I’m a Cyborg, But That’s Ok (2006)

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I'm a Cyborg But Thats OkConheci muitos sujeitos singulares durante a minha primeira graduação. Localizado entre os prédios dos cursos de Artes, Música e Filosofia, o bloco de História da UFU funcionava como uma espécie de ponto de encontro para a galera das ciências humanas da faculdade e, não raramente, aparecia por lá alguma peça rara. Nisso, já vi uma moça cantar ópera no meio de um corredor lotado, conversei com um cara que revelou o desejo de criar porcos no quintal de casa (um experimento anarquista – ele explicou) e presenciei um cidadão realizando uma performance artística bizarríssima na qual, apoiado em apenas uma das pernas, ele movimentava as mãos aleatoriamente no ar enquanto entoava uma espécie de mantra. “Loucão do Bloco H”, eis o apelido que deram para o cara depois do mini-show.

Recordo-me agora desse episódio porque ultimamente tenho nutrido um certo interesse pelo tema da loucura. Não tenho como precisar se o sujeito era, de fato, doido ou não, mas é notório que ele, minimamente, não comportava-se “normalmente”. Pergunto-me, então: Por que? Quais experiências de vida foram necessárias para que aquela pessoa estivesse lá, naquele lugar, tal qual ela estava, comportando-se daquela maneira? Ainda que os movimentos exóticos do “loucão” tenham motivado risadas sinceras de estranhamento, não posso deixar de pensar também sobre a triste história por trás daquele desligamento da realidade. I’m a Cyborg, But That’s Ok, filme do famosos diretor coreano Chan-wook Park, mistura bem o humor e a tristeza inerentes ao comportamento de pessoas mentalmente perturbadas e explora os misteriosos caminhos da insanidade para apontar uma de suas possíveis causas.

Im a Cyborg, But Thats Ok - Cena 3Young-goon (Su-jeong Lim) surtou no trabalho. Enquanto suas colegas de serviço esforçavam-se para montar aparelhos de rádio, ela cortou o próprio pulso, introduziu alguns fios e conectou-os na tomada. O motivo? Ela, assim como todo cyborg, precisa de energia elétrica para funcionar. Espera aí, cyborg? Sim, amigos, Young-goon acredita ser um robô e, por esse motivo, a mãe manda interná-la em uma clínica psiquiátrica. Lá, ela conhece outros sujeitos tão ou mais “criativos” do que ela e inicia uma espécie de romance com Park Il-sun (Rain), um rapaz que acredita possuir o poder de roubar a personalidade e os talentos dos outros.

Na estrutura narrativa, I’m a Cyborg, But That’s Ok lembra muito aquele que talvez seja o clássico dos clássicos dos filmes sobre loucos. Tal qual acontece no Um Estranho no Ninho, esse longa do Park é ambientado em uma psiquiatria repleta de personagens engraçadões. Logo no começo, por exemplo, Young-goon é conduzida pelos corredores do local por uma mulher que vai apresentando-lhe os outros pacientes. Um deles, ela diz, está ali por ter apaixonado-se por um bezerro chamado Jenny. Entre outras coisas, o homem e o animal ouviam rádio juntos. A situação, que por si só já era bizarra, fica ainda melhor pior quando, na sequência, uma enfermeira aparece e separa Young-goon da mulher, que na verdade também era paciente do local e estava internada devido a um histórico de contar mentiras cabeludas. Convenhamos, ela pode até ser louca, mas ninguém poderá dizer que ela não é criativa. Jenny!! rs

Im a Cyborg, But Thats Ok - Cena 2Ao contrário, porém, do que acontece com o personagem do Jack Nicholson em Um Estranho no Ninho, aqui não há menor dúvida sobre o estado da saúde mental da moça. A trama é conduzida por Park de forma a ir revelando aos poucos os motivos que levaram a personagem a acreditar que ela é um cyborg e caminha para uma história sobre vingança, temática comum nos filmes do diretor. Young-goon começou a tornar-se aquilo que ela é após um trauma de infância envolvendo a avó e, devido a desdobramentos desse episódio, ela desenvolveu um ódio mortal contra enfermeiros. O único motivo que a impede de investir contra eles é a compaixão. Auxiliada então por Park Il-sun, que rouba-lhe a compaixão com suas “habilidades”, a pers0nagem fica livre para saciar sua vontade de sangue. É aí que…

Im a Cyborg, But Thats Ok - Cena 4…risadas amigos, muitas risadas. Por mais que Young-goon tenha uma história deveras sofrida e que seja triste ver o que fazem com a avó dela, não dá para deixar de rir da forma como ela “se vinga”. Naquela que é sem dúvidas a melhor cena do filme, a personagem promove um verdadeiro massacre atirando nos enfermeiros da psiquiatria com armas que estavam embutidas em suas mãos de cyborg. Acontece, porém, que ela não é um cyborg, ou seja, a cena só acontece na mente dela. É muito engraçado ver a atriz movimentando os braços fingindo estar atirando enquanto nada acontece. Aliás, será que era isso que o “Loucão do Bloco H” também estava fazendo? Ele estava tentando matar todos nós? Por Belza!

I’m a Cyborg, But That’s Ok, tal qual outro filme do diretor, o Zona de Risco, começa acelerado, com muita informação em um espaço de tempo muito curto e isso pode confundir. Não tenho vergonha de admitir que tive que voltar o início para compreender a historinha sobre os ratos (outra sacada hilária do roteiro). Todo caso, quando os personagens já estão na psiquiatria, os diálogos e a história passam a fluir perfeitamente e o estilo refinado do diretor fica novamente em evidência. Reparem na beleza que o cara consegue imprimir em cenas tão díspares como a do tiroteio e a aquela toda romântica do final. Resumindo, aqui dá para rir, repensar a vida e curtir um bom tiroteio, pacote completo. Gostei e recomendo.

Im a Cyborg, But Thats Ok - Cena

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