Sniper Americano (2014)

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Sniper AmericanoSnipers são chatos. No período nerd da minha vida que eu virava as noites em lan houses jogando Counter Strike, eu simplesmente detestava quem ia para a pauleira com aqueles rifles de longo alcance. Você estava lá, com sua AK47 andando furtivamente pelo cenário quando…. POW!!! Um tiro vindo de um lugar qualquer explodia sua cabeça e lhe tirava da partida. Vez ou outra a gente tinha felicidade de surpreender os desgraçados em seus esconderijos e humilha-los cortando-lhes a garganta, mas no geral um bom jogador conseguia matar pelo menos uns 3 inimigos antes de ser descoberto. Chatos mas estrategicamente importantes dentro do jogo, os Snipers são fundamentais na vida real para o sucesso das operações militares justamente por utilizarem sua capacidade de atacarem a distância e em segurança para protegerem os soldados que operam na linha de frente dos combates. Em Sniper Americano, produção que concorre ao Oscar de Melhor Filme, Clint Eastwood conta a história de Chris Kyle (Bradley Cooper), soldado que atuou na Guerra do Iraque e que é considerado o maior sniper da história do exército americano.

Há alguns dias, um amigo que também é apaixonado por cinema me disse que não tem o menor interesse de assistir os filmes indicados ao Oscar. Segundo ele, as produções são sempre burocráticas e previsíveis, como se existisse uma espécie de “fórmula” que os diretores/produtores precisassem seguir para que seus trabalhos sejam indicados. Trata-se de um comentário injusto pelo tom generalizador (olhando apenas para os concorrentes desse ano, temos o insano Grande Hotel Budapeste para invalidar a ‘teoria’), mas eu entendo os motivos da descrença dele. De fato, olhando para o histórico de vencedores e indicados, nota-se um grande número de biografias e dramas que abordam temas políticos e sociais. Ficções científicas, comédias e filmes de terror raramente caem nas graças da Academia (que prefere trabalhos que são teoricamente ‘mais sérios’) e isso pode sim ser compreendido como uma padronização. Todo caso, voltando a conversa que tive com o meu amigo, devo dizer que o que ouvi influenciou a forma como assisti esse Sniper Americano. Vi o filme procurando elementos que me fizessem discordar do que ele disse (discordar sempre é mais divertido) mas encontrei exatamente o contrário: longe de seus melhores momentos, Clint Eastwood produziu um filme que não arrisca absolutamente nada, um trabalho burocrático e formuláico que, ainda que não seja de todo ruim, não pode, de maneira alguma, ser considerado o melhor filme do ano. Explico-lhes os meus motivos.

Sniper Americano - Cena 5Conforme dito no primeiro parágrafo, Sniper Americano é uma biografia. Eastwood abre o filme mostrando Kyle no meio da guerra, prestes decidir se atira ou não em uma criança, mas logo a tensão é suspensa para mostrar a tradicional reconstituição da infância do personagem. O que inspirou um cidadão texano comum a alistar-se no exército e tornar-se uma lenda do gatilho? Segundo o que podemos ver aqui, Kyle foi criado em um rígido ambiente religioso. O pai ensinou-lhe a política do “olho por olho, dente por dente” e disse-lhe, em um daqueles momentos que parecem definir a futura personalidade de alguém, que existem três tipos de pessoas na vida: os cordeiros, os lobos e os cães pastores. Resumidamente, a teoria do sujeito diz que os primeiros, por sua inocência, sofrem na mão dos segundos e que cabe aos últimos protegê-los do mal, custe o que custar. Já adulto, Kyle abandona uma improvável carreira como caubói para tornar-se um cão pastor: diante de um ataque terrorista contra uma embaixada americana, o personagem entra para o exército disposto a proteger os Estados Unidos da América contra as forças do mal. Treinamento, casamento, atentado de 11 de setembro e pronto, Kyle é enviado para o Iraque e enfim recebe sua oportunidade de defender sua nação. É aí que o reencontramos lá no topo daquele prédio prestes a decidir o destino de um menino que carrega um objeto suspeito. Ele atira e dá início a uma lenda.

