Júlio César (1953)

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Júlio CésarNão é difícil encontrar algum leitor que, após assistir um filme baseado em algum livro que ele tenha lido, reclame que o roteirista “assassinou” a obra original. Isso se dá principalmente quando, em nome da narrativa cinematográfica, o filme muda significativamente alguns aspectos do livro, tal como dar mais ou menos atenção a determinados personagens ou, em casos mais extremos, alterar o próprio final da história. Para comprovar o que estou dizendo, basta encontrar algum fanático por O Senhor dos Anéis ou Watchmen e perguntar-lhes o que eles acharam dos filmes do Peter Jackson e Zack Snyder.

No tocante as adaptações, nunca fui radical. Entendo que as linguagens cinematográfica e literária, ainda que possuam diversos pontos em comum, nem sempre conseguem caminhar juntas e que, caso uma não faça justiça à outra no caso de uma adaptação, basta que ignoremos o subproduto e atenhamo-nos ao original. É claro que o assunto envolve passionalidade, já que nunca é legal ver algo que tu leu sendo maltratado nas telas, mas nem por isso precisamos acusar alguém de assassinato. O discurso moderado que adoto sobre esse assunto deve-se ao fato de que, nem sempre, a reprodução fiel do livro nas telas é algo bom: algumas coisas que satisfazem na forma escrita não tem o mesmo efeito quando transformadas em imagem e som. Eu não consigo imaginar, por exemplo, como o final escrito pelo Alan Moore poderia ser melhor e mais adequado para o filme do que aquele que foi filmado pelo Snyder. O Legolas tinha todos aqueles movimentos épicos e ações estilosas na história do Tolkien? Não, mas é inegável que eles encaixaram-se muitíssimo bem nas cenas de ação do filme e garantiram ótimos momentos de diversão para quem foi ao cinema ver a trilogia do P. Jackson. A adaptação, por vezes, é preferível a literalidade e esse Júlio César, filme dirigido em 1953 pelo Joseph L. Mankiewicz (o mesmo que, 10 anos depois, quase quebraria a Fox com o chato Cleópatra), é um belo exemplo disso.

Júlio César - Cena 2Baseado na peça homônima do Shakespeare, Júlio César trata da conspiração do senado romano encabeçada por Brutus (James Mason) e Cassius (John Gielgud) que colocou fim a vida de César (Louis Calhern). Sob a alegação de que o político tinha pretensões ditatoriais e tirânicas, Brutus comandou o assassinato de César com o intuito de preservar o interesse do povo, mas um discurso apaixonado de Marco Antônio (Marlon Brando) durante o funeral do ditador voltou a opinião pública contra o senado e obrigou os assassinos a fugirem.

Reconheço que há uma certa dose de “achismo” quando digo que Mankiewicz não alterou os diálogos escritos por Shakespeare em sua adaptação. Por que? Porque eu não li o Julio César, oras. Ainda assim, tendo como base as outras obras que eu conheço do escritor, arrisco a dizer que o que é falado no filme não é muito diferente do que pode ser lido na peça e que, infelizmente, isso não funcionou aqui. O texto shakesperiano, riquíssimo, belo e cheio de paixão, é emocionante para quem o lê e para quem tem a oportunidade de vê-lo no teatro (tive apenas uma oportunidade, com o Ricardo III) mas, pela segunda vez, me soou artificial ao ser transportado para as telas sem grandes modificações. Lembram daquela versão do Baz Luhrmann do Romeu e Julieta com o DiCaprio? Por mais que o visual do filme seja legal e as atuações estejam na média, eu nunca consegui gostar muito dele devido as sequências intermináveis de falas floreadas que soavam deslocadas demais dentro das cenas. Li o livro algum tempo depois e adorei, há ali algumas das mais belas declarações de amor já escritas, mas ainda assim não consegui digerir o filme quando voltei a vê-lo tempos depois. O problema definitivamente não era com o texto, mas com a forma como ele era passado, mesma impressão que eu tive enquanto assistia Júlio César.

Júlio César - CenaPessoalmente, eu gosto muito da história do ditador romano e das questões que podem ser pensadas sobre ele. Tendo estendido os domínios de Roma por toda a Europa, conquistado o amor do povo, o respeito de seus comandados e o temor de seus inimigos, César é um desses personagens históricos que conseguiram praticamente tudo que um homem “comum” apenas sonha. Quando penso nisso, me pergunto o quão agoniante deve ser viver em um mundo onde suas maiores ambições já foram saciadas e, mais ainda, o quão desesperador é perceber que procuramos alcançar as glórias do topo apenas para experimentar as desgraças da queda que, invariavelmente, vem na sequência. É possível perceber essas problemáticas no filme de Mankiewicz, mas a compreensão delas é bastante dificultada pela metralhadora de frases rápidas que compõe a primeira metade da trama. Ler as legendas, observar as imagens e interiorizar os diálogos complexos escritos por Shakespeare, tirando deles tudo aquilo que eles tem para fornecer, é praticamente impossível. Consta, inclusive, que o filme ganhou um Oscar de Melhor Direção de Arte por Decoração de Set Preto e Branco (rs) mas, mesmo sabendo disso, eu não consegui prestar atenção nos cenários devido a torrente de diálogos entre Brutus e seus comparsas.

Júlio César - Cena 3Indico Júlio César apenas para quem possuir o mesmo interesse que eu nutro pelo trabalho do Marlon Brando. Naquela que é indiscutivelmente a melhor cena do longa, Marlon encarna Marco Antonio e dispara um discurso selvagem contra o povo de Roma instigando-lhes a voltarem-se contra os assassinos de César. O ator, que então estava apenas em seu quarto filme, demonstra segurança e fúria ao recitar o belíssimo texto e, até mesmo pelo jeito cadenciado de falar que caracterizaria sua carreira, faz-se entender e brilha sozinho em um filme hermético e cansativo.

Júlio César - Cena 4

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