Cimarron (1931)

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CimarronHá algumas curiosidades sobre Cimarron, terceiro vencedor do Oscar de Melhor Filme, que merecem serem citadas antes de falarmos sobre ele. Além de ser o primeiro western a conquistar o prêmio principal da Academia, ele também foi o primeiro filme a concorrer em todas as principais categorias, levando 3 estatuetas na ocasião (Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Direção de Arte). É estranho notar, porém, que tal consagração contrasta significativamente com a recepção que o longa teve junto ao público, tanto na época de seu lançamento quanto na avaliação final que o tempo lhe garantiu em sites especializados. Se a baixa arrecadação na bilheteria pode e deve ser relacionada com os perrengues econômicos da Grande Depressão que coincidiram com  a data de sua estréia, não podemos dizer o mesmo da baixíssima nota 6 que o filme sustenta no IMDB, a menor dentre todos os vencedores do Oscar naquele site. Quais os motivos levaram o público a rejeitar uma produção tão premiada? Abaixo, apresento-lhes algumas suposições e, claro, a minha própria opinião sobre o filme, o qual, aliás, eu não achei tão ruim assim.

Em um dos vários episódios que compuseram a Marcha para o Oeste norte-americana, o governo “liberou” para colonização as terras que hoje compõe o estado de Oklahoma. Na ocasião, o editor e aventureiro Yancey Cravat (Richard Dix) avançou para os limites da fronteira desejoso de conseguir um território para chamar de seu. Enganado durante a marcação dos terrennos pela oportunista Dixie Lee (Estelle Taylor), ele volta para o seio de sua família sem sequer um único hectare de terra. Disposto a não desistir, Yancey, junto com sua esposa Sabra (Irene Dunne) e Cima, seu filho recém nascido, muda-se para a nova cidade de Osage, abre um Jornal e, dia após dia, cresce em popularidade e fortuna enquanto aguarda outra oportunidade de participar da corrida expansionista.

Cimarron - Cena 3Yancey é um desses personagens que nos conquistam tão logo aparece na tela. O ator Richard Dix interpreta um desses caras hiper carismáticos que parecem ser bons em tudo o que fazem. Quando muda para Osage, Yancey não apenas constrói um império pessoal com seu jornal (transformando-se em um típico representante do conceito de self-made man), quanto assume ares de herói ao livrar a cidade da escória criminosa que lá havia instalado-se. Fiel à esposa, temente a Deus, implacável no gatilho e com um topete estiloso, o sujeito é um desses cidadãos modelo estereotipados que poderiam facilmente causar repulsa em um público menos tolerante com a propagação da ideologia americana, mas é difícil imaginar que alguém deixará de torcer por ele devido a isso. Corajoso, louco e determinado, o cara atira na orelha dos inimigos, mata-os dentro de uma igreja durante um sermão que ele mesmo conduzia e é o único com culhões suficientes para enfrentar a gangue de arruaceiros que tenta roubar o banco da cidade.

Cimarron - Cena 2O que, então, há de errado com o Cimarron? Infelizmente, o filme conduzido pelo diretor Wesley Ruggles envelheceu mal, muito mal. Não pensem, no entanto, que digo isso me referindo a fatores audio/visuais. Apesar de já ter soprado mais de 80 velinhas, Cimarron ainda é perfeitamente “assistível” mesmo com sua fotografia preto-e-branco. Há sequências de ação grandiosas e empolgantes, como por exemplo a corrida dos desbravadores que abre o filme, e elas não devem nada para outros westerns que foram feitos anos depois. O que espanta negativamente na trama, que é adaptada de uma novela da escritora Edna Ferber, são os temas ligados ao preconceito racial e sexismo, temas esses que não desenvolvem-se de forma a oferecer soluções e exemplos para o combate de tais problemas na vida real. Obviamente, nenhum filme, para ser bom, é obrigado a levantar bandeiras de lutas sociais e políticas, a ficção é livre, mas ainda assim é difícil ficar indiferente, por exemplo, ao tratamento que dão a um dos únicos negros da trama, um menino que é visto por seus donos empregadores como uma espécie de animal de estimação. Quando o mesmo morre, vítima de um tiroteio, não há absolutamente nenhum tipo de comoção. Bizarro.

Cimarron - Cena 4A situação piora ainda mais quando trata-se do sexismo. Conforme pode ser percebido na sinopse, a história é centrada em Yancey Cravat, um personagem masculino. Até aí tudo bem, o problema aqui é que, para engrandecer os atos de coragem e inteligênca do protagonista, o roteiro retrata as mulheres da trama de forma fútil (é o caso de Sabra e das outras moradoras de Osage) ou como pessoas incapazes de protegerem a si mesmas (Dixie Lee). Isso pode ter atrapalhado na recepção do filme junto ao público contemporâneo que o classificou no IMDB? Talvez. Isso torna o filme ruim? Ao meu ver, não. Por mais que os pontos comentados (somados a forma como os índios são mencionados no longa) incomodem, eles devem ser entendidos mais como produtos/representações da mentalidade da época do que como uma posição política esdrúxula da escritora/diretor. Todo caso, trata-se de um bom filme (que na verdade é bem mais um drama de época do que um western), cujo ator principal (Richard Dix), ao lado do Danny Trejo, provavelmente seja um dos sujeitos mais feios que já protagonizaram um longa.

Cimarron - Cena

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