Carrie, a Estranha (2013)

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Carrie 2013Carrie, Carrie! Maybe will meet again… Essa música, balada mela cueca do Europe que embalou corações na década de 80, hoje, na época dos remakes, soa como uma espécie de prenúncio para um cântico de conjuração demoníaco. Voltaremos, depois dessa terceira versão, a rever Carrie White? Creiamos em Deus, se não por fé, por medo, para que ele nos prive desse reencontro. Não li o livro do Stephen King e tenho lembranças vagas do filme do De Palma, mas, com base no que é visto aqui nessa releitura da diretora Kimberly Peirce, há motivos suficientes para que não queiramos rever nossa estranhíssima amiga tão nunca mais.

Para quem não está familiarizado com a trama, Carrie (Chloe Grace Moretz) é uma adolescente tímida que estuda em uma escola repleta de idiotas. Até aí, nenhuma novidade. O que, de fato, torna a história da moçoila interessante é a relação problemática que ela tem com a mãe. Margareth White (Julianne Moore) é uma dessas velhas obcecadas por religião que vivem sob a paranoia constante da tentação demoníaca. Um gato preto passeia no quintal? Manifestação do demo. Um passarinho canta uma bela melodia? Satanás está chegando. Criada nesse ambiente carregado pelo discurso censurador da mãe, Carrie torna-se uma garota taciturna e medrosa, um brinquedo nas mãos maldosas dos alunos do colégio.

Falar de continuações, quase que obrigatoriamente, implica em comparar o filme novo com o original. Antes de prosseguir com o texto, devo dizer que tentei ao máximo escapar desse lugar comum da crítica cinematográfica. Quando sentei para ver esse remake, procurei avaliá-lo somente por aquilo que ele é, ou seja, um filme que conta uma história de terror. Ser bom ou ruim, portanto, dependeria apenas do que fosse apresentando, e não daquilo que a diretora fez diferente, melhor ou pior do que o De Palma.

Carrie 2013 - CenaCarrie, a Estranha começa deveras bem com uma cena agoniante em que a Julianne Moore, sempre com aquela cara de doida de pedra, dá à luz a Carrie. Deitada em uma cama encharcada de sangue, a atriz grita, berra e reza enquanto conduz o próprio parto. Quando a criança finalmente nasce, o impensável acontece: Margareth, de posse de uma tesoura, decide matar a filha, ação que ela só não leva adiante devido a algo um tanto quanto sobrenatural que a criança traz nos olhos. É um início sombrio e promissor, uma daquelas cenas que nos deixam curiosos para saber o que acontecerá na sequência.

Créditos, pulo temporal e lá está Carrie, já adolescente, prestes a viver um dos episódios mais traumáticos de sua vida. A cena da menstruação no banheiro feminino, sem dúvidas uma das mais marcantes da trama, serve para atualizar alguns pontos da história. Agora, de posse de modernos celulares, as garotas da escola filmam o momento de desespero de Carrie e publicam-no na internet. Aqui as coisas começam a desandar. Repetindo: não li o livro do King, mas é MUITO artificial todo aquele ódio gratuito que as meninas despejam na personagem. Ok, bullying existe e há toda uma tradição no cinema de retratar os jovens americanos de forma agressiva e mesquinha, mas nem tendo isso em mente dá para engolir aquele comportamento. Dá-se um voto de confiança em nome da fluidez narrativa, aprecia-se as garotas más que precisam serem punidas em traje de banho e continuamos rumo ao A-G-U-A-R-D-A-D-Í-S-S-I-M-O baile de formatura.

Carrie 2013 - Cena 3Assim como não há explicação para o ataque, também não o há para os “poderes” que Carrie começa a desenvolver. Supomos, devido as poucas informações que o filme nos dá, que eles sejam habilidades tele cinéticas, mas o tema religioso da trama sugere que há algo mais sinistro em jogo. As preces de Margareth teriam pegado o elevador errado e garantido-lhe uma cria infernal? Deus, em toda a sua sabedoria e onipresença, teria dado poderes a garota para que ela pudesse proteger-se da maldade disfarçada de fé da mãe? As possibilidades são muitas, mas opta-se por deixar a resposta subentendida para aumentar o clima de mistério, o que não é de todo ruim.

Chega então o tal baile e, com ele, um problema com o qual eu não consigo ser tão compreensivo. Não há explicações para a idiotice das meninas da escola e os poderes da protagonista veem de fontes obscuras? Ok, isso é aceitável, mas nada justifica a mudança de comportamento de Carrie após a nova humilhação que ela sofre na festa. Tudo bem, ela já vinha acumulando uma grande dose de stress desde o começo da projeção e alguns dos presentes na celebração realmente mereciam ter suas almas encaminhadas para o cramunhão, mas a reação dela soa desproporcional, falsa. Carrie já havia demonstrado em mais de uma cena sua capacidade de ser racional frente as adversidades, como quando ela argumenta com a mãe sobre o baile, portanto é difícil engolir que ela utilize tão poucos critérios na hora da vingança, matando inadvertidamente todos a seu redor, inclusive aqueles que haviam dado-lhe apoio. Diante disso, só me resta acreditar que:

Carrie 2013 - Cena 4

  • o Stephen King desenvolveu mal sua personagem;
  • a diretora Kimberly Peirce teve dificuldades para trabalhar o material que lhe foi dado.

Tendencioso ou não, fico com essa segunda opção. Lembro que, no meu texto sobre o filme de 1976, eu disse que ele me pregou um dos maiores sustos que eu tomei na vida. Provavelmente eu estava exagerando, mas é fato que a cena final me fez pular no sofá. Essa nova versão de Carrie, além de não ter me dado nenhum susto, tem um final ruim, um início que promete um clima tenso que não chega a realizar-se e uma atuação medíocre da Chloe Grace Moretz, ou seja, ele é ruim porque é ruim mesmo, e não porque o original é um dos grandes clássicos do gênero. Carrie, descanse em paz, menina, espero de verdade que this might be our last goodbye….

Carrie 2013 - Cena 2

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