Livre (2014)

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LivreEsse texto representa um marco na história do blog. Caso o leitor não tenha notado, essa é a primeira vez que publico no javiuesse.com, sem a extensão .wordpress do servidor. Demorou bastante, mas finalmente adquiri o domínio da página e isso me deixou muito feliz. A intenção agora é utilizar o AdSense, ferramenta do Google que paga algumas merrecas por acessos/cliques em banners, mas desde já firmo um compromisso: NUNCA usarei esse espaço para pedir que alguém me ajude a ganhar dinheiro e também não poluirei o blog com vários anúncios estapafúrdios. Quem visita aqui regularmente já deve ter notado um ou outro banner de propaganda, que são adicionados automaticamente pelo WordPress, a diferença é que a partir de agora eu poderei ganhar algo com isso. A felicidade, como todos sabem, é relativa e pessoal: ainda que a previsão de lucro seja mínima, sentirei-me perfeitamente realizado se um dia eu puder sentar em um bar e pagar uma cerveja com o dinheiro que eu ganhei escrevendo sobre filmes 😀

Enquanto aguardo pela legenda do Selma, único longa dentre os concorrentes a Melhor Filme que ainda não assisti, começo a explorar as outras produções indicadas ao Oscar. Livre, trabalho do diretor Jean-Marc Vallée (Clube de Compra Dallas) disputa as estatuetas de Melhor Atriz (Reese Witherspoon) e Melhor Atriz Coadjuvante (Laura Dern). Baseado em fatos reais, ele mostra a jornada de auto conhecimento que a americana Cheryl Strayed (Witherspoon) vivenciou ao percorrer a trilha conhecida como Pacific Crest Trail, uma viagem de quase 2 mil quilômetros que ela realizou a pé e sem companhia.

Livre - CenaLivre, em sua execução e proposta, é bem parecido com o clássico cult Na Natureza Selvagem: tal qual o malucão Christopher McCandless, Cheryl inicia suas andanças desejosa de deixar parte de sua vida para trás. O filme começa com ela no topo de uma montanha, toda suja e ferida, gritando e arremessando uma bota em um penhasco. O que inicialmente parece ser um indicativo de desistência é então deixado momentaneamente de lado para que, através de um longo flashback, nós possamos entender melhor os motivos que a levaram até ali e o que significa aquele grito.

Cheryl passou por uma experiência familiar trágica que arruinou completamente seu lado psicológico. Traições e o uso de drogas decorrente da falta de estabilidade emocional acabaram destruindo seu casamento e então ela se viu abandonada a si mesma em um mundo que parecia não fazer mais sentido. Foi aí que surgiu a ideia de percorrer a Pacific Crest Trail, desafio físico e psicológico extremo que qualquer um poderia classificar como absurdo mas que, por outro lado, seria a oportunidade perfeita de afastar-se de tudo e de todos, repensar a vida e colocar as coisas em seu devido lugar. Foi isso que ela fez e é por isso que ouvimos aquele grito selvagem logo no começo da trama: Cheryl acabara de exorcizar um de seus últimos demônios.

Livre - Cena 4Salvas as devidas proporções, eu também já fiz uma viagem de auto conhecimento. Há 4 anos, percorri o trajeto de cerca de 75km entre Uberlândia e Romaria. Geralmente, essa peregrinação é feita em agosto pelos chamados romeiros, devotos de Nossa Senhora da Abadia que é a padroeira da cidade. Não sou religioso, mas esse ano eu fui esperançoso de que meu esforço resultasse na melhora da saúde do meu vovô, que sofria com uma doença do coração. Infelizmente, ele faleceu 2 meses depois vítima de um ataque cardíaco, mas nem por isso considero que a viagem foi em vão. Durante as 36 horas que passei na estrada, conversei tudo que eu poderia conversar com o meu primo, cantei (rs), comi as refeições ofertadas pelas pessoas que dão apoio aos romeiros e dormi olhando para as estrelas deitado no chão, do qual eu estava separado apenas por um fino cobertor. Minhas pernas “assaram”, fiz calo nos pés e cheguei fisicamente esgotado no destino, mas mesmo assim eu não pude deixar de ficar feliz, tanto por conseguir completar o trajeto quanto por tudo que eu pude pensar e questionar ao longo dele. Família, amor, religião, trabalho, música, filmes, livros… Quando o cansaço trazia os silêncios prolongados, eu caminhava ao lado do meu primo entregue aos meus próprios pensamentos e isso, indiscutivelmente, me colocou em contato comigo mesmo e me fez um bem danado.

Livre - Cena 2Livre tem uma edição caprichada que vai entregando e desvendando aos poucos a vida de Cheryl antes do início da caminhada através das das reflexões da personagem. Vallée nos mostra então uma garotinha marcada pelo relacionamento insatisfatório e violento dos pais, uma adolescente arrogante e prepotente que parece culpar a mãe (Laura Dern) por todos os problemas do mundo e uma mulher adulta extravasando frustrações e destruindo o próprio casamento no processo. O desenvolvimento de personagens, ponto forte desse tipo de trama intimista, é acompanhado por uma bela trilha sonora marcada por músicas folk e por um roteiro repleto de pequenos detalhes que, nesse caso, fazem toda a diferença. Exemplo: apaixonada por literatura, Cheryl vai deixando trechos de livros escritos em um caderno ao longo do caminho que refletem exatamente aquilo que ela está sentindo no momento. Cito ainda a canção entoada pelo garotinho próximo ao final, um daqueles momentos de cortar o coração, e o fato de que o diretor, ainda que trabalhe sobre uma ótica feminina, evite certos clichês. Livre é baseado em fatos reais e por isso não ficaria bem Vallée inventar (com o intuito de aumentar a carga emocional) um estupro naquela cena inicial onde Cheryl pede carona para um fazendeiro, mas mesmo assim foi bom ver que o diretor soube trabalhar o medo das mulheres frente a brutalidade masculina em cenas mais sutis, mas nem por isso menos revoltantes, como quando a personagem é observada trocando de roupa por um andarilho.

Livre - Cena 5Livre me emocionou muito. As cenas que envolvem Cheryl e sua mãe, além de muitíssimo bem executadas devido a química entre as atrizes, são aquele tipo de material que colocam o dedo na ferida de quem também tem algum tipo de relação familiar conturbada. Mais do que isso, porém, o filme de Vallée é inspirador no sentido de que ele mostra que, independentemente do que ocorrer em nossas vidas, sempre é possível recomeçar após uma auto crítica sincera. Sofra, chore, grite, faça o que for preciso, mas uma hora é preciso perdoar-se e seguir em frente. Eis um excelente filme que, ao meu ver, poderia estar concorrendo em mais categorias.

Livre - Cena 3

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  1. Parabéns pelo blog e sua nova etapa 🙂 E acho que esse filme casa perfeitamente com o fato de agora o blog ser só seu, sua independência perante ao que possa ser vinculado com os seus textos.
    Esse filme foi inspirador pois mostra que a mulher não deve ficar na posição de vitima e com medo de se aventurar sozinha sem a proteção de um homem.

  2. Pingback: A Fotografia Oculta de Vivian Maier (2013) | Já viu esse?

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