Sin City: A Dama Fatal (2014)

Padrão

Sin City - A Dama FatalTenho vários motivos para sentir-me saudosista em relação ao Sin City: A Cidade do Pecado. Entre outras coisas, posso dizer que o assisti em uma época legal (início da faculdade; eu estava conhecendo minha esposa) e que ele foi um dos primeiros filmes que vi prestando atenção, de fato, em coisas como fotografia e diálogos. Um desses diálogos, aliás, eu nunca esqueci, e é dele que eu sempre lembro quando penso no meu interesse por histórias de violência. Sentado em um bar, Dwight (Clive Owen), olha para o brutamontes Marv (Mickey Rourke) e pensa que, na verdade, não há nada de errado no estilo monstruoso do sujeito, ele apenas “nasceu na época errada”. Marv, ele conclui, seria tratado como um herói se tivesse nascido mil anos antes em uma sociedade onde a brutalidade no campo de batalha fosse uma habilidade útil e desejável. O que entende-se daí é que valores como bem e mal não representam coisas em si, eternas, mas apenas avaliações efêmeras e circunstanciais. Atualmente, portanto, pode até não ser considerado “certo” você querer bater com um taco de baseball na cabeça de alguém que lhe xinga no trânsito, mas nem por isso tal ação é essencialmente “errada”. Na cidade criada pelo Frank Miller, por vezes, a única forma de sobreviver e manter um mínimo de dignidade é “pecar transgredindo o status quo, o que torna a violência no mínimo aceitável. Na impossibilidade de fazer o mesmo e estourar alguns miolos na vida real, extravaso alguns dos meus sentimentos mais sádicos vendo Marv pintar de sangue os cenários preto e branco de Sin City.

Sin City - A Dama Fatal - Cena 5A Dama Fatal (Cthulhu seja louvado por esse título já que, via de regra, esperei algo do tipo Sin City 2) traz de volta Marv e toda a podreira daquele universo corrompido pelos mais diversos tipo de vício, só que dessa vez em 3D. Assisti ao lado de alguns amigos e um deles, cuja opinião respeito muito, disse que a tecnologia descaracterizou a proposta inicial de reproduzir na tela a sensação do “quadrinho filmado”, visto que a profundidade sacrifica o visual “chapado” das páginas. Não dá para discordar disso, e é bem verdade que a fotografia de A Cidade do Pecado é superior, mas isso não impede que essa continuação, que também foi dirigida pela dupla Miller/Robert Rodriguez, seja uma experiência visual arrebatadora: será preciso vê-lo mais de uma vez para aproveitar todas as belas sequências de pancadaria em preto e branco criadas pelos diretores. Novidade, outras cores, como o vermelho que anteriormente fora utilizado para realçar o batom de uma personagem, estão muito mais presentes. Ainda que o contraste seja legal, fiquei com a sensação de que a opção foi infeliz, pois o que anteriormente conferia personalidade e realçava certos detalhes agora aparece meio que aleatoriamente. Não é nada que comprometa o resultado final, mas pensar que tal decisão foi tomada para aliviar a resistência do público ao preto e branco é algo que me deixa triste.

Sin City - A Dama Fatal - CenaComento o visual logo de cara porque é inegável que ele seja o grande diferencial da franquia, porém como ele não é exatamente mais uma novidade (fora A Cidade do Pecado, o chato Spirit utilizou a mesma técnica), passemos ao que realmente interessa, que são as histórias de violência e vingança contadas por Miller. A Dama Fatal funciona tanto como uma espécie de prólogo para algumas das tramas desenvolvidas no primeiro filme quanto como desfecho para alguns arcos de história. Dwight (que agora é interpretado pelo Josh Brolin) antes de enrolar a vida com o Jackie Boy no primeiro longa, precisou desvencilhar-se das curvas tentadoras da dama fatal Ava (Eva Green). Já Nancy (a saudável Jessica Alba), inconsolada com a perda de Hartigan (Bruce Willis), passa a dançar e beber freneticamente em uma boate à espera de uma oportunidade de vingar-se de seu algoz, o inescrupuloso Senador Roark (Powers Bothe). Somos ainda apresentados a Johnny (Joseph Gordon-Levitt), um jogador habilidoso que atravessará o inferno ao longo de uma noite.