Sniper Americano - Cena 4 Ao meu ver, Eastwood tentou mostrar tanto o homem quanto o mito que formou-se ao redor dele mas, no final das contas, ele não obteve êxito em nenhuma das duas propostas. Quando mostra Kyle, o esposo, filho e cidadão texano, o diretor dá a entender que o soldado acabou tornando-se obcecado pelo conflito tal qual o personagem principal do vencedor do Oscar Guerra ao Terror. Ele briga com a mulher, que reclama constantemente de sua ausência, discute com outros soldados quando eles demonstram falta de fé ou de comprometimento com a missão, e retorna para a guerra mesmo após esgotar seu tempo de serviço obrigatório para enfrentar aquele que é considerado o melhor sniper do lado inimigo. As cenas com a mulher falham porque não há a menor química entre o Bradley Cooper e a Sienna Miller. A atriz, aliás, não poderia estar mais equivocada: a personagem dela, que é apresentada em uma cena que transborda arrogância feminina em um bar, não transmite emoção nem quando dá à luz. No que diz respeito ao relacionamento de Kyle com seus amigos, nunca fica claro se ele gosta ou não da bajulação que recebe. Essa indiferença, porém, não casa nenhum pouco com os discursos inflamados sobre religião e patriotismo que ele profere mais de uma vez. Ele é obcecado por ser o melhor, ele realmente acha que está defendendo seu país? Quais as motivações de Kyle? Eastwood nos dá pouco para entender a obsessão do personagem e, por ele ser um herói nacional, parece tratá-lo com um respeito exagerado.

Sniper Americano - Cena 2Quando trabalha a criação do mito, o diretor também não convence. Eastwood abre mão de cenas de ação fantásticas, que poderiam nos convencer facilmente das peripécias do personagem, para realizar uma abordagem mais realista. Isso quer dizer que tu não verá Kyle dando tiros impossíveis ou matando soldados inimigos tal qual o Fredrick Zoller do Bastardos Inglórios. Tratando-se de uma biografia, a decisão é acertada, mas esse filme possui apenas uma cena (a emboscada que termina com um homem matando um menino com uma furadeira) que está a altura do Cartas de Iwo Jima,  que ao meu ver é o que o diretor fez de melhor no campo da violência real. Sniper Americano nem abraça a ação fácil típica do cinema blockbuster nem exibe vísceras e sangue para lhe dar um choque de realidade. Novamente, o tom é respeitoso, um meio termo insosso que muitas vezes dá a entender que Kyle chegou onde chegou apenas por não ter recebido um tiro enquanto aumentava sua contagem de corpos. Tratar os iraquianos simplesmente como “selvagens” e “força do mal”, aliás, não tem nada de real.

Sniper Americano - CenaÉ essa a receita do Oscar? Biografia superficial sobre alguma celebridade construída com tons realistas? Aparentemente sim, já que o filme concorre em 6 categorias (dentre elas, Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Roteiro Adaptado).  Essa é a receita de um filme bom, daqueles que tu escolhe para ver independente de premiações? Não mesmo. Sniper Americano é um filme que tem poucas cenas memoráveis (aquele treinamento molenga? apresentem o Capitão Nascimento para os americanos) e que não desenvolve satisfatoriamente nenhum dos conflitos psicológicos que apresenta. Provavelmente eu o veria de qualquer forma, já que sou fã do diretor (o que torna uma tortura escrever essa resenha negativa), mas nem de longe esse formato padronizado é o que a Academia pode oferecer de melhor e/ou consagrar como tal.

Sniper Americano - Cena 3

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  2. Realmente nos últimos anos sempre aparece um filme de guerra para concorrer ao Oscar e eu sempre espero que o próximo vai trazer outra perspectiva que não seja a batalha e o herói.
    Não foi o caso desse filme que me deu uma ponta de esperança quando começou a mostrar a volta do soldado para casa e como ele não conseguia viver em sociedade, e de como ele resolve abandonar a guerra e ajudar os outros soldados a adaptar-se como ele a sobreviver em sociedade, a conviver com a família , o tema foi abordado muito superficialmente sem emoção. Não gostei do filme nem da abordagem.

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