Azul é a Cor Mais Quente (2013)

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Azul é a Cor Mais QuenteO azul não é uma cor quente** (ver comentários). Quando a localizamos dentro de um daqueles diagramas que representam o círculo cromático, percebemos inclusive que trata-se de uma cor fria primária. Não houve, no entanto, nenhum erro grosseiro na decisão da escritora Julie Maroh ao nomear sua HQ de Le Bleu est Une Couleur Chaude (O Azul é uma Cor Quente), trabalho que o diretor Abdellatif Kechiche adaptou para esse Azul é a Cor Mais Quente. Houve, antes, o emprego inteligente de uma contradição que, quando analisada, nos fornece uma das muitas chaves interpretativas que abrem e revelam os mistérios da jornada de Adèle (Adèle Exarchopoulos) rumo ao amadurecimento. Texto com **SPOILERS**, ok?

Mesmo que qualquer mortal esteja sujeito a acordar atrasado, considero significativo que o nosso primeiro contato com Adèle dê-se em um momento onde ela está correndo rua à fora atrás do ônibus da escola. De alguma forma, esta cena externa tanto a imaturidade da personagem, que ali aparenta ser alguém irresponsável com compromissos e horários, quanto a idéia de que ela vive descompassada com o resto da sociedade, com aquilo que é pontual e, por assim dizer, com o que é “certo”.

A rotina na qual vemos ela inserida posteriormente, que compreende aulas maçantes e flertes com rapazinhos da escola, imprime um tom de naturalidade às falhas da garota que, assim podemos justamente considerar, nada mais são do que deslizes tipicamente adolescentes. Ainda que em seu primeiro encontro com um desses garotos ela diga coisas incomuns para alguém de sua idade, como demonstrar personalidade ao falar sobre literatura, Adèle também cede ao impulso juvenil de ir para a cama com o rapaz mais para “provar” para as amigas que ela não é mais criança do que pela vontade em si de praticar sexo. O tal rapaz, aliás, é um daqueles que mesmo eu, sujeito macho (rs), devo descrever como “interessante”: boa pinta e tímido, porém determinado, o sujeito, que também é músico, é o estereótipo  do príncipe com o qual muitas adolescentes sonham. O que poderia ser o início de um romance, no entanto, converte-se em uma transa deveras monótona: Adèle não fecha os olhos durante o ato, indicativo de tédio e insegurança e, no dia seguinte, dispensa o rapaz sem maiores explicações.

Azul é a Cor Mais Quente - Cena 3Se, no início, poderíamos apenas especular sobre a personalidade da personagem com base em um simples atraso, aqui as coisas ficam um pouco mais nítidas. De fato, Adèle está tropeçando rumo à vida adulta, mas o caminho que ela está trilhando desvia-se do convencional, do “príncipe perfeito”, para ir diretamente de encontro a uma misteriosa e sedutora garota de cabelos azuis. Emma (Léa Seydoux) surge na vida dela como um entre tantos outros rostos na multidão, transforma-se em sonho ardente e, por fim, vive com ela as experiências que a conduzirão a maturidade.

O que Adèle viu em Emma que ela não conseguiu encontrar no rapaz de barbicha? Indo além da resposta óbvia que aponta o fator sexual, vejo que a personagem sentiu-se atraída pela segurança e bagagem cultural de Emma. Experiente, a moça de cabelos azuis sabe cadenciar a situação e envolve Adèle aos poucos, utilizando a curiosidade da garota pelo que é novo e desconhecido para conquistá-la, e é exatamente aqui, nesse jogo de sedução, que a analogia com a cor azul fez sentido para mim.

Azul é a Cor Mais Quente - Cena 4Há incontáveis trabalhos brilhantes em todos os campos da arte fundados sobre sentimentos alegres e confortantes mas, pessoalmente, sinto que àqueles que nascem da tristeza de um coração partido ou uma mente atormentada tendem a nos tocar com mais intensidade. Nietzsche, Dostoiévski e Tolstói me convencem mais sobre a natureza humana do que qualquer livro de auto ajuda. Baladas sobre relacionamentos tumultuados geralmente emocionam mais do que canções de declaração de amor mela cueca e filmes que mostram casais enfrentando os percalços do dia a dia para continuarem juntos, apesar de tudo e de todos, são mais encorajadores do que qualquer “e viveram felizes para sempre”. Há uma certa beleza que aparentemente só o sofrimento é capaz de fazer aflorar nas artes e isso, acredito, deve-se ao nosso interesse pelo que é proibido e incerto, de modo que nossos sentidos tornam-se receptivos a relatos angustiados e arrependidos de quem ousou cruzar os limites do convencional.

