Tucker e Dale Contra o Mal (2010)

Padrão

Tucker e Dale Contra o MalLeia o trecho abaixo e tente encontrar algo familiar:

“Adolescentes sarados dirigem-se para uma cabana na zona rural para aquilo que promete ser um fim de semana cheio de sexo e drogas. No caminho, é possível perceber a hostilidade da população local para com o grupo quando eles estacionam para abastecer. No destino, todos os medos deles são concretizados: um a um, eles são mortos impiedosamente por um psicopata.”

Devido ao sucesso comercial monstruoso de filmes como O Massacre da Serra Elétrica, essa estrutura de roteiro aí transformou-se em um dos maiores lugares comuns do gênero terror nos anos subsequentes. As verdinhas arrecadadas pelo Tobe Hooper e seu Leatherface estimularam a produção de uma infinidade de filmes que seguiram essa mesma linha (cabana + adolescentes + psicopata) e eu quase posso apostar que, se você costuma ir no cinema frequentemente, tu já viu pelo menos um título desses. Tucker e Dale Contra o Mal, tal qual o ótimo O Segredo da Cabana, traz uma nova abordagem dessa fórmula e comprova que até mesmo o clichê mais batido ainda pode servir de base para um bom filme caso saibam aproveitá-lo com criatividade.

E qual a solução do diretor e roteirista Eli Craig para contornar a mesmice? Inversão de papéis! Tucker (Alan Tudyk) e Dale (Tyler Labine), os caras que teoricamente deveriam ser os caipiras malucões assassinos em série, não passam de dois amigos querendo descansar no final de semana. Eles respeitam a polícia, sonham em encontrar a garota perfeita e curtem beber e pescar, ou seja, eles são caras legais. A tranquilidade dos dois é interrompida quando uma série de coincidências daquelas que acontecem só nos filmes colocam-nos em uma verdadeira batalha campal contra o grupo de adolescentes liderados pelo mauricinho Chad (Jesse Moss), que julga erroneamente que Tucker e Dale sequestraram a delicinha Allison (Katrina Bowden).

Tucker e Dale Contra o Mal - CenaNo campo moral/social, a fórmula exposta acima traz nas entrelinhas um conflito interno norte americano que remonta a Guerra de Secessão. Quem é do norte vê no vilão bruto e tosco a condensação de todo o conservadorismo sulista e quem é do sul, por sua vez, enxerga na futilidade daqueles adolescentes o liberalismo que eles historicamente renegaram. Eu, que não tenho absolutamente nada a ver com isso, sempre torço para que o assassino aumente a contagem de corpos. É um mundo ficcional, caras, e em um ambiente assim não há problemas em sorrir quando um playboyzinho arrogante morre com um facão atolado na testa. Contrariando a minha torcida, porém, a dicotomia “sul = mal X norte = bem” impera nas produções “sérias” do estilo e, no final, alguma mocinha virginal sempre põe fim a matança ao vencer o psicopata de forma improvável. Tucker e Dale Contra o Mal, que é tudo menos “sério”, inverte essa lógica deveras manjada e garante algumas boas risadas ao reconstruir cenas clássicas do gênero dentro dessa nova perspectiva.

Tucker e Dale Contra o Mal - Cena 3Para exemplificar essa subversão da fórmula, peguemos a divertida cena da motosserra. Alheio a aproximação do furioso grupo de adolescentes, Tucker serra algumas madeiras no fundo da cabana. Prestes a ser alvejado, ele é atacado por um enxame de abelhas e, tal qual o Leatherface fez em seu debut, sai correndo desesperado sacudindo a motosserra acima da cabeça. É claro que o adolescente, assustado, também começa a correr e… morre empalado em um galho no meio da floresta rs Posteriormente, Tucker, já livre das abelhas, pergunta-se qual o motivo daquele jovem ter cometido suicídio dentro de sua propriedade. A referência ao O Massacre da Serra Elétrica, por si só, já me fez rir bastante (sempre gostei desse tipo de humor), mas o que há de realmente legal nessa cena (e no filme como um todo) é a inocência inicial dos personagens frente ao ataque dos adolescentes. É hilário vê-los tentando explicar para um policial que “há jovens cometendo suicídio em massa” no local.

Tucker e Dale Contra o Mal - Cena 2Chad revela-se um mala da marca maior ao engatar um papo arrogante sobre superioridade com Allison e, ao ver que os outros integrantes do grupo seguem-no em sua loucura e tentam matar os dois caipiras bonzinhos, só nos resta relaxar e divertir com as mortes grotescas de cada um deles. Um cara cai dentro de um triturador de madeira e tem toda a parte superior de seu corpo destroçada? Não há porque ficar triste: 1) ele era um boçal 2) pobre Tucker e Dale! Mais um suicídio inexplicável! Naturalmente, uma hora essa “inocência” acaba e o filme caminha para um final mais tradicional com os personagens enfrentando Chad, o próprio mal encarnado (malditos jovens drogados no cio e seus narizes empinados! rs) conforme o título sugere, mas quando isso acontece já tivemos toda a diversão trash que um terrir pode oferecer.

Tucker e Dale Contra o Mal é um desses filmes geniais que infelizmente acabam passando despercebidos devido a avalanche de produções do gênero que saem todo o ano. Apesar de muitas de suas piadas requererem conhecimento prévio do espectador devido as conexões que elas pedem, acredito que trata-se de um longa capaz de agradar qualquer um. Acreditem, a mistura de cenas gore com as caras de espanto dos personagens que compõe a ideia do tal “suicídio coletivo” é o tipo de coisa que faz um filme valer a pena. Agradeço a indicação do amigo que o recomendou (Valeu, Lucas!) e passo a dica adiante.

Tucker e Dale Contra o Mal - Cena 4

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  1. Não acho que Tucker e Dale Contra o Mal passa desapercebido pelo volume de produções, acho que simplesmente é um filme de baixa distribuição e que proporcionaria pouco retorno financeiro para as distribuidoras. Só a insinuação de sexo e o sangue fariam o filme ter classificação 16 anos. É o tipo de filme que garimpando um pouco, você acha aos montes escondidos por aí.

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