Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014)

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WhiplashTal qual todo mundo que já passou pela universidade, tenho uma boa quantidade de histórias para contar. A maioria, felizmente, é boa e envolve bebedeiras épicas em festas estranhas com gente esquisita, mas também colecionei uma série de episódios vergonhosos dos quais eu não tenho o menor orgulho de lembrar. Um bom exemplo é uma discussão absurda na qual me vi envolvido com um professor de antropologia no curso de História. O sujeito, que fazia questão que todos o chamassem de “doutor”, estava falando sobre o cronograma do semestre e eu perguntei-lhe que dia seria aplicado o “teste”. “TESTE?!?!” perguntou/gritou o doutor. “Nunca mais use essa palavra nas minhas aulas! Diga ‘prova’. Teste é algo que se aplica em animais, mas eu não vou nem me dar ao trabalho de te explicar a diferença porque você não é capaz de entender”.

Como já xinguei/amaldiçoei o sujeito o suficiente, proponho-me agora a analisar o que ele disse deixando a grosseria de lado. Digamos, por exemplo, que ele não tenha feito isso apenas por ser um babaca arrogante. Vamos considerar que, lá no fundo, a intenção dele fosse puramente pedagógica. Diante da minha incompreensão de uma questão semântica tão importante para a convivência em sociedade, portanto, ele assumiu o pesado fardo de “vilão da história” (trocadilho infame) e sacrificou sua imagem de bom moço para me ensinar algo. Ele me ofendeu e humilhou, mas ele só o fez para que eu pudesse me sentir pressionado e, consequentemente, desafiado a estudar e a me tornar uma pessoa melhor. Não foi uma frase tosca solta e infeliz: tudo fazia parte de um método, ele estava agindo de acordo com uma filosofia de vida que acredita que, diante da pressão, as pessoas revelam aquilo que elas tem de melhor de dentro de si. Foi isso que aconteceu? Sinceramente, eu nunca vou saber. Esse episódio me desafiou e fez com que eu quisesse me tornar uma pessoa mais inteligente, mesmo que com a intenção de provar algo para ele ou para mim mesmo? Difícil avaliar. A única certeza consciente que tenho é a de que, depois daquele dia, eu nunca mais ouvi uma palavra do que ele disse em sala de aula sem procurar uma brecha para puxar o tapete dele: fiquei com ódio e a porta da troca de conhecimento aluno-professor foi fechada para sempre.

WHIPLASHEm Whiplash: Em Busca da Perfeição, Andrew (Milles Teller) é um baterista de um conservatório que recebe sua chance de transformar-se em um importante músico profissional quando o renomado professor Fletcher (J. K. Simmons) recruta-lhe  para tocar junto com seu seleto grupo de alunos.  Fletcher é exigente e autoritário, mas a sua trajetória no mundo do jazz transformou-o em uma espécie de lenda viva dentro do conservatório, de modo que Andrew fará tudo para ocupar o posto de baterista oficial da banda, mesmo que isso signifique arriscar sua saúde e abrir mão de sua dignidade.

Se você também gosta de heavy metal e animou-se ao ouvir falar do “Whiplash, filme de baterista” pensando que tratava-se de algo relacionado a música do Kill ‘Em All do Metallica, dá cá um abraço e compartilhe comigo sua decepção. A Whiplash do filme comandado pelo diretor Damien Chazelle é uma música de jazz que o personagem principal passará um inferno para aprender a tocar (em tempo, mesmo não sendo fã do estilo, é uma música bem legal). Fletcher consegue identificar um instrumento desafinado a quilômetros de distância e não aceita que o tempo da música seja alterado, logo ele fará com que todos ensaiem exaustivamente até que tudo fique perfeito. O que por si só já seria uma fonte constante de conflitos (visto que todos ali são alunos que ainda não dominam completamente a técnica) transforma-se em uma guerra de nervos devido ao sonho de Andrew: ele não quer ser apenas mais um músico, ele deseja tornar-se um dos melhores (senão o melhor) bateristas do mundo, portanto ele aceitará cada uma das extravagâncias do professor como um mal necessário para aperfeiçoar-se. Isso, é claro, até o preço tornar-se caro demais.

Whiplash - Em Busca da Perfeição - Cena 3Whiplash é um filme sobre obsessões (ser o melhor, descobrir e treinar o melhor) e os efeitos perniciosos que elas provocam em nossas vidas. Ninguém ousará dizer que Andrew deve sonhar menos e que ele não precisa provar nada para ninguém. O pai dele, aliás, até tenta essa abordagem no começo do filme quando diz que, com o tempo, nossas perspectivas mudam e nós passamos a não nos preocuparmos mais com as opiniões dos outros. Porém, ainda que respeite-se a liberdade individual de escolha, é difícil dizer que alguém que termina com a namorada para tocar (bateria rs) até os dedos sangrarem está no caminho certo.

Fletcher, tal qual o meu professor, também pode ser um “doutor” competente e bem intencionado, alguém ansioso por encontrar uma pedra bruta e transformar em um diamante, mas os métodos dele, mesmo que deem resultado, precisam serem revistos. Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel e indicado ao Oscar na mesma categoria, o ator J. K. Simmons está tão ou mais obcecado por ordem e disciplina do que o caricato Sgt. Hartman do Nascido Para Matar com seus xingamentos homofóbicos e racistas contra os alunos. Em uma das cenas mais tensas do filme, ele chega a esbofetear Andrew no rosto na frente dos outros músicos. Tudo isso, ele explica, é para que o baterista sinta-se desafiado e dê o seu melhor, o que até acontece no esplendoroso solo de bateria executado no clímax da trama, mas, analisando o impacto que ele causa na vida do personagem como um todo, não é difícil perceber que as contribuições foram mais negativas do que positivas. Quantos egos, vidas e sonhos serão destruídos para que um super profissional capaz de resistir a qualquer tipo de pressão seja criado? Vale a pena? Se pegarmos o próprio filme do Kubrick como exemplo (e a história do trompetista que é contada aqui em uma parte da trama), a resposta é um sonoro NÃO. A minha resposta também é não, “doutor” babaca, ninguém precisa queimar a própria vida para alcançar um ideal de perfeição dos outros. Teste, teste, teste, TESTE! rs

Whiplash - Em Busca da Perfeição - Cena 4Whiplash: Em Busca da Perfeição foi uma das maiores surpresas da lista de indicados ao Oscar de 2015. O filme, que havia concorrido apenas a um Globo de Ouro, recebeu cinco indicações aos prêmios da Academia, entre eles o de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme. A maior chance de ele sair vencedor no próximo dia de 22, acredito, é com o J. K. Simmons que, de fato, está demoníaco no papel. De resto, trata-se de um filme bom, relativamente curto (1h40min) e extremamente bem executado (os closes nas peças da bateria são lindos e o som está ótimo) que, minimamente, traz algum frescor para a cena deveras previsível do Oscar com seus filmes politicamente engajados. Whiplash - Em Busca da Perfeição - Cena 2

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  3. Muito bom. Vi o filme 3 vezes e o final assisti mais de 6 vezes. Entendi a relação final do professor e aluno…e conseguiu revelar um novo charlie parker que tanto queria. Show e me surpreendeu.

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