos personagens e dos cenários em que eles vivem seus dramas. Dono de um dos maiores dons narrativos que esse mundo já viu, Tolstói nos fornece visões belas e precisas daquilo que ele está falando, mas não foram poucas as vezes que me peguei entediado, por exemplo, lendo sobre pormenores da constituição arbórea de uma floresta localizada nas proximidades da casa de um dos personagens.

Todo caso, concluída a leitura, não tive dúvidas de que eu acabara de apreciar uma dessas obras geniais sobre as muitas inquietações que afligem o espírito humano. Karênina, a aristocrata que dá título ao livro, tem todas as suas dúvidas, desejos e inseguranças esmiuçadas por Tolstói, mas a atenção que o escritor também dedica a outros personagens e temas, como o fazendeiro Liêvin e seus questionamentos religiosos e existenciais, fazem  do romance um verdadeiro estudo psicológico e social da sociedade russa daquele período cujas conclusões soam incrivelmente atuais. Essa atemporalidade, aliás, pode ser comprovada através das várias adaptações que o texto recebeu ao longo dos anos para TV e cinema (o IMDB lista pelo menos 10 títulos). É da mais recente dessas adaptações que falo a partir de agora e, para o poder fazer com todos os detalhes que desejo, não evitarei o uso de SPOILERS, ok?

Anna Karenina - CenaOblonski (Matthew Macfadyen) traiu a esposa, Dolly (Kelly Macdonald), e, para evitar o divórcio, solicitou que sua irmã, Ana Karênina (Keira Knightley), viesse até sua casa acalmar a mulher. Ana viaja, resolve o problema e então é convidada para o baile de Kitty (Alicia Vikander), irmã de Dolly. Durante a festa, ela, que é casada com o funcionário público Alieksiei Alieksándrovitch (Jude Law), desperta os sentimentos do Conde Vronski (Aaron Taylor-Johnson), pretendente de Kitty que, por sua vez, acabara de dar um fora no sincero e rústico Liêvin (Domhnall Glesson)….

… entendeu? Não?!? Calma lá, o roteiro não é tão complicado assim, o difícil é resumi-lo em tão poucas linhas. Basicamente, Anna Karenina (aqui utilizo o título oficial do IMDB, mas manterei os nomes dos personagens tal qual eles estão no livro) gira em torno da traição de Ana, que abandona o marido, Alieksiei, para viver com o bonitão Conde Vronski. Paralelamente, acompanhamos o personagem Liêvin e suas divagações enquanto ele tenta casar-se com Kitty.

Anna Karenina - Cena 3Responsável pela tarefa inglória de transformar o longo e detalhado texto do Tolstói em um filme de 2 horas, o diretor Joe Wright (Hanna) optou por simplificar ao máximo os eventos chaves da história e dar-lhes vida através de uma experiência visual criativa e arrebatadora. Assim sendo, as várias paisagens rurais e urbanas descritas por Tolstói são substituídas por cenários de estúdio que vão sendo montados a medida que os personagens movimentam-se através deles. Ainda que, inicialmente, eu tenha torcido o nariz para esse artifício (que é aliado a temas musicais majoritariamente felizes, descaracterizando o clima ‘sério’ da trama), acabei me rendendo a beleza que a técnica imprime a história. O visual como um todo, aliás, é impecável, tanto que Anna Karenina levou o Oscar de Melhor Figurino de 2013 e concorreu nas categorias de Melhor Design de Produção e Melhor Fotografia.

Anna Karenina - Cena 5Wright enche nossos olhos com bailes grandiosos e, suponho, consegue entreter quem não conhece o livro, mas, como fiz a leitura do mesmo, não posso evitar comparar os dois produtos e relatar o abismo que há entre eles no quesito roteiro. Sim, eu sei que adaptações, necessariamente, sacrificam passagens, personagens e a profundidade de certos sentimentos. Se o Tolstói gasta diversos capítulos de sua obra construindo a personalidade complexa e contraditória de Ana Karênina, uma mulher que vai do auto controle/discurso moralista para a completa paranoia ao longo da trama, não poderíamos esperar que o diretor conseguisse, em pouco mais de 2 horas, reproduzir todas aquelas digressões e mudanças paulatinas de comportamento tal qual acontece no livro. Isso é compreensível, mas, considerando que esse definhamento psicológico e as contradições do discurso (o que Ana fala sobre traição para Dolly no início soando extremamente hipócrita frente aos ataques de ciúmes dela no fim), mais do que os eventos contidos na história, são o que REALMENTE importam aqui, a opção do diretor e dos roteiristas por mostrar as grandes cenas da história, como a rejeição pública que Ana sofre na ópera e o fim trágico que ela encontra na estação de trem, é infeliz e insuficiente.

Anna Karenina - Cena 4Outro erro, esse talvez fruto de preciosismo decorrente das imagens mentais que o livro me forneceu, é a escolha dos 3 atores principais. Ana é descrita por Tolstói como um furacão, uma mulher extremamente sedutora que em nada lembra a frágil Keira Knightley. A atriz, aliás, está completamente equivocada no papel, dando ao descontrole emocional de Ana os mesmos traços de histeria que ela deu para sua personagem no Um Método Perigoso. Aaron Taylor-Johnson, o Kick Ass do filme de mesmo nome, também não é o galante e viril Vronski, o homem cujo charme foi capaz de fazer com que Ana abandonasse o marido, o filho e enfrentasse toda a conservadora sociedade russa para viver um romance. Por fim, Domhnall Glesson também não convence como Liêvin. O meu personagem favorito do livro, um sujeito indeciso que é atormentado por uma infinidade de questões existenciais, aqui é mostrado apenas como um bobão.

Mesmo ciente de que as expectativas e impressões construídas ao longo de 7 meses não poderiam serem saciadas em uma sessão de 2horas, devo condenar essa adaptação devido a superficialidade que ela toca nos temas ligados a alma humana que o Tolstói explora tão bem em sua obra. A Ana Karenina, personagem do escritor, é uma mulher transgressora que arrisca tudo para resgatar a emoção de viver. Ela surta ao longo do processo e comete alguns atos reprováveis, mas ainda assim somos capazes de simpatizar com ela. Já a Ana Karenina mostrada no filme do Wright é apenas uma aristocratazinha mimada e detestável da qual só conseguimos sentir repulsa. Por mais trabalhosa que seja a leitura, os sabores do livro, quando comparados aos desse filme, provam-se infinitamente superiores.

Anna Karenina - Cena 2

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