A Riviera Não É Aqui (2008)

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A Riviera não é AquiMudar de cidade para trabalhar e/ou estudar não é moleza. Em 2012, saí do Triângulo Mineiro para passar uma temporada de 11 meses em São José dos Campos-SP, período em que realizei o curso de Controlador de Voo. No começo, toda e qualquer expectativa que eu tinha sobre morar sozinho em outra cidade foi por água abaixo. Eu queria conhecer outros lugares, fazer novas amizades e fugir da rotina estressante que eu levava na época, mas o que marcou aqueles primeiros dias foram as responsabilidades (cuidar da roupa, providenciar comida, limpar o quarto), as divergências inevitáveis da convivência forçada (pessoas com pontos de vista variados, diferentes noções de organização e educação) e a dolorosa readaptação aos estudos. Perdi 5kg no primeiro mês.

Os dias foram passando, fui aprendendo a organizar melhor o tempo livre para conciliar obrigações e lazer, quem era só colega virou amigo e, aos poucos, as provas semanais deixaram de assustar. Recuperei o peso, explorei a cidade, fiz algumas viagens bem legais nos feriados e, quando percebi, o ano havia acabado e eu estava voltando para casa. Sofri no início, quando enfrentei um bocado de adversidades, e sofri no final quando fui embora com a certeza que terminara uma das melhores experiências da minha vida.

Se passar por todo esse perrengue com a perspectiva de melhorar a vida já não é fácil, imagina o quão infernal é a situação de quem o faz para pagar um erro. Tudo que o malandrão Philippe (Kad Merad) queria era ganhar uma promoção no serviço que lhe permitiria mudar com sua família para a Riviera, região no sul da França conhecida por suas belas praias. Para tanto, ele mentiu em um formulário e declarou-se como deficiente físico, condição que deveria garantir-lhe alguma vantagem na disputa da vaga. O embuste é descoberto e, como punição, Philippe é transferido para uma cidadezinha no extremo norte do país, local conhecido por seu clima inóspito e pessoas excêntricas.

A Riviera Não É Aqui - CenaO bacana nesse A Riviera Não É Aqui é que, ao contrário do que expus acima, Philippe não encontra grandes dificuldades quando chega em sua nova morada. Dany Boon, que escreveu, dirigiu e estrelou o longa ao lado do ator Kad Merad, propõe uma quebra de estereótipos ao fazer seu personagem principal confrontar uma realidade completamente diferente daquela que ele esperava quando fora transferido: o norte, tal qual o restante do país, possui dias ensolarados e pessoas receptivas, e isso tanto é suficiente para que Philippe habitue-se rapidamente a sua nova rotina quanto, para a surpresa de todos, constitui motivo para que ele não queira mais voltar para seu antigo lar.

A Riviera Não É Aqui - Cena 4Eis aqui um filme despretensioso e gostoso de assistir, uma daquelas comédias que conseguem fazer o espectador rir sem apelar para piadas de baixo calão e situações escatológicas degradantes. Basicamente, ainda que possua algumas subtramas (como a mãe superprotetora de Baileul impedindo-o de ter uma namorada) Boon dividiu seus gracejos em três blocos/temas: funcionalismo público, regionalismos e mentiras. No início da trama, Philippe, que é funcionário do correio francês, faz de tudo para conseguir sua promoção e é hilário ver o quão perto ele chega de consegui-la e o quão absurda é a forma como ele a perde. O miolo do filme, que trata da chegada do personagem no norte e do confronto de culturas, certamente deve ter um apelo maior entre os franceses, que serão (?) capazes de reconhecer as brincadeiras com os regionalismos (o tal ‘ch’tis’ do título original), mas nem por isso deixei de dar algumas boas risadas com as tentativas de Philippe de emular o complexo sotaque de seus novos companheiros de trabalho. Já o final compreende uma mentira gigantesca e teatral armada entre todos os personagens para que a esposa de Philippe não descubra o quão traquilo é o novo local de trabalho dele. Trata-se de uma conclusão clássica, daquelas em que todos os problemas são resolvidos e todos ficam contentes, mas antes do “felizes para sempre” rola um estressezinho bacana envolvendo uma noite mal dormida e uma espingarda.

A Riviera Não É Aqui - Cena 3Descobri esse A Riviera Não É Aqui quando pesquisava sobre produções francesas para um trabalho que apresentei na faculdade. Acontece que, mesmo sendo uma comédia deveras comum, ele transformou-se no longa francês de maior bilheteria na França, superando a marca de 20 milhões de espectadores. É possível atribuir esse sucesso as piadas internas baseadas no dialeto ch’ti, mas também deve-se reconhecer o talento da dupla Merad/Boon e das várias cenas a la Benigni do filme, como quando os personagens, completamente bêbados, percorrem a cidade de bicicleta entregando cartas, uma dessas aventuras épicas que marcam toda uma vida e, tal qual é falado em um diálogo (chora quando chega, chora quando vai embora), nos fazem entender o porque, independentemente de qualquer dificuldade, é tão bom passar uma temporada fora de casa.

A Riviera Não É Aqui - Cena 2

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