Interestelar (2014)

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InterestelarInterestelar não é baseado em um nenhum best seller, não é protagonizado por nenhum ator do tipo “queridinho do público” (vá lá, quem ligava para o Matthew McConaughey antes do último Oscar?) e nem recebeu uma campanha de marketing esmagadora digna de um blockbuster. O trailer oficial, aliás, pouco ou nada trazia de apelativo para o chamado “público ocasional” se tivermos em mente aquilo que geralmente é mostrado (explosões, cenas de ação épicas, mais explosões) nas prévias de mega produções como Os Vingadores. Mesmo assim, quando fui assistí-lo no último sábado, a sala do cinema estava lotada. De todas as explicações possíveis para esse interesse no longa, fico com a mais óbvia: com sua trilogia do Cavaleiro das Trevas, o escritor e diretor Christopher Nolan definitivamente transcendeu a bolha de obscuridade à qual a maioria dos cineastas fica relegada fora do circuito especializado e, tal qual aconteceu com diretores como Steven Spielberg e Quentin Tarantino, agora ele consegue atrair o público para o cinema valendo-se de uma suposta qualidade a priori que seu nome evoca.

Pessoalmente, fui assistir Interestelar para conferir mais um dos potenciais concorrentes ao Oscar de Melhor filme de 2015, mas também o fiz para ver o novo trabalho do diretor, já que, tal qual diz a sabedoria popular contemporânea, “no Nolan nós acreditamos”. O que vi… bem, o que vi me fez acreditar mais ainda no talento dele, mas creio, principalmente devido ao que escutei após a sessão, que nem todo mundo gostará do novo filme do “cara que fez o bátima”. Para explicar-lhes os vários “porque” que envolvem essas questões, opto por um texto em que descreverei as sucessivas impressões que fui tendo ao longo do filme, portanto será necessário revelar algumas cenas importantes da trama, ou seja, só continue lendo se tu não importar-se com SPOILERS, ok?

Interestelar - Cena 2Interestelar passa-se em um futuro onde a sociedade tal qual a conhecemos entrou em colapso devido a mudanças climáticas que, entre outras coisas, tornaram extremamente penosas atividades essenciais à vida, como o cultivo de alimentos. Seguindo a cartilha da ficção científica ambientada em cenários pós-apocalípticos, Nolan pouco ou nada nos diz sobre os eventos que levaram àquela situação, de modo que resta-nos apenas acompanhar a luta pela sobrevivência dos personagens criados por ele. O principal deles, Cooper (McConaughey), é um ex-piloto e engenheiro que transformou-se em fazendeiro para cuidar da família nesse novo mundo. Esse começo é relativamente rápido, marcado por duas cenas de ação legais (o flashback de Cooper e a perseguição do satélite indiano) e serve para vermos que McConaughey continua endiabrado (observem o domínio do cara naquela da discussão com o diretor na escola). De cara, também é possível perceber o poder da trilha composta pelo Hans Zimmer e, de modo geral, de toda a parte sonora do longa: assisti o filme na sala X D do Cinemark e a sensação naquela cena da tempestade de areia era a de que meus ouvidos explodiriam. Fantástico.

Interestelar - Cena 3Apresentados personagens e problemática, os dramas familiares ficam momentaneamente de lado para que a parte de ficção científica seja praticamente enfiada goela abaixo do espectador. Disso eu não gostei. Considerando que o filme tem aproximadamente 2h50min, é estranho pensar que tenham dedicado tão pouco tempo a uma das partes mais importantes do roteiro. Cooper e Murphy descobrem as coordenadas sugeridas pela gravidade, partem para o local indicado e… 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, POW! Lá se foi o sujeito rumo a outro planeta em uma missão da NASA. No final, vemos que parte do que inicialmente parecia simplório e demasiadamente providencial (as linhas desenhadas pela gravidade) era, na verdade, parte do desfecho engenhoso da trama, o que gera aquela sensação do tipo “ah, entendi, então era isso!” seguido de um merecido reconhecimento a genialidade do cineasta. Não consigo, no entanto, apreciar a forma que Nolan escolheu nesse início para apresentar os conceitos que dão sustentação teórica para o filme.

Interestelar - CenaPor mais que explicar física quântica não deva ser uma tarefa das mais fáceis, o diretor foi infeliz ao fazê-lo em forma de tutorial, rápida e verborrágica. Lá estavam os personagens do Michael Caine e da Anne Hathaway falando e eu, no meu canto, só conseguia lembrar do Jesse do Breaking Bad ouvindo o Walter White explicando seus planos: Yo man, science! Isso quer dizer que eu queria tudo mastigadinho? Não necessariamente. O meu ponto aqui (e o comentário estende-se a praticamente todos os outros diálogos teóricos do longa) é que, aos olhos e ouvidos de um público majoritariamente leigo no assunto, o tema não é apresentado de forma que, minimamente, nos faça ENTENDER o que está acontecendo (uma das únicas exceções é o Buraco de Minhoca mostrado com a folha e a caneta) e, talvez, mais tarde, nos desperte a vontade de procurar saber mais a respeito. Nisso, esses diálogos só não tornam-se mais enfadonhos devido a rapidez com que eles são arremessados nos nossos ouvidos e, depois de um tempo, eu condicionei o meu cérebro no “modo Jesse” e passei apenas a esperar o que viria na sequência.

