O Jogo da Imitação (2014)

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O Jogo da ImitaçãoComecei meu último texto lamentando o fato de os principais concorrentes ao Globo de Ouro não terem sido disponibilizados na internet antes da cerimônia. Adivinhem só o que aconteceu no dia seguinte? TODOS os filmes que faltavam apareceram no site que eu utilizo para fazer minhas buscas. Foi assustador. Restavam apenas 4 dias para a premiação e eu tinha 5 filmes para assistir e resenhar. A tarefa, no entanto, acabou tornando-se bem mais “fácil” do que imaginei: dentre todos os títulos que consegui, havia legenda apenas para esse O Jogo da Imitação. A legenda, aliás, estava tão “boa” quanto um texto traduzido pelo tradutor do Google e isso exigiu-me um esforço extra para compreender e interpretar os diálogos. De qualquer maneira, as reclamações acabam por aqui: concorrendo a cinco Globos de Ouro, o filme do diretor Morten Tyldum é um drama/suspense envolvente que tem todos os elementos necessários (temática provocativa, ótimas atuações) para sagrar-se vencedor tanto hoje a noite quanto nas categorias em que ele certamente será indicado ao Oscar. Para comentá-lo valorizando a ótima experiência que tive assistindo-o e estabelecendo os paralelos que consegui fazer com o meu dia a dia, precisarei revelar alguns detalhes importantes do roteiro concernentes a personalidade do personagem, ok?

Durante a Segunda Guerra Mundial, os alemães usavam mensagens criptografadas para coordenarem suas ações militares. Fazendo uso de uma máquina conhecida como Enigma, eles enviavam códigos irreconhecíveis aos olhos do inimigo que continham informações exatas de onde bombardeios e ataques marítimos e terrestres ocorreriam. Desvendar esse código, portanto, daria uma grande vantagem aos países aliados em sua luta contra Hitler. Para tanto, o governo britânico reuniu uma equipe de especialistas em criptografia e incumbiu-lhes da até então considerada impossível tarefa de identificar os padrões das mensagens nazistas.

O Jogo da Imitação - CenaDentre os membros dessa equipe, encontrava-se o matemático Alan Turing (Benedict Cumberbatch). Tão inteligente quanto arrogante, Turing logo dispensou o modelo de trabalho moroso de seus colegas e concentrou-se na construção de uma máquina que, segundo ele, seria capaz de desvendar instantaneamente qualquer mensagem enviada pelos alemães. Inicialmente, ele foi visto como um louco prepotente tanto por aqueles que trabalhavam diretamente com ele quanto pelos membros do governo responsáveis por conduzir e financiar o projeto. A história, no entanto, mostra que os esforços do matemático ajudaram a diminuir a guerra em pelo menos um ano, o que salvou incontáveis vidas ao redor de todo mundo.

Para nos ajudar a mergulhar na personalidade complexa de Turing, o diretor Morten Tyldum dividiu a trama em 3 partes que misturam-se constantemente durante a projeção. Além do evento principal que mostra a construção da máquina e a quebra do código, também vemos o personagem após a guerra e ainda criança condensando valores e desenvolvendo suas capacidades intelectuais. Alan Turing era homossexual e parte de seu interesse pela criptografia começou quando um de seus amigos da escola, possivelmente seu primeiro interesse amoroso, apresentou-lhe o tema e estimulou-o a comunicar-se através de mensagens codificadas. A morte prematura desse garoto parece ter sido fundamental para que ele construísse uma personalidade fechada e arrogante. Ironias, que nada mais são do que figuras de linguagem que utilizamos para falar algo quando queremos dizer outra coisa (A legenda, aliás, estava tão “boa” quanto um texto traduzido pelo tradutor do Google), transformaram-se em uma constante na vida do personagem e renderam-lhe vários inimigos e dissabores, mas essa compreensão de códigos linguísticos também foi fundamental para que o trabalho dele durante a guerra obtivesse êxito.

