Como Treinar o Seu Dragão 2 (2014)

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Como Treinar o Seu Dragão 2Lembro perfeitamente do comentário que escrevi sobre o Como Treinar o Seu Dragão e das críticas que eu recebi ao fazê-lo. Chamaram-me de afrescalhado, acusaram-me de exagerado, disseram que eu estava redondamente equivocado. Tudo isso porque, vejam só, eu abri o meu coração e afirmei que o filme era de longe a melhor animação que eu havia visto até então. Não satisfeito, ainda declarei que o Banguela, dragão que protagonizava a história ao lado do menino Soluço, era o supra sumo da fofice de todos os tempos, um verdadeiro très mimi de graciosidade e empatia ímpares perante o qual o único sentimento possível era o amor incondicional e absoluto. Passaram-se 4 anos desde aquele dia de êxtase cinematográfico e muita coisa mudou: casei, comprei uma casa e adotei um gato. O sentimento de satisfação, a nostalgia e a vontade de transcender a realidade e ir morar na longínqua e ficcional cidade viking de Berk, no entanto, não mudaram: Como Treinar o Seu Dragão (que eu revi 2 vezes na última semana) é sim um clássico da animação contemporânea e elevá-lo ao topo do gênero naquela oportunidade foi muito mais um sinal de bom senso desse que vos fala do que de exagero ou de afrescalhamento.

Sondado para conduzir a sequência desse sucesso, o diretor Dean DeBlois, que já havia dirigido o primeiro, impôs uma condição: o segundo filme deveria levar ainda à um terceiro, de modo que a história, tal qual a maioria das grandes franquias que conhecemos e adoramos, rendesse uma trilogia em que o protagonista, Soluço, pudesse, por assim dizer, nascer, amadurecer e encontrar o seu lugar no mundo. Para tanto, ele prometeu buscar inspiração na primeira trilogia do Star Wars e emular elementos do O Império Contra Ataca, que é inegavelmente o ponto alto da franquia idealizada pelo George Lucas. Antes de anunciar minhas impressões, despeço-me da vida adulta, dos céticos, empacoto o essencial e parto rumo a Berk: não há como assistir e escrever sobre Como Treinar o Seu Dragão 2 sem uma grande dose de passionalidade.

Como Treinar o Seu Dragão 2 - CenaE o filme começa com tudo, com uma daquelas sequências de ação feitas sob medida para fisgar a atenção e a própria alma até mesmo do espectador mais descrente. Enquanto Astrid e seus companheiros divertem-se em Berg jogando uma espécie de quadribol em que vassouras e bolas são substituídas por dragões e ovelhas, Soluço e Banguela desbravam terras e céus distantes. Montado em seu ágil e destemido amigo, o garoto, que transformou-se em um verdadeiro cavaleiro dos ares, localiza e mapeia locais desconhecidos enquanto tenta descobrir novas espécies de dragão. A cena, belíssima e empolgante devido a movimentação rápida e precisa da câmera que persegue os dois enquanto eles realizam manobras insanas, culmina no evento que ditará os rumos da trama: Soluço encontra um iceberg e, nele, um caçador de dragões e seu grupo de piratas. O desentendimento inevitável entre os personagens é apenas o prenúncio de uma guerra muito maior pelo controle das criaturas aladas.

Como Treinar o Seu Dragão 2 - Cena 4Além do apaixonante Banguela, o Como Treinar o Seu Dragão ainda trazia como atrativo uma visão assumidamente nerd da coisa toda. Quem alguma vez jogou RPG na vida seguramente vibrou quando, na cena do treinamento, o gordinho começou a citar os valores de atributos como força, defesa e velocidade dos dragões. O que DeBlois faz nessa sequência, para nossa alegria, é pegar essa proposta de nicho, expandi-la e jogá-la dentro daquela que é a maior franquia nerd de todos os tempos. De fato, Como Treinar o Seu Dragão 2 é MUITO parecido com O Império Contra Ataca e, para quem não conhece  o filme do Lucas, mate-se segue uma lista das principais semelhanças que identifiquei entre os dois:

