Kick-Ass 2 (2013)

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Kick-Ass 2Para quem ignorava o trabalho do autor de quadrinhos Mark Millar e, portanto, não sabia o que esperar da adaptação de uma de suas obras, Kick-Ass foi uma ótima surpresa. Partindo da premissa de que qualquer um pode ser um super-herói, o longa conquistou um público amplo por conseguir combinar seu conteúdo nerd e ambientação tipicamente colegiais com a violência e as piadas irônicas das produções voltadas para os adultos. Contando ainda com a Hit-Girl (Chloe Grace Moretz), uma daquelas personagens fetiche saídas diretamente de um anime bizarro qualquer, o filme do diretor Matthew Vaughn (X-Men – Primeira Classe) tornou-se uma das minhas referências pessoais de “filmes de ação com conteúdo”: se, por um lado, tínhamos capangas tendo seus corpos dilacerados em cenas de violência explícitas, do outro, tínhamos um roteiro alinhado com a cultura pop que resgatava parte do ótimo argumento desenvolvido pelo Alan Moore no Watchmen.

Visto que o filme terminava com o vilão Red Mist (Christopher Mintz-Plasse) atirando ameaçadoramente contra o espectador e, considerando a lógica do cinema atual (produções rentáveis sempre ganham continuações), presumiu-se que a vindoura sequência não tardaria à chegar. Presumiu-se certo, mas os fãs não tem absolutamente nenhum motivo para comemorar.

Dirigido e adaptado do trabalho do Millar pelo desconhecido Jeff Wadlow, sujeito que não possui uma única produção relevante sequer em sua filmografia, Kick-Ass 2 distancia-se alguns anos dos eventos mostrados no primeiro filme para mostrar como eles influenciaram as vidas dos personagens. Dave Lizewski (Aaron Taylor-Johnson) abandonou seu disfarce de Kick-Ass e agora vive como um adolescente normal, dividindo o tempo entre namoro, amigos e estudos, porém percebe-se que ele sente falta do propósito que as aventuras com o uniforme traziam para sua vida. Mindy continua atuando como Hit-Girl, mas a morte do pai e a vida no colégio fazem-na questionar-se sobre a possibilidade de experimentar a rotina de uma garota normal. Chris D’Amico, ex-Red Mist, acaba matando acidentalmente a própria mãe e então decide utilizar toda a fortuna herdada para finalmente vingar-se de Kick-Ass. Sob o sugestível nome de Filho da Puta, ele começa a recrutar outros vilões para ajudá-lo a eliminar o herói.

Kick-Ass 2Kick-Ass apoiava-se em várias piadas, a maioria relacionadas a interpretação incrivelmente retardada (e boa) do Nicolas Cage, mas é fato que melhor ali era a pancadaria. Cenas como a primeira intervenção da Hit-Girl e o tiroteio a la Matrix/Robocop do final transformaram-se na “marca”, por assim dizer, do filme. Não são todos os dias que vemos uma criança vestida de super-herói estraçalhando bandidos na tela. Eu dava como certo, portanto, que a personagem e sua insanidade infantil ganhassem destaque na sequência e não me enganei totalmente,mas isso não quer dizer que eu recebi o que eu gostaria. Mindy aparece muito, mas ela cresceu e migrou para o grupo adolescente/cômico da trama, ou seja, agora ela passa muito mais tempo envolvida em conflitos colegiais do que utilizando as armas que o saudoso Big Daddy ensinou-lhe a usar. Como era de se esperar, próximo ao final ela recobra a consciência e lembra o quanto decepar membros alheios é melhor do que assistir clipes do One Direction, porém a sensação que fica é a de que a personagem não rendeu o que poderia, sendo a sua participação no primeiro filme infinitamente superior as cenas vergonhosas que submeteram-na aqui, como aquela da caganeira no refeitório. Aliás, que nojo daquela cena!

Kick-Asss 2 - Cena 2Não aproveitando a personagem, trunfo que o Vaughn utilizou tão bem, resta a Wadlow preencher o filme com novos heróis, vilões e subtramas inúteis. Acredito que, nesse sentido, não há dúvidas que a maior decepção seja o Jim Carrey. O ator, que solicitou formalmente que seu nome fosse desvinculado da promoção do longa devido a seu posicionamento político contra armas de fogo, aparece pouco e está distante de seus melhores dias: o tal Coronel Estrelas é o tédio personificado com suas piadas sem graça (Tem um cachorro nas suas bolas!) e discurso politicamente correto. Do lado dos vilões, salva-se apenas a bizarríssima Mãe Rússia, uma mulher marombada de 2 metros de altura que reabilita a Hit-Girl no filme após bater em 90% do elenco masculino.

Sobre as subtramas, que classifiquei como “inúteis” no último parágrafo, algumas pessoas poderiam até dizer que elas servem para desenvolver os personagens, o que não deixa de ser verdade. Em Kick-Ass, por exemplo, a luta de Dave para conquistar o coração de seu par romântico é bem divertida. O problema é que Wadlow não conseguiu imprimir nem profundidade nem humor nos arcos de história que ele tenta desenvolver. Pessoalmente, só senti tédio nos momentos em que Mindy tentava transformar-se em uma dondoca (e não é estranho que ela não tenha estendido sua vingança ao rapaz que convidou-a para sair?) e quando Dave briga com o pai.

Kick-Asss 2 - Cena 4Focando mais no humor do que nas cenas de ação, Kick-Ass 2 acaba deixando seus dois heróis de lado para explorar o vilão. Não que o tal Filho da Puta seja engraçadíssimo, mas é correto dizer que ele foi o único personagem que melhorou de um filme para o outro. Li por aí que a adaptação mequetrefe privou-o de várias cenas polêmicas, no entanto, ao contrário do que acontece com a Hit-Girl, ele funcionou muitíssimo bem sem elas devido a inclinação do ator para a comédia (o Christopher iniciou sua carreira cinematográfica no divertido Superbad).

Kick-Ass 2 é decepcionante tanto por não conseguir repetir o que deu certo em seu antecessor quanto por falhar miseravelmente nos novos caminhos (menos ação, mais humor) que o diretor tentou imprimir à adaptação. Após os créditos, há uma cena que sugere que um terceiro filme pode estar a caminho. Sinceramente, não sei se isso pode ser bom ou ruim mas, depois do que eu vi aqui, confesso que a única coisa que senti vendo a tal cena foi desânimo.

Film Title: Kick-Ass 2

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