Julgamento em Nuremberg (1961)

Padrão

Julgamento em NurembergA época das eleições é interessantíssima para observarmos o comportamento humano no que tange a aceitação de diferentes pontos de vista sobre um mesmo assunto. Candidatos atacam candidatos e eleitores brigam entre si mesmo que, teoricamente, todos eles tenham objetivos muito parecidos, ou seja, viverem em um país cada vez melhor. Confesso que o assunto não está entre os meus favoritos, mas mesmo assim não consigo deixar de notar o quanto as argumentações, principalmente as de populares, costumam serem superficiais e repletas de chavões. Termos como “ladrão”, “privatização”, “corrupção” e “elite” são usados inconsequentemente e sem embasamento teórico por pessoas ávidas por receberem atenção devido a sua suposta “consciência política”. O que me espanta nisso tudo, e por vezes até mesmo me irrita, é a insistência dos ignorantes em resumir questões complexas como  a administração política de um país em simplificações do tipo “bem x mal”, em rotular certos candidatos ou correntes político-filosóficas simploriamente para tornar a decisão do voto mais fácil ou seus comentários mais polêmicos.

A tendência, um observador alheio as peripécias humanas poderia pensar, é de que temas do passado que já foram discutidos exaustivamente por estudiosos recebessem comentários menos equivocados. O raciocínio desse observador ideal seria o de que a distância temporal que nos separa desses assuntos, tão contrária aos embates imediatistas, calorosos e emocionais das eleições, deveria permitir-nos avaliá-los mais sabiamente. Isso acontece? Claro que não. Essa semana, inclusive, em uma entrevista com um dos presidenciáveis, um sujeito conhecido exatamente por suas declarações “polêmicas” demonstrou uma opinião infantilóide sobre o socialismo. Vejam só, um cara bastante influente, que está no comando de um programa de alcance nacional, precisa apelar para a retórica “comunista comedor de criancinha” para desqualificar uma candidata filiada a um partido de esquerda. Mesmo com todas as críticas monumentais que as tentativas de aplicação da doutrina marxista merecem, ele optou por esse caminho bobo. Para a minha surpresa, a tal candidata quebrou o protocolo e mandou o apresentador “estudar”, o que foi um bom conselho, mas a grande verdade é que não só ele, mas sim todos nós, precisamos nos informar melhor para que o senso comum pare de imperar no nosso olhar para o passado e, principalmente, para as questões latentes do presente.

Julgamento em Nuremberg - Cena 5Uma boa forma de inteirar-se sobre as diferentes abordagens que um mesmo tema pode receber e evitar opiniões batidas é assistir esse excelente Julgamento em Nuremberg, filme que realiza a espinhosa tarefa de apresentar um ponto de vista inconvencional sobre aquele que é o assunto tabu por excelência no cinema hollywoodiano: o nazismo. Em 1948, 3 anos portanto após o fim da Segunda Guerra Mundial, uma corte presidida pelo juiz norte-americano Dan Haywood (Spencer Tracy) foi instaurada na cidade alemã de Nuremberg para julgar crimes de guerra. No banco dos réus, curiosamente, estavam sentados 4 alemães que trabalharam como juízes durante o governo nazista, entre eles Ernst Janning (Burt Lancaster), ex-Ministro da Defesa de Hitler. O promotor (Richard Widmark) acusa-os de conduzir processos de esterilização e limpeza social. O advogado de defesa (Maximilian Schell) alega que eles agiram segundo as leis que estavam em vigor no país e que condená-los, portanto, significaria condenar todo o povo alemão.

O diretor Stanley Kramer, ao que me parece, gostava de colocar o dedo em algumas feridas da sociedade. Conheci o trabalho dele no Adivinhe Quem Vem Para Jantar, filme que expõe a face hipócrita do discurso liberal americano de aceitação das diferenças raciais. Hoje vários longas retomam essa discussão (sempre lembro do Crash), mas abordar o tema em 1967, quando os conflitos entre brancos e negros não raramente chegavam as vias de fato, foi uma atitude transgressora. Com semelhante audácia, Kramer concebeu também na década de 60 um dos poucos filmes que tiveram a ousadia de discutir o Nacional Socialismo alemão além da tradicional demonização que a indústria hollywoodiana, conhecidamente comandada por judeus, costuma apresentar.

