Pride (2014)

Padrão

PrideNessa temporada, a interweb não foi tão generosa como de costume com os fãs de cinema. A cerimônia do Globo de Ouro de 2015 ocorrerá no próximo domingo, dia 11/01, e até agora apenas 5 dos 10 candidatos aos principais prêmios encontram-se disponíveis para apreciação. Dessa forma, é praticamente certo que a minha cobertura aos indicados a Melhor Filme Drama e Melhor Filme Comédia/Musical encerra-se aqui com o purpurinado Pride. Ainda devo assistir uma animação e/ou filme estrangeiro dentro os indicados antes do evento, porém é certo que os grandes esforços do ano começarão quando anunciarem os concorrentes ao Oscar.

Em 1984, o governo britânico comandado pela Dama de Ferro Margareth Thatcher anunciou medidas que levariam ao fechamento de minas de carvão deficitárias em todo o país, o que, no final, resultaria na demissão de cerca de 20 mil trabalhadores. Caso o leitor tenha interesse no tema ou necessite de informações sobre ele, recomendo esse link. Pride, filme do desconhecido diretor Matthew Warchus, é ambientado nesse período de enfrentamento entre governo e forças sindicais e dá conta da participação de um grupo de gays e lésbicas no processo.

Eu trabalho com algumas pessoas que são declaradamente contra homossexuais, umas por motivos religiosos, outras por terem construído suas vidas dentro do ambiente militar. Eu até consigo compreender a cristalização de valores construídos ao longo dos anos, a suposta “coerência” com os ensinamentos bíblicos e a falta de vontade/capacidade para mudar de opinião, mas não entendo a necessidade de expressar tudo isso através de sentenças de ódio. As piadinhas cretinas, como as que ouvi quando comentei com eles sobre o longa nacional Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, são, até certo ponto, “aceitáveis”. O que choca mesmo são as tentativas de sistematizar e justificar o preconceito travestido de opinião quando as discussões tornam-se sérias. Por algum motivo que me é extremamente obscuro, eles parecem sentir-se moralmente elevados tanto por serem heteros quanto por “deixarem” os outros fazerem aquilo que eles quiserem. Isso, é claro, se essas ações não “prejudicarem” eles ou a família deles. Nisso, falácias como “prefiro ter um filho bandido do que um filho gay” e “homossexualismo é pecado, está escrito na bíblia” aparecem, os ânimos ficam exautados, a paciência acaba e o assunto termina de forma brusca, com cada qual sentindo-se o dono da razão. Nesses momentos, como consolação, resta-me apenas acreditar que não estou perdendo nada por não diferenciar ninguém devido a opção sexual e ter a certeza que o meu posicionamento (que, ainda que eu não reivindique como sendo o certo, minimamente não prega o ódio) deve-se muito a apreciação de obras culturais de todos os tipos e pontos de vista diferentes, como esse Pride.

Pride - Cena 2É bom fazer esse tipo de reflexão porque, excetuando-se o fato de tratar-se de um concorrente ao Globo de Ouro, pode parecer estranho indicar o longa devido a especificidade de seu tema. Releiam a sinopse do segundo parágrafo. “Relações entre mineiros e homossexuais na Inglaterra durante a greve de 1984”. Não é todos os dias que sai um filme desses e não é uma realidade que gera empatia imediata, logo é preciso que o leitor saiba que há algo ali que valha a pena o investimento de 2 horas de sua preciosa vida. No caso, esse “algo” é a diversão que o texto majoritariamente humorístico fornece e, claro, o sempre válido exercício da tolerância.

Pride - Cena 3Estruturalmente, Pride assemelha-se ao aclamado Histórias Cruzadas. Temos aqui um assunto complexo e polêmico sendo trabalhado de forma leve, sempre intercalando cenas de conflitos e discussões com piadas construídas as custas dos estereótipos comuns ao tema. Nisso, o grupo encabeçado por Mark (Ben Schnetzer) e Joe (George MacKay) enfrenta todo tipo de problemas, como preconceito, ofensas, violência física e tentativas de sabotagem, mas nenhuma dessas cenas dura tempo suficiente para que tu fique triste e não consiga rir das sequências de dança e diálogos auto depreciativos propositalmente exagerados em que os personagens envolvem-se durante o filme. Isso é bom e ruim. Se considerarmos que até mesmo esses filmes mais superficiais, baseados no humor, prestam o trabalho de levar certas discussões para o público, então é bom, visto que produções mais sérias sobre homossexualismo, com cenas de sexo e conflitos psicológicos profundos, costumam afastar parte da população. É ruim pelos mesmos motivos: para passar sua mensagem, Warchus sacrifica a complexidade do mundo real e cria um cenário quase preto e branco em que gays são pessoas divertidas, legais e engajadas enquanto aqueles que não gostam deles são, necessariamente, pessoas imaturas, homens idiotas e mulheres mal amadas. Assuntos sérios como a AIDS também não merecem a devida atenção e são tratados de forma suavizada através de diálogos sugestivos.

Pride - Cena 4Apesar de ser divertido, Pride poderia arriscar mais, informar mais. Como isso não acontece, resta vê-lo e apreciá-lo como uma mensagem positiva sobre tolerância e amor ao próximo. Percebendo que os mineiros ingleses estão sofrendo nas mãos do governo tal qual os gays sofrem perante o conservadorismo da sociedade, Mark decide reunir seus amigos e criar um grupo para recolher fundos para o movimento sindical. No início, eles deparam-se com várias dificuldades, mas logo começa a ficar claro para todos que a união e a solidariedade são mais importantes do que opiniões pessoais e decisões de caráter privado. Por mais óbvio que isso possa parecer, é fundamental que esse tipo de mensagem continue a ser propagada pelo cinema para que religiosos, militares, dragões brancos de olhos azuis, você e eu não nos esqueçamos de quais valores devem ditar nossas relações com o próximo.

Pride - Cena

Anúncios

»

  1. Pingback: O Jogo da Imitação (2014) | Já viu esse?

  2. Pingback: Mandariinid (2013) | Já viu esse?

  3. Pingback: Sing Street (2016) | Já viu esse?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s