Interestelar - Cena 4Se o filme torna-se um tanto quanto confuso e até mesmo monótono nesses momentos para quem não consegue acompanhar o falatório científico, a ida dos personagens para o espaço vivenciar aquilo que anteriormente era apenas teoria melhora sensivelmente as coisas. O visual do tal Gargântua, buraco negro que eles localizam próximo a Saturno, é nada menos do que sensacional. Aqui nesse momento sugerem que o fenômeno físico foi criado por entidades superiores para ajudar os humanos e é justamente essa a impressão que têm-se ao olhar para aquela massa de luz, a de que estamos vendo a manifestação de algo divino. Incrível também é o visual do primeiro planeta visitado por Cooper e seus companheiros e toda a sequência de ação que lá acontece. Por mais clichê que seja a cena de alguém correndo contra o tempo para fugir de um desastre/explosão/onda/nave alienígena gigante, a passagem é deveras tensa e empolgante.

Interestelar - Cena 7Nesse ponto do filme, entre efeitos especiais soberbos, robôs sarcásticos feitos de monta-monta, “yo man, science” e passagens de tempo que trazem para a trama atores como Jessica Chastain e Casey Affleck, comecei a pensar sobre a “mensagem” do filme. Além da qualidade técnica e dos roteiros engenhosos, o Nolan também é conhecido por suas frases de efeito (Ou se morre como herói, ou vive-se o bastante para se tornar o vilão) e tramas que exploram dilemas morais. Cooper aceita a missão que lhe é oferecida como uma forma de salvar sua família. Entre os cientistas que o acompanham e apoiam a empreitada, o discurso que prevalece é, digamos, mais nobre, visto que eles falam em sacrifício em nome da continuidade da espécie humana. O que entendi, principalmente depois do encontro deles com o personagem do Matt Damon (praticamente um easter egg do filme, visto que a participação dele não foi anunciada), é que, segundo Nolan, o que move a espécie humana, mais do que o instinto de sobrevivência e a racionalidade, é o amor, sentimento capaz de transcender tempo e espaço e sem o qual nada mais vale a pena.

Interestelar - Cena 6Interestelar termina, conforme dito anteriormente, com um daqueles desfechos engenhosos (e até mesmo didáticos, se considerarmos o restante do material) que explicam satisfatoriamente pontos que no início haviam parecido furos do roteiro. Gostei sobremaneira da “cena da biblioteca”, expansão daquilo que havia de melhor no visual do A Origem e também do encontro de Cooper com a já idosa Murphy, momento daqueles de encher os olhos de lágrimas. Levando tudo isso em consideração, digo sem titubear que Interestelar é um dos melhores e mais interessantes filmes que chegaram no cinema esse ano. Até mesmo naquilo que ele peca (os tais diálogos rápidos e excessivamente teóricos), ele nos desafia de alguma forma, e isso é bom. Aparentemente, o público que foi ver o “filme do cara que fez o bátima” não pensa da mesma forma, já que algumas pessoas foram embora durante a sessão e outras tantas saíram falando mal do longa após o término mas, tendo um pouco de paciência na parte intermediária e estando minimamente disposto a pensar o filme além do espetáculo visual (que, fora no momento que o Matt Damon tenta acoplar sua nave de brinquedo na estação espacial, é irrepreensível rs), não há dúvidas de que o Nolan produziu uma obra prima comparável ao que há de melhor dentro do gênero (2001, Gravidade) e que, portanto, podemos continuar acreditando nele e aguardando com ansiedade seus futuros lançamentos.

Interestelar - Cena 5

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  1. Eu tenho lido muitas criticas desse filme em relação aos diálogos científicos. Uns criticam porque foi mastigado demais, outros que cientistas explicando o be-a-bá da ciência um pro outro não faz sentido, outros porque ficou de difícil compreensão para mentes leigas.
    Eu fiquei sim um pouco perdido com muitas coisas faladas, só que isso não me deixou frustrado porque eu nunca tive a pretensão de entender tudo, eu só queria que continuassem “abrindo” a minha mente para o assunto. E foi isso que o filme fez.
    Eu não precisei entender tudo pra achar tudo fascinante.
    A trilha sonora do filme é magnifica e o espetáculo visual é hipnotizante.
    Naquela cena do primeiro planeta que a câmera vai dando um close naquela onda gigante, eu fiquei sem folego.
    É um filme extremamente ousado que certamente não irá agradar a todos, mas que para alguns será uma obra de arte.

    P.S: Que paizão o Matthew hein?! Vai pro futuro ver a filha velha e nem pergunta do outro filho???
    P.S²: Não sei se a Hathaway foi a melhor escolha pra esse papel não.
    P.S³: Que susto do caralho aquela cena do Matt Demônio se indo.

  2. Me permitem levantar uma questão? Seria mesmo o “buraco de minhoca” de Saturno e “Gagantua”, o buraco negro, a mesma coisa/lugar/fenômeno? Percebe-se que ao entrar no “buraco de minhoca” a nave chega no outro sistema de planetas, em local com uma presumida distancia segura do “buraco negro”, o que sugere que sejam fenômenos distintos. Mas após entrar no buraco negro, Cooper pôde acessar o próprio “buraco de minhoca”, para ter um contato com a Dra Brand (Hathaway) e acaba novamente no sistema solar, próximo à Saturno, o que me soa como o ponto de partida do “buraco de minhoca”. Me parece um pouco ambíguo. Até ler a sua avaliação eu nem tinha cogitado serem o mesmo fenômeno ou partes do mesmo fenômeno.

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