Cinquenta Tons de Cinza (2015)

Padrão

Cinquenta Tons de Cinza Até onde sei, apenas uma pessoa dentre os meus conhecidos leu o best seller Cinquenta Tons de Cinza. É estranho, portanto, que eu saiba a “opinião” da maioria deles sobre o livro da escritora E. L. James. Vamos pensar um pouco sobre isso.

Acredito que, nessa época de democratização do acesso à internet em que qualquer pessoa com um smartphone está apta a emitir uma opinião sobre QUALQUER assunto, a soberba e o ódio direcionados ao Cinquenta Tons de Cinza  só pode ser comparado aos ataques igualmente infantilóides feitos contra a série Crepúsculo da Stephenie Meyer. Estou defendendo as escritoras e suas obras? De forma alguma. Eu NÃO LI o que elas escreveram e não tenho meios, portanto, para me posicionar a favor ou contra seus livros. Espanta-me, porém, a facilidade com a qual as pessoas comentam sobre aquilo que não conhecem, que não leram, que não pesquisaram. Quando trata-se de assuntos “menores”, como um livro ou um filme, essa desonestidade intelectual é quase inofensiva, mas e quando envolve temas que nos afetam diretamente, como política e economia? A argumentação baseada em achismos e embasada em figurinhas com frases irônicas típicas das redes sociais é um câncer desgraçado que alastrou-se no meio de nós e apodreceu o cérebro de muita gente bacana. Em troca de um “curtir”, o sujeito é capaz de falar mal do “filme do momento”, filme esse que ele nem se deu ao trabalho de assistir mas rotula com adjetivos pejorativos. O gesto até poderia ser encarado como um ato de fanfarronice inocente, mas, como a maioria dessas piadinhas envolve diminuir e/ou criticar quem optou por ir ao cinema, não consigo calar-me frente a tamanha prepotência. Não seja um babaca boçal, amiguinho: evite comentar o que você não leu/não assistiu/não conhece, não contribua para o aumento do preconceito e da ignorância no mundo.

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 2E o que, devido a super exposição que a obra recebeu, eu sabia sobre o Cinquenta Tons de Cinza antes de assisti-lo? Apenas que ele era sobre um ricaço que seduzia uma jovem tímida e a convencia a participar de seus fetiches sadomasoquistas. É uma sinopse interessantíssima, daquelas que tu corre para comprar o ingresso antes da estreia? Não mesmo, mas, minimamente, é uma premissa pouco comum dentro do gênero romance. Algum motivo para invocar todo o panteão de bestas do apocalipse contra a autora/livro/filme? Não caras, não mesmo. Grandes clássicos do cinema mundial, como o cult e respeitado Último Tango em Paris, por exemplo, partem de premissas parecidas. A única forma real, portanto, de conferir a qualidade do conteúdo era ir no cinema e assistir o filme. Obviamente, assim como faço com vários outros títulos, eu poderia simplesmente ter optado por ignorar a produção por acreditar que ela não me agradaria devido ao tema. Por que não fiz isso? Porque, independentemente de qualquer opinião, Cinquenta Tons de Cinza tornou-se um sucesso estrondoso de público e eu, fã de cinema que sou, queria ter uma opinião sobre ele, simples assim. Falar bem ou falar mal, mas falar com propriedade, tal qual eu fiz com a série Crepúsculo.

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 3O que vi foi um filme cuja parte técnica é impecável mas que tropeça miseravelmente no roteiro. Anastasia Steele (Dakota Johnson) conhece e apaixona-se pelo rico e intimidador Christian Grey (Jamie Dornan) durante uma entrevista. Christian, ou Sr. Grey, também demonstra interesse por ela, mas tenta manter distância devido a algumas “excentricidades” que ele mesmo diz possuir. Como era de se esperar, essa hesitação só faz aumentar o tesão a tensão entre os dois e, depois de algum tempo, eles iniciam um relacionamento, mas não um nos moldes tradicionais: Christian pede para que Anastasia assine um contrato autorizando-o a machucá-la em práticas sadomasoquistas. Ele não quer fazer amor, ele quer f-o-d-e-r. HELL YEAH!!!! (fazia tempo que eu não usava essa expressão rs)

