Os Boxtrolls (2014)

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Os BoxtrollsAh… os sacrifícios que fazemos pelo Oscar e pelas pessoas que amamos! Caras, em condições normais de temperatura e pressão, eu NUNCA assistiria esse Os Boxtrolls. Lembro perfeitamente do dia que vi o trailer dele no cinema e a minha reação foi a pior possível. Além do mesmo ser narrado por um sujeito que tem uma voz EXTREMAMENTE irritante (Nessas férias… Preparem-se para a aventura!), a história parecia ser mais uma dessas lições de moral requentadas sobre respeitar as diferenças. Para piorar tudo, a idéia central beirava o absurdo: conforme o título anunciava, teríamos trolls dentro de caixas! Que isso, meus deus!? rs Juntei essas impressões desanimadoras à minha atual descrença com animações hollywoodianas e, mesmo diante do apelo da minha esposa, que achou o trailer “bonitinho”, deixei o filme pra lá. Mudei de idéia, assisti-o e estou aqui escrevendo essa resenha por dois motivos:

  • Contrariando todas as minhas expectativas, Os Boxtrolls está concorrendo ao Oscar de Melhor Animação.
  • Todo homem casado sabe (ou deveria saber) que quem manda em casa é a mulher. Se ela falou que quer ver um filme, mesmo que isso demore, ELA QUER VER O FILME. Agora, por exemplo, eu poderia perfeitamente estar resenhando outro indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas, como o preço dessa ousadia a longo prazo não seria interessante, cá estou eu FELIZ cumprindo a vontade dela rs

Sabem o que é mais engraçado nessa história de sofrimento? Os Boxtrolls é legalzão. O fato de eu assisti-lo sem nenhuma expectativa contribuiu para essa avaliação positiva? Certamente, mas a animação dos diretores Graham Annable e Anthony Stacchi, ao contrário do que o trailer dava a entender, não fica presa aos estereótipos comuns do gênero e sobressai-se em um mercado deveras saturado com um tom sombrio e piadas de referência que devem agradar quem está cansado (\o) de cantorias e confusões do barulho.

Os Boxtrolls - CenaNinguém sai a noite na cidade de Cheesebridge. Ali, os moradores acreditam que os monstros conhecidos como Boxtrolls aproveitam a escuridão para roubar quinquilharias e raptar crianças inocentes, as quais eles levam para o subsolo e sacrificam em rituais sangrentos. Como resposta ao desaparecimento de um menino, o prefeito contrata o inescrupuloso Archibald Snatcher (voz do Ben Kingsley) para livrar a cidade de uma vez por todas dos monstros. Anos depois, próximo de terminar o serviço, Snatcher esbarra em um problemão: o menino, que adotou o nome de Eggs, não só reaparece como diz para todo mundo que os Boxtrolls não são tão ruins como todos pensavam.

Os Boxtrolls - Cena 3Esse roteiro, convenhamos, não tem nada de original. Vira e mexe aparece um filme onde duas sociedades convivem com medo uma da outra até que um de seus membros dá um jeito de reverter a situação. Para citar apenas um exemplo comprobatório do lugar comum, no Oscar do ano passado o ótimo Ernest et Célestine concorreu com essa mesma trama. A história também me lembrou o clássico Tarzan, já que o personagem principal também é criado por um grupo de seres selvagens e coleciona uma série de decepções quando reencontra seus semelhantes. Mas nenhuma, NENHUMA animação que eu assisti nesses quase 30 anos de vida tem trolls dentro de uma caixa e isso é um mérito que ninguém poderá tirar desse filme. Sabem o melhor dessa bizarrice? Não explicam o porquê dela. Qualquer coisa que tu queira entender sobre essas caixas, seja que elas simplesmente servem de roupa para os personagens, seja que elas representam uma analogia complexa do tipo “é preciso pensar fora da caixa” (acreditem, há argumentos no filme capazes de sustentar esse ponto de vista rs), qualquer coisa é com você, amiguinho.

Os Boxtrolls - Cena 4As piadas de Os Boxtrolls são fortemente calcadas no nonsense e é isso que, ao meu ver, torna-o uma produção muito mais voltada para o público adulto do que para a molecada. Tudo bem, as crianças podem divertir-se com as correrias genéricas e as caras e bocas dos monstros, mas nenhuma delas tem bagagem intelectual para entender as referências a outros títulos que o filme faz. Peguemos, por exemplo, a cena em que Eggs pergunta para uma mocinha onde fica a “Rua Coalhada”. Ela responde que é logo depois da “Rua Leite” e, imediatamente, a câmera corta para um baterista, assim, do nada, que toca um TSTUM TSTA. Se o leitor não ligou A e B (explicar piada é uma das coisas mais humilhantes que existem), essa cena é uma citação direta do seriado Friends, e a graça do momento está em reconhecer essa ligação. Outros pontos do roteiro, como os comentários pretensiosos e pedantes do prefeito e seus subalternos enquanto comem queijo, também exigem uma malícia tipicamente adulta para revelarem seu humor negro. Também não acredito que eu riria tanto das discussões dos ajudantes de Snatcher sobre o conteúdo moral do trabalho deles se eu fosse uma criança. Já o gordinho com cara de maluco que caça os monstros é um sujeito universalmente engraçado: além de comentar tudo o que faz (subindo na gaiola segurando uma corda! rs), ele age feito um doido psicótico o tempo todo e isso é hilário, tenha você 5 ou 50 anos.

Os Boxtrolls - Cena 2Os Boxtrolls é da mesma equipe que produziu Coraline e ParaNorman e isso, além de evocar o humor negro e bizarrices já comentados, também significa que tu verá uma caprichada animação em stop motion. Um detalhe bacana é que, para todo mundo que já perguntou-se sobre a dificuldade inerente a técnica (já que os bonecos de massinha precisam ser reposicionados várias vezes para que cada cena seja feita), há uma divertida cena explicando o processo durante os créditos finais. É a melhor animação do ano? Não mesmo. O Conto da Princesa Kaguya é mais bizarro e o Como Treinar Seu Dragão 2 é mais divertido e completo. Mesmo assim, digo-vos que tive uma sessão muito prazerosa e recomendo-o sem pestanejar.

Os Boxtrolls - Cena 5

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  1. Obrigada por ver esse filme comigo. Muito amor!!! E eu gostei muito principalmente pela falta de roupa e sapatos dos trolls que me remeteu aos escravos e que só reafirma a diferença social, e cultural entre classes.

  2. Pingback: Kubo e as Cordas Mágicas (2016) | Já viu esse?

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