Azul é a Cor Mais Quente - Cena 5Não sabemos muito do passado de Emma, até porque nós a conhecemos através dos olhos de Adèle (que também não a conhecia), mas não é difícil arriscar um palpite sobre o tipo de vida que ela levou. Filha de pais liberais e interessados por arte, ela deve ter crescido em um ambiente onde a cultura era valorizada e incentivada. A família dela a aceita tal qual ela é, o que a permite levar suas namoradas em casa, cursar uma faculdade de Belas Artes e pintar o cabelo de azul. Certamente, ela envolveu-se com uma quantidade grande de pessoas e, com cada uma delas, viveu bons e maus momentos. Emma cresceu livre, acertou e errou e, quando ela aparece na frente de Adèle em um balcão de uma boate GLS, ela o fez como uma pessoa que sabe onde está pisando.

Azul é a Cor Mais Quente - Cena 6No lado aposto, está Adèle. Ainda nova, criada em uma família tradicional (o fato de eles comerem macarronada, em contrapartida as ostras feitas pelo padrasto de Emma, é deveras significativo), que acredita que uma pessoa não é capaz de ganhar dinheiro com arte e vivendo cercada por amigas preconceituosas e convencionais (e aqui eu preciso manifestar o meu ódio contra aquela menina do cabelo ruivo: VACA!), Adèle é insegura com relação ao que ela pode oferecer. Ela quer ser mais culta, quer trabalhar com crianças, quer ter mais liberdade e quer amar. Tudo são planos, incerto é o futuro. Na vida dela, Emma é um modelo, o reflexo que ela gostaria de ver no espelho, todas as certezas que ela busca. Mas, como o ditado popular sentencia, não é possível fazer um omelete sem quebrar alguns ovos, e ela não conseguirá amadurecer e também tornar-se uma pessoa interessante e atraente aos olhos dos outros antes de enfrentar alguns problemas e noites em claro. A sequência erro> tristeza> aprendizado> experiência > segurança que Emma representa, o azul personificado e resignificado em algo quente, atraente, é o que Adèle busca e é o que ela consegue no final da trama, quando, também vestida de azul, caminha rua à fora enquanto um rapaz corre atrás dela. Azul é a Cor Mais Quente é o filme que celebra a perda da inocência e as dificuldades da vida como um ritual de passagem inevitável para o auto aperfeiçoamento.

Azul é a Cor Mais Quente - CenaSucesso no festival de Cannes e indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, Azul é a Cor Mais Quente só não concorreu ao Oscar devido a ter sido lançado em uma data que feria as regras impostas pela Academia. É bem provável que ele fique mais conhecido como o “filme de sexo explícito da gostosinha com a menina de cabelo azul”, e isso não seria uma forma totalmente errada de definí-lo, já que, de fato, as duas atrizes transam várias vezes durante a trama em cenas longas e quentes (segundo o IMDB, as atrizes utilizaram vaginas sintéticas nessas cenas). Não é errado descrevê-lo assim, mas ainda assim é uma forma medíocre de classificar um filme sobre relacionamento riquíssimo onde, mais do que duas mulheres se pegando, vemos diálogos naturais, cenários e pessoas que geram empatia e um comentário visceral sobre crescimento pessoal e a construção do nosso interesse pelo próximo. Sinceramente, o fato de isso ser mostrado entre duas mulheres, dois homens ou uma mulher e um homem é o que menos me interessa.

Azul é a Cor Mais Quente - Cena 2

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  1. Olá, meu nome é Larissa! Olha, muito bom o texto de análise do filme. Preciso fazer um trabalho de análise, onde abordo a cor como enredo e escolhi esse filme, e gostaria de usar alguns trechos do seu texto. Tenho sua permissão?
    Desde já, obrigada.

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