Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)

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Hoje Eu Quero Voltar SozinhoFilmes nacionais, tá aí algo que o leitor não vê muito por aqui. Por que? Nem eu sei ao certo. Sempre deixei claro o meu amor pelas produções norte americanas, mas gostar do que é feito em Hollywood nunca me impediu de assistir filmes de outros países. Uma pesquisa no blog, aliás, revelará vários títulos europeus, orientais e alguns sul americanos. Qual o problema então com os longas tupiniquins? Pensei um pouco sobre o assunto e concluí o seguinte:

  • Distribuição e divulgação: É bem verdade que a internet nos libertou da condição de escravos das redes de cinema que, compreensivelmente, exibem majoritariamente blockbusters norte americanos de retorno financeiro certo. Hoje é possível conseguir praticamente QUALQUER título através de programas de Torrent, mas é inegável que o cinema ainda tem um papel importantíssimo na divulgação dos títulos. Onde moro, sou servido pelo Cinemark e pelo Cinépolis. O primeiro até conta com projetos de divulgação e valorização de filmes nacionais (dá-lhe Tainá!), mas o segundo investe apenas em comédias manjadas, o que nos leva ao segundo tópico.
  • Gênero: Comédias, comédias e mais comédias. Ingrid Guimarães, Leandro Hassum, Heloísa Périssé… todos fazendo o mesmo filme, sempre versões meia boca de produções americanas cujos originais não são exatamente aquilo que pode-se classificar como legal. Sem essa de “apoiar o cinema nacional”, eu NUNCA pagaria para ver um filme tipo Até Que a Sorte nos Separe 2 e também não perderia tempo baixando ele. Quando saem do “padrão Globo de qualidade”, as redes investem em títulos que exploram a violência e o nordeste, as outras duas pontas do famoso tripé da produção nacional. É importante salientar que dentro dessa tríade encontram-se algumas das obras primas do nosso cinema (O Auto da Compadecida, Cidade de Deus e Central do Brasil), mas a transformação do sucesso em fórmula e a consequente repetição de personagens, cenários e problemáticas tornou enfadonha a maioria dos longas que vieram na sequência.
  • Qualidade: Gosto de efeitos especiais, mas nem de longe o uso do recurso é preponderante para eu escolher o que verei. Gosto de dramas (conforme pode ser observado na lista ao lado que mostra a quantidade de títulos por gênero que já resenhei), que é um tipo de cinema que depende muito mais de um bom roteiro e do talento dos atores do que de computação gráfica. Nesse sentido, o que costumeiramente pega nas produções nacionais é novamente o tal “padrão Globo”: as falas não saem com naturalidade, fica a sensação constante e incômoda de que SIM, estamos vendo um filme com atores lendo o roteiro e não um recorte temporal da vida daquelas pessoas. Novamente, há honrosas exceções (Fernanda Montenegro, João Miguel, Wagner Moura, etc), mas elas são do tipo que, infelizmente, acabam só reforçando a regra Malhação.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho - Cena 2Creio que sejam esses os motivos que mais pesam quando vou pesquisar filmes para assistir e, na maioria das vezes, nem lembro de procurar por algum nacional. Todo caso, essa resistência a priori desfaz-se instantaneamente quando algum conhecido cuja opinião eu respeito me indica alguma produção, e foi exatamente isso que aconteceu com esse Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. O cara, sujeito gente boa antenado nos agitos da galera, sabendo do meu interesse por cinema, abordou-me com o argumento de que o longa fora escolhido como concorrente oficial do Brasil para o Oscar de 2015. A curiosidade somou-se ao respeito e, mesmo com todas as barreiras que costumeiramente imponho, cá estou eu atualizando o blog com um filme produzido em nosso país.

Leonardo (Ghuilherme Lobo) é um adolescente que leva uma vida deveras comum exceto pelo fato de que ele é cego. Dividindo o tempo entre a escola e as tardes de piscina na casa da amiga Giovana (Tess Amorim), ele tenta encontrar-se profissional e emocionalmente enquanto lida com as dificuldades que a vida lhe impôs. A chegada de um novo garoto na escola, Gabriel (Fabio Audi), mudará radicalmente os planos do personagem.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho - CenaHoje Eu Quero Voltar Sozinho é um filme escrito e dirigido pelo estreante Daniel Ribeiro. Resultado da expansão das idéias que o diretor havia usado anteriormente no curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, o longa tem aquela típica ambientação adolescente dos filmes colegiais norte americanos, o que não chega a ser propriamente um defeito (visto que os personagens principais SÃO adolescentes), mas que soa artificial devido ao uso de certos lugares comuns. O antagonista, por exemplo, o sujeito preconceituoso, arrogante e que pratica bullying, é um garoto branco, loiro e dos olhos azuis. Desculpem-me o tom pedante, mas acredito que é possível falar de minorias sem necessariamente confrontá-las com essa figura deveras batida do branco demonizado. A ida dos alunos para um acampamento e o formato das aulas e da festa que eles participam também é excessivamente americanizado, nota-se que o diretor não soube ou não quis usar nossos próprios regionalismos e cultura para provocar empatia no público, problema que, acredito, deva-se principalmente ao fato de se tratar de um trabalho de debut na direção/roteiro.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho - Cena 4Mas, mesmo com o uso de todas essas fórmulas, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho foi considerado bom o suficiente para representar o Brasil no Oscar. O motivo? Seguindo algo que parece ser uma tendência mundial, Daniel Ribeiro utiliza seu filme para falar abertamente do homossexualismo. O amor, ele sugere, realmente é “cego”, e a sua força não reside na dicotomia homem-mulher guiada para a reprodução, mas sim pelo querer bem, pelo cuidado e pelo respeito. Eu, sinceramente, não me importo com o que os outros fazem com suas vidas, logo, dentro todos os diálogos do filme, o que mais fez sentido para mim foi quando o Gabriel, explicando como funciona um eclipse, diz que o fenômeno nem “merece uma explicação”, já que, na verdade, “é tudo tão simples”. De qualquer forma, infelizmente, sei que nem todo mundo pensa assim, portanto a mensagem do diretor é tão válida e importante para essa geração assim como aquela mostrada em filmes como Adivinhe Quem Vem Para Jantar o foi para a sociedade americana no período que ficou conhecido devido a luta pela igualdade racial.

No que tange a aceitação do próximo e ao respeito das diferenças, ainda engatinhamos enquanto sociedade, mas é fato que a caminhada já começou e que esse tipo de obra pavimenta parte do caminho. Pela coragem de promover o debate de forma séria em uma mídia onde os homossexuais sempre são mostrados da forma mais estereotipada possível (vide os Crô da vida), Hoje Eu Quero Voltar Sozinho merece sua atenção e a indicação ao Oscar, não simplesmente para “apoiar o cinema nacional”, mas para combatermos a intolerância e a burrice.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho - Cena 3

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