  • Tão logo encontra os piratas, Soluço saca uma espécie de espada de fogo que ele construiu com o gás de um dos dragões. O acionamento e o visual da mesma remetem imediatamente ao Sabre de Luz.
  • O tal “caçador de dragões”, Eret, é um mercenário galanteador que ora está do lado dos personagens, ora está correndo atrás de seus próprios objetivos. No começo do filme, ele ainda está em dívida com um sujeito que ameaça-o de morte caso ele não pague. É ou não é a própria descrição do Han Solo?
  • No filme, Soluço e o povo de Berk disputam o controle e a influência sobre os dragões com Drago, um novo inimigo que surge comandando um “alpha”, dragão ancestral negro. Como, em um outro momento, os personagens lutam ao lado de um “alpha” branco, fica clara a intenção do roteiro de opor bem e mal com o auxílio das cores, mesmo raciocínio utilizado para separar os Jedi e Sith.
  • Soluço encontra um misterioso mascarado que lhe fará uma importante revelação familiar. “Luke, I’m your father”, alguém?
  • Banguela é convencido/induzido a trocar de lado na luta pelo “alpha” malzão no melhor estilo “Luke, come to the dark side”.

Como Treinar o Seu Dragão 2 - Cena 2A lista para por aqui para que o texto possa prosseguir mas as semelhanças poderiam render, pelo menos, mais uns 4 ou 5 itens (Soluço, assim como Luke, também perde uma parte do corpo, etc). Tendo declarado abertamente a intenção de basear-se no Star Wars, DeBlois evitou que lhe acusassem de plágio e deu ao filme esse divertido aspecto de compilação da cultura pop/nerd. Isso, é claro, se tu conhecer os trabalhos nos quais ele buscou referência. Se não for o caso, o que tu verá é uma animação muitíssimo bem balanceada, que abre e termina com cenas de ação irrepreensíveis e desenvolve-se em cima de boas piadas, do carisma do Banguela (ele feliz com as novas escamas é algo indescritível) e, acreditem ou não, de um evento tão ou mais traumatizante do que a morte do Mufasa no O Rei Leão. Devo admitir que não chorei de vergonha. Aliás, mentira, chorei um pouquinho sim rs

Por mais que seja difícil (e até mesmo desnecessário) dizer que um filme é “o melhor” dentro do gênero que ele pertence, dá muita vontade de colocar Como Treinar o Seu Dragão 2 nessa posição após assistí-lo. Saí do cinema muito empolgado e disposto a fazê-lo. Se for para pensarmos um pouco, lembrarmos do Akira e abrirmos mão desse tipo de comentário, podemos ao menos dizer que ele É SIM melhor do que seu predecessor e, levando em consideração o que foi falado no primeiro parágrafo, o leitor deve entender isso como um tremendo elogio.

Como Treinar o Seu Dragão 2 - Cena 5CENA PÓS-RESENHA: Preparados para ler algo bizarro? Para mim, o Banguela é uma espécie de gato-moto ultra cool. Pronto, falei rs No final das contas, a razão nos obriga a dizer que ele é “apenas” um dragão simpático que perdeu parte da cauda, mas, como dragões não existem, eu me permito viver esse tipo de fantasia quando olho para a tela. Muitos argumentarão que a personalidade dele está mais para a de um cachorro e que, pelo fato de ele voar, a comparação com um avião é mais correta. O que podemos concluir dessas impressões nonsense sobre o personagem é que DeBlois e sua equipe foram extremamente felizes ao criarem o bichinho que, além de carregar em si traços da personalidade de alguns de nossos animais de estimação favoritos, ainda serve de “veículo” para que seu dono voe pelos belíssimos cenários criados para a animação. Volte a ser criança por um momento. Contemple a possibilidade de você montar no seu gato/cachorro, “passar marcha” nele (rs) e sair voando por aí. Convenhamos: não dá para ser triste em um mundo onde isso é possível.

Como Treinar o Seu Dragão 2 - Cena 3

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  1. Tenho acompanhado suas resenhas e não tenho palavras senão parabenizá-lo pelo texto. Como Treinar Seu Dragão já me rendeu incríveis horas em frente às telonas e às telinhas (comprei o jogo e mesmo com seus defeitos naturais me deixam muito feliz por me remeter ao universo de Berk). É um dos meus filmes favoritos e me impressiona o pouco caso que algumas pessoas fazem dele. Triste. Mas, fico extremamente contente por não ser o único a reconhecer a beleza desta série – seja ela baseada em outras tantas que nós emocionam até hoje. CTSD tem carisma próprio. Tem vida própria. E que o próximo nos encha o coração de alegria. E que nunca tenhamos vergonha de nos emocionar com o que é bom. 🙂

    • “E que nunca tenhamos vergonha de nos emocionar com o que é bom”. É por aí mesmo, Marcos. Obrigado pelos elogios e saiba que eu também fico muito feliz por saber que esse filme tem mais admiradores. Abraço.

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