Sin City - A Dama Fatal - Cena 4O conjunto desses novos contos é bom, a edição é competente e permite, tal qual no primeiro, a criação de um verdadeiro universo em que os personagens encontram-se em momentos diversos. Em algumas cenas, por exemplo, Marv é apenas mais um dos figurantes que enchem a cara enquanto Nancy dança. Em outras, ele é o protagonista que esmaga crânios contra a parede, ora para proteger a dançarina, ora para ajudar Dwight “porque ele não tem mais nada para fazer”, em sequências de selvageria pura. Gosto das quebras de ritmo que essa variedade narrativa oferece e me diverti, mas, quando faço a comparação inevitável com o que vi em A Cidade do Pecado, percebo que gostei mais do primeiro. A parte da história que é protagonizada pela Eva Green e seus seios hipnotizantes é tão boa, violenta e interessante do ponto de vista narrativo quanto aquelas do filme de 2005, mas os outros contos, principalmente a do personagem do Gordon-Levitt, não agradam tanto. Ao meu ver, o ritmo mais cadenciado dessas cenas, que não vem acompanhado de diálogos memoráveis como o do Marv citado no início, torna-as deveras comuns dentro de uma realidade construída em cima de excessos.

Sin City - A Dama Fatal - Cena 2Não há dúvidas, porém, que o saldo é positivo e que o resultado compensa o tempo e o dinheiro investidos para assistí-lo no cinema. A Dama Fatal, ainda que não tenha o mesmo impacto que o seu sucessor, é uma nova oportunidade de encarar a face suja e corrupta da sociedade tal qual ela é, sem a maquiagem da moral e as suavizações do politicamente correto. Em um mundo onde os vilões são tão caricatos, demoníacos e bem definidos quanto aqui, é deveras divertido e terapêutico ver seus braços sendo dilacerados por espadas ninjas e suas cabeças sendo pulverizadas pelos punhos gigantescos de Marv. Ele PODE fazer aquilo que nós DESEJAMOS fazer em nossos momentos de raiva, afinal de contas ele não liga a mínima para lei e os vilões que ele mata são bastardos humanos sem família, alma ou coração em cujas veias correm rios de líquido preto e branco. Assistimos o filme, saímos do cinema e voltamos para casa, entretidos e mais leves, dispostos a deixar aquele taco de baseball recém adquirido lá no canto dele, como simples objeto decorativo. Isso, é claro, até o próximo motoqueiro nos ultrapassar pela direita. Um viva para violência ficcional rs

Sin City - A Dama Fatal - Cena 3

Anúncios

»

  1. Diferente de você. eu achei a historia do Gordon Levitt a melhor do filme em si, também gostei mais do primeiro, principalmente porque eu lembro dos monólogos serem melhores e mais interessantes de se ouvir, atribuía mais personalidade aos personagens.

    Uma das coisas que me perturbou nesse filme foi o Marv, não que ele não tenha funcionado, mas talvez por que ele funcionou até bem demais. Todas as situações que foram criadas eram simplesmente resolvidas adicionando o Marv à trama no final(no caso do Dwight achei bem forçado), então ai temos o brutamontes que vai la e chuta a bunda de todo mundo e problema resolvido. Também achei que o Bruce Willis não funcionou nesse filme, teria sido melhor deixar o personagem dele de fora da historia ou apenas fazer uma pequena participação em uma cena.

    O que mais fez falta pra mim nesse filme foram personagens novos, nada de errado com os antigos, mas ficar fazendo prólogos e fechar pontas soltas com os mesmos personagens não foi o suficiente para capturar o meu interesse como quando eu conheci eles no primeiro filme.(talvez por isso eu gostei mais da historia do Gordon Levitt), mas a ação esta la, o efeito 3D é lindo e ele é uma boa diversão sangrenta e brutal. Boa critica brother.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s