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 6O tal Christian Grey é fundamental para a história, mas não precisa ser um gênio para perceber que Cinquenta Tons de Cinza, além de ter sido escrito por uma mulher, também é SOBRE uma mulher e feito PARA as mulheres. Desde a trilha sonora, que é composta majoritariamente por baladas repletas de falsetes e gemidinhos (Beyoncé quase derrete em um versão pra lá de sexy da Crazy in Love), até as piadinhas típicas das comédias românticas tão adoradas pelas moçoilas (vá lá, a cena da fila de banheiro na boate é engraçadona), o filme da diretora Sam Taylor-Johnson mostra o princípio de um relacionamento a partir dos olhos da Anastasia. Nisso, vi com desinteresse grande parte das primeiras cenas que mostram a personagem agoniada após conhecer seu interesse amoroso: Anastasia sonha acordada enquanto trabalha, não consegue prestar atenção nas aulas e morde constantemente o lábio inferior ao lembrar de Christian. Achei isso tudo extremamente chato, mas fui forçado a reconhecer que essa ambientação funciona devido a boa resposta do público presente. É um começo leve e deveras comum dentro do gênero, nada que tu vá odiar nem amar.

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 4É aí que surge, por assim dizer, o diferencial de Cinquenta Tons de Cinza (a ideia do contrato e tudo aquilo que ele implica), e aí eu realmente não gostei do que vi. Não tenho absolutamente NADA contra pornografia, seja ela nos milhares sites de vídeo que existem por aí, seja na literatura (até hoje lembro com carinho da pág.369 do Se Houver Amanhã do Sidney Sheldon rs), mas não vejo porque assistir um filme teoricamente “sério” apenas para ver umas bundas brancas de fora. Eu esperava, portanto, que entre uma e outra cena de putaria desenvolvessem os personagens e explicassem o porque de eles serem tal qual o são, ele um homem com desejos sexuais excêntricos, ela uma mulher disposta a envolver-se com um cara como ele. Isso acontece? Parcialmente. Há um diálogo aqui, outro acolá, mas o que domina a tela na metade final do filme são as cenas de sexo soft porn (sem nú frontal, sem closes no nheco nheco) e as reclamações de Anastasia sobre os excessos de seu amado. Sobre o sexo, achei-o tão empolgante quanto a possibilidade de ver a minha vó de cinta liga bege imitando uma gata no cio. Conversam sobre apetrechos, mostram os apetrechos mas, no final das contas, Christian só usa uma corda e um chicotinho. As reclamações de Anastasia merecem um parágrafo à parte.

Cinquenta Tons de Cinza - CenaAnastasia conhece Christian. Christian diz para Anastasia que tem desejos estranhos. Anastasia fica curiosa e apaixona-se mais ainda. Christian revela esses desejos e pede para que ela assine um contrato concordando com eles. Anastasia aceita inicialmente a proposta e depois, como toda mulher que já colocou os pés nesse mundão velho sem fronteiras, tenta MUDAR o cara e transformá-lo em um namoradinho do tipo que vai no cinema e dorme juntinho. Isso é uma visão cômica da coisa toda, mas não deixa de conter uma triste verdade: mesmo em um filme teoricamente transgressor como Cinquenta Tons de Cinza, a ideia central parece ser identificar a fonte dos desejos sadomasoquistas do personagem e “cura-los”, assim, como se eles fossem uma doença. Não falarei das sequências porque não li e nem pretendo ler os livros, mas ficarei bem decepcionado caso o desfecho seja algo pobre do tipo “Anastasia, com todo o seu amor puro e supremo, SALVA Christian do monstro interior que ele desenvolveu devido a um trauma de infância”. Não que eu espere, com base no que vi, alguma discussão sobre sexualidade com a profundidade de um Ninfomaníaca ou de um O Império dos Sentidos, mas, para não ser marcada apenas pelo sensacionalismo que o tema sempre evoca, é bom que a série traga algo menos clichê e mais adulto em seus próximos capítulos. Por enquanto, digo que Cinquenta Tons de Cinza é sim um filme fraco e chato, mas também reconheço que ele é funcional devido ao fato gritante de ele preparar o terreno para algo maior e mais sombrio. Como eu SEMPRE torço para que os filmes sejam bons para que eu possa me divertir com eles, espero que as minhas suspeitas estejam erradas e as sequências compensem toda a falta de ritmo e profundidade desse debut.

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 5

Anúncios

»

  1. Pingback: Quarteto Fantástico (2015) | Já viu esse?

  2. Pingback: Beasts of no Nation (2015) | Já viu esse?

  3. Pingback: Love (2015) | Já viu esse?

  4. Pingback: Cinquenta Tons Mais Escuros (2017) | Já viu esse?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s