O Jogo da Imitação - Cena 3O que percebo quando vejo histórias como a mostrada nesse O Jogo da Imitação é a confirmação da dualidade que cada um de nós carrega dentro de si. Com base no que vemos no filme, podemos dizer que Turing é arrogante (pela forma como ele trata os inspetores de polícia logo no início), prepotente (pelo que ele diz quando solicita a dispensa de dois membros da equipe) e anti social (pela tentativa pífia que ele faz de ser legal quando conta uma piada), características mais do que suficientes para que possamos não querer alguém como ele em nossas vidas. É complicado conviver com pessoas assim. No entanto, o formato cinematográfico, ainda que simplificador, nos permite olhar para o quadro geral e aí as coisas mudam um pouco de figura. Ainda que possua todos esses defeitos, podemos dizer que o personagem é guiado por um objetivo nobre (quebrar o código, acabar com a guerra) e é inegável a força dos resultados que ele obtém. As vezes, por mais difícil que seja reconhecer, precisamos mais de alguém competente do que de uma pessoa legal e boa praça. O desafio, acredito, é saber extrair o que cada um tem de melhor, exercício que só é possível se estivermos dispostos a olhar para nós mesmos com um pouco mais de humildade de modo que possamos nos desvencilharmos dessa imagem falsa que muitas vezes cultivamos a nosso respeito de que só possuímos qualidades.

O Jogo da Imitação - Cena 4O Jogo da Imitação estimula o nosso espírito crítico nesse sentido, mas a mensagem mais forte do filme não é atacar o maniqueísmo nosso de cada dia. Alan Turing morreu, acredita-se, envenenado após ingerir propositalmente uma quantidade mortal de cianureto. Mesmo tendo sido um dos responsáveis diretos pela derrota dos alemães e, consequentemente, por salvar várias vidas, Turing foi processado pelo governo britânico em 1952 por ser homossexual, prática que então era considerada crime no país. Submetido a uma terapia hormonal e obrigado a passar por um processo de castração química, o matemático definhou e, ao que tudo indica, cometeu suicídio. Consta que em 2013, mais de 60 anos após o evento, a Rainha Elizabeth II concedeu o “Perdão Real” a Turing reconhecendo o erro do governo naquela ocasião, uma atitude digna, é verdade, mas ineficaz para alguém que foi praticamente condenado a morte após salvar a vida de milhares. Mais uma vez, fica o exemplo mais do que prático para pensarmos no quão pernicioso é intervenção do Estado em questões de caráter particular.

O Jogo da Imitação - Cena 2Esse texto foi escrito levando em consideração as minhas impressões sobre o roteiro, mas ele também poderia ser todo sobre a performance do Benedict Cumberbatch. O Jogo da Imitação traz bons atores como Matthew Goode, Charles Dance, Mark Strong e Keira Knightley, mas ninguém que assisti-lo deixará de notar o quanto o momento do cara é bom. Cumberbatch, que meio que apareceu para o público há pouco tempo com longas como Além da Escuridão – Star Trek e A Desolação de Smaug, tem mostrado uma versatilidade incrível filme após filme, compondo personagens diferentes e memoráveis com sua voz marcante e face expressiva, de modo que hoje o simples fato de ele estar em uma produção já é o suficiente para que eu me interesse por ela. Fica aqui a minha torcida para que reconheçam o trabalho dele hoje a noite com o Globo de Ouro de Melhor Ator – Drama. É um tiro no escuro, visto que eu não vi a performance de todos os indicados (estou curioso para ver os trabalhos do Carell e do Gyllenhaal), mas é um tiro que dou sem medo.

O Jogo da Imitação - Cena 5

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  1. Amigo, adorei sua resenha, embora confesse parei antes da metade. Não quis tomar um spoiler, pois, anseio em ver esse filme.

    Te escrevo para dizer que assinei o feed do seu blog e sempre leio as suas resenhas. Continue, ok? Não se desmotive.

    O segundo motivo é: por onde baixar os filmes? Sempre baixava através de torrent, pelo the pirate bay, mas como ele saiu do ar, o meu senso de comodidade e confiança foi embora. O que me restam são as opções como o Netflix, que é restrístíssima e alguns sites gringos.

    Gostaria de saber por onde você baixa os seus.

    OBS.: Quando as premiações passarem, aconselho-o a assistir: Instructions Not Included (2013)

    É aquele típico filme que não possui nada pra dar certo, iaí, você se lembra que um filme pra ser ótimo, tem que ter um excelente roteiro. O filme não faz o meu gênero e, as sinopses e pôsteres são muito desanimadores, mas, assista que você irá se surpreender.

    Grande abraço e aguardo resposta.

    • Obrigado pelas palavras de apoio 🙂

      Eu continuo usando o torrent, encontro quase tudo no kickass.

      Já coloquei o filme que tu citou aí na lista dos títulos que verei depois do Oscar.

      Novamente, obrigado pelo apoio, comentários como o seu são fundamentais para a roda continuar girando.

      Abraço.

  2. Pingback: Ex-Machina: Instinto Artificial (2015) | Já viu esse?

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