Julgamento em Nuremberg - Cena 2Em Julgamento em Nuremberg, somos bombardeados durante aproximadamente 3 horas com argumentos pró e contra as decisões tomadas pelo judiciário alemão durante a guerra. Ainda que o peso da história inevitavelmente nos faça começar o filme do lado do promotor (o qual tem seu melhor momento quando exibe um vídeo desolador feito em um campo de concentração), é deveras impossível ficar indiferente a argumentação do advogado de defesa interpretado pelo Maximilian Schell. O ator, que ganhou o Oscar pela interpretação (o filme ainda recebeu a estatueta de Melhor Roteiro Adaptado), dispara argumentos selvagens contra a plateia e os membros do júri, chamando a atenção para o fato de que o Nazismo havia salvado o país da pobreza e da estagnação econômica e que culpar os réus por servirem à pátria seria incoerente. Dono de uma oratória incrível, ele derruba todos os argumentos do promotor e reverte todos os depoimentos das testemunhas convocadas pelo mesmo. É então que o imponente Ernest Janning (o ex-ministro), que até então permanecera calado, pede para fazer uma declaração que muda completamente os rumos da batalha judicial.

Julgamento em Nuremberg - CenaHoje em dia, chamar alguém de “Hitler” ou de “nazista” virou moda. Basta que alguém apresente alguma opinião extrema, relacionada ou não com preconceitos raciais e sociais, que o “xingamento” aparece, o que não está de todo errado: esse é o legado que a história dos vencedores da última Guerra Mundial nos deixou. Quando queremos, no entanto, ir além dessas demonstrações de repulsa juvenis, é bom que nos inteiremos daquilo que estamos falando. De fato, apesar de todos os pesares, Hitler conduziu algumas importantes mudanças que levaram ao fortalecimento da Alemanha enquanto estado. Como um personagem fala durante o longa, ele olhou metaforicamente para os alemães e disse “Ergam suas cabeças!” após o fiasco da Primeira Guerra e a recessão que seguiu-se. Condenar por condenar a nação alemã e julgar todos aqueles que não opuseram-se ao governo, crucificá-los por terem “permitido” a existência do Holocausto é tão leviano quanto postar em uma rede social reclamando da corrupção mas não fazer NADA além disso, é a indignação pela indignação, a mediocridade em sua forma mais pura.

Julgamento em Nuremberg - Cena 3Julgamento em Nuremberg nos estimula a rever alguns conceitos que tratamos como verdades absolutas sobre o Nazismo mas, mais do que isso, ele nos convida a ver além do óbvio. Não consideramos dar uma chance para aqueles juízes que condenaram várias pessoas à esterilização apenas devido aos melindres jurídicos utilizados pelo advogado, mas também porque a argumentação de todo o filme, que revela que questões daquele porte envolvem não somente a idéia de certo e errado, mas também interesses políticos e econômicos, caminham no sentido de nos mostrar a complexidade da essência humana e dos motivos que movem nossas ações. Kramer não deixa de assinalar sua opinião e atribuir responsabilidades (o que acontece na grandiosa cena que encerra o longa, a leitura da sentença de cerca de 10min feita pelo ótimo Spencer Tracy), mas é a razão, e não a impulsividade, ódio ou simples desejo de vingança que guiam a mão da justiça. Assim como o Arquitetura da Destruição e o 12 Homens e uma Sentença, Julgamento em Nuremberg é um filme excelente para nos ajudar a praticar a destruição de preconceitos, primeiro passo para que possamos formular opiniões mais embasadas, justas e condizentes com a complexa realidade em que vivemos.

Julgamento em Nuremberg - Cena 4

Anúncios

»

  1. Vou procurar o filme. O tema é muito interessante. Sobre o Julgamento, é importante também o filme “Hannah Arendt”, de Margarethe Von Trotta. Como você diz, abandonados os preconceitos, qual a análise fria das ações dos nazistas? Nada se resume a “bem x mal” no fim das contas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s