Fahrenheit 451 (1966)

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Fahrenheit 451Daqui alguns dias, os brasileiros retornarão às urnas para decidir quem governará o país durante os próximos 4 anos. Enquanto alguns aguardam a data com ansiedade para comemorarem ou lamentarem o resultado, outros simplesmente querem que o dia chegue logo para que seus amigos e conhecidos de redes sociais parem de falar de política. O assunto, dizem eles, “já deu o que tinha que dar”. Tenho minhas convicções e estou na torcida mas, mesmo que assim não fosse, eu não poderia compactuar com quem censura o fôlego alheio.

Ainda que, verdade seja dita, seja cansativo ver a mesma imagem sendo publicada várias vezes por pessoas diferentes e que, na maioria das vezes, essas imagens contenham apenas textos pequenos, jocosos e de credibilidade duvidosa, acredito que o cenário inspira esperança. Vejo que poucas pessoas se dão ao trabalho de conferirem as fontes daquilo que publicam, lerem os programas de governo dos seus candidatos ou textos que também façam críticas àqueles em quem eles tencionam votar mas, mesmo com isso tudo em mente, otimista que sou nesse sentido, acho legal ver que, ao menos, essas pessoas estão LENDO e IMPORTANDO-SE com alguma coisa. Obviamente, muitas vezes, elas fazem isso no nível mais superficial possível e, não raramente, recorrem a xingamentos infantis quando confrontadas com opiniões contrárias, porém é inegável que, mesmo nessas condições, a democracia consolida-se e a sociedade, ainda que “aos trancos e barrancos”, caminha no sentido do engrandecimento cultural.

Fahrenheit 451 - Cena 3O perigo de cercearmos a liberdade de expressão do próximo, mesmo que para evitar conflitos e sofrimento, é muitíssimo bem ilustrado no clássico Fahrenheit 451 do diretor francês François Truffaut. Baseado no livro homônimo do escritor Ray Bradbury, o filme é uma distopia (ficção ambientada em uma sociedade totalitária) que mostra um mundo onde os livros foram proibidos. Segundo aqueles que estão no poder, a leitura é uma perda de tempo: ler o que outras pessoas escreveram, além de não acrescentar nada para quem lê (já que o que foi escrito não são fatos, só opiniões), provoca ansiedade, devaneios e tristezas. Banir os livros significa, portanto, caminhar rumo à uma sociedade feliz e livre de preocupações. Para garantir que isso aconteça, o governo criou equipes de bombeiros responsáveis por investigarem, localizarem e queimarem todos os livros. Entre esses profissionais, está o eficiente Guy Montag (Oskar Werner), um sujeito que vivia satisfeito com sua vida e as escolhas que sustentavam-na até o dia em que sua vizinha, Clarisse (Julie Christie), lhe interpela com uma pergunta capciosa: “Você é feliz?”.

Fahrenheit 451 - Cena 2Apesar de não ser uma certeza científica (o grau pode mudar de acordo com condições de tempo, do material, etc), Fahrenheit 451 (ou 451 graus fahrenheit) é a temperatura dentro da escala proposta pelo físico alemão em que os livros entram em estado de combustão. Essa informação, que é apresentada em um diálogo logo no começo da trama, é deveras interessante para compreendermos algumas das ironias e propostas do filme. Chama a atenção, por exemplo, o fato dos bombeiros trabalharem queimando livros, e não combatendo incêndios tal qual acontece no mundo real. Quando penso nessa curiosa relação entre bombeiros, fogo e livros, lembro do Prometeu, semi-deus da mitologia grega que foi punido por roubar o fogo de Zeus e dá-lo aos homens. É sabido que esse fogo do mito é uma metáfora para o conhecimento, ou seja, na distopia criada por Bradbury, podemos entender que usamos o conhecimento (fogo) para destruir o próprio conhecimento (livros). Dizendo isso de outra forma, a sociedade teria optado pela uniformização dos sentimentos e saberes para excluir a “tristeza” que os livros e os questionamentos evocados por eles trazem, iniciativa que prova-se insustentável diante da sede de saber intrínseca a natureza humana.

Fahrenheit 451 - Cena 4É normal que Montag volte-se contra o sistema após ser confrontado pela pergunta de Clarisse. Além de trabalhar em um local onde todos comportam-se de forma robótica, ele é casado com Linda (também interpretada pela J. Christie), uma mulher que passa o dia todo em casa assistindo televisão, tomando pílulas e trocando os móveis de lugar. Loira, magra e dona de opiniões superficiais, a personagem é o estereótipo perfeito da futilidade, a “barbie dona de casa” que esse mundo sem livros, discussões e sofrimentos produz em série. Truffaut utiliza bem o aspecto visual para compor seus personagens: Clarisse, a antítese natural de Linda, tem o cabelo curto, usa roupas simples e mora em uma casa humilde e sem TV, mas é notável que a personagem, ao contrário da esposa de Montag, está repleta de vida, o que desperta o interesse do personagem e incentiva-o a mergulhar no mundo proibido dos livros. Vale salientar aqui que a construção desse interesse dá-se através de conversas informais e provocações sadias: Clarisse não chama Montag de “burro”, não demonstra prepotência nem desiste de argumentar quando ele demonstra resistência, recursos que, infelizmente, imperam nas discussões das redes sociais citadas no início. Discutir é melhor do que não discutir, mas elevar o nível do debate tornando-o menos passional através da busca constante por novas fontes e textos é certamente um dos próximos passos que devemos dar para crescermos enquanto país.

Fahrenheit 451 - Cena 5

Fahrenheit 451 está repleto de boas idéias e momentos marcantes. Pessoalmente, gostei muito da cena em que os bombeiros invadem a casa de uma senhora e encontram uma biblioteca inteira escondida. Enquanto vomita sua retórica contra os livros, o chefe de Montag seleciona e comenta ironicamente vários clássicos da literatura (ao falar do A Ética, do Aristóteles, ele diz algo do tipo “qualquer um que tenha lido isso deve achar que está um degrau acima de quem não leu” rs), o que é deveras divertido para os leitores dessas obras e fãs de livros em geral. Boa também é a idéia dos “homens-livro”, argumento que parece ter inspirado a história do O Livro de Eli e que encerra o filme muitíssimo bem sugerindo que a intolerância e o medo daquilo que é diferente nunca será capaz de privar-nos da nossa liberdade enquanto pudermos nos apoiar no patrimônio histórico da humanidade. Leiamos, pois, e incentivemos quem o faz: qualquer sofrimento ou discordância de opiniões que isso possa trazer é infinitamente preferível a sociedade mostrada nesse ótimo filme do Truffaut.

Fahrenheit 451 - Cena

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