Ninfomaníaca: Volume 1 & 2 (2013)

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NinfomaníacaO novo, provocativo e excelente trabalho do polêmico diretor dinamarquês Lars von Trier tem aproximadamente 4 horas de duração, motivo que levou os produtores a dividí-lo em dois filmes, Ninfomaníaca: Volume 1 e Volume 2. Como essa divisão tem como único objetivo tornar o produto mais acessível para o público acostumado com longas que giram em torno de 1h40min, não vi porquê comentá-lo ou me referir a ele separadamente: filosófica e cinematograficamente, Ninfomaníaca é um filme só, um olhar depressivo, cético e irônico sobre temas como amor, sexo e moral. Descrevo aqui, portanto, as minhas impressões sobre a obra completa, ok?

Joe, que é interpretada em idades diferentes pelas atrizes Stacy Martin e Charlotte Gainsbourg, descobre sua sexualidade (ou sua buceta, como ela diz com uma naturalidade impressionante) ainda criança. Filha de pais emocionalmente separados, ela aproveita a companhia da amiga “B” para explorar os todos os prazeres que o corpo poderia lhe oferecer. Nota-se, no entanto, que ela não busca no sexo exatamente aquilo que, digamos, uma pessoa “normal” procura. Temos a oportunidade de compreender os sentimentos, pontos de vista e angústia da auto declara ninfomaníaca quando, já adulta, ela é encontrada em um beco pelo respeitoso Seligman (Stellan Skarsgard) logo após ser espancada. Fazendo uso de uma retórica fundamentada no pensamento científico, Seligman acolhe, acomoda, ouve e dialoga com Joe, que lhe conta sua incomum história de vida no mesmo tom de desabafo de alguém que conversa com um psicólogo.

Ninfomaníaca - Cena 6Nas resenhas e comentários positivos que li sobre Ninfomaníaca, há sempre uma espécie de necessidade de defendê-lo com a alegação de que ele não é somente um filme sobre sexo. Essa argumentação, acredito, é fruto sim de uma desconfiança relacionada ao poder de compreensão do chamado público comum (termo deveras prepotente, mas nem por isso menos verdadeiro), mas deve-se principalmente a uma tentativa de rebater a propaganda involuntária (?) que o filme recebeu devido ao tema que explora. Muito antes do longa estrear, por exemplo, eu já sabia que ele mostraria a Gainsbourg envolvida em cenas de masoquismo e sexo grupal bem como o hollywoodiano Shia LaBeouf nú e transando com uma adolescente. Conhecendo parte do trabalho do diretor, desconfiei desde o início que ele não utilizaria cenas de sexo explícito no filme sem algum propósito, mas, ao que tudo indica, não foi exatamente atrás desse propósito que o público que leu matérias como essa e viu cartazes como esse foi quando procurou pelo longa. Não há como negar o óbvio: de fato, a grande quantidade de cenas de nudez e sexo explícito chocam em um filme com tantos atores conhecidos e é normal que as pessoas falem disso e lembrem do filme por esse motivo, mas devo concordar (mesmo que isso me renda o título de arrogante) com quem diz que entender o longa apenas através dessa ótica é um sinal claro de falta de capacidade interpretativa.

Ninfomaníaca - CenaAntes de prosseguir, despeço-me de você, leitor que queria apenas saber se o filme vale a pena e/ou se ele realmente é tão chocante (rs) quando andam dizendo. Se ainda não ficou suficientemente claro, aceno-lhes dizendo que SIM, Ninfomaníaca é muito bom e que NÃO, você não deve vê-lo na presença de sua avó. Livre dos curiosos, dirijo-me agora a quem assistiu-o e também àquelas pessoas que não importam-se com **SPOILERS**, pois não pretendo comentar um filme do Trier preocupado em não revelar detalhes do roteiro.

Amigos, eu nunca fui bom em matemática e temo que nunca serei. Eu me esforçava, tirava boas notas nas provas, mas eu sempre soube que dificilmente o meu ganha pão sairia dali. Digo-lhes isso para deixar bem claro que, quando falaram pela primeira vez na tal “Sequência de Fibonacci” no filme, eu “boiei” totalmente. Escutando os relatos de Joe, Seligman tenta tranquilizar a personagem sobre os atos dela comparando-os a padrões de “normalidade” que podem ser encontrados na natureza e aí ele cita Fibonacci. “O que? Então, na verdade, não temos um filme sobre sexo, mas sim um falatório chato sobre números?”. Não, amigos. Assim como o velho “entra e sai” está aqui por um propósito, também estão as teorias matemáticas, filosóficas e religiosas. Trier fala através de Seligman, um intelectual que domina vários campos do conhecimento, quando tenta analisar e compreender a obsessão de Joe por sexo e pede, praticamente exige, que nós façamos o mesmo caso queiramos entender o filme e, principalmente, nos livrarmos de certos tabus que são extremamente prejudiciais para a evolução do pensamento humano e a vida em sociedade. Como eu procuro entender o significado dos filmes que assisto e sou partidário da idéia de que não é saudável ver o mundo somente em preto e branco, li um pouco, pensei sobre o que vi e li e conversei à respeito de ambos com a minha esposa. Eis, portanto e sem mais enrolação, o que eu tenho por ora para falar sobre o Ninfomaníaca.

Ninfomaníaca - Cena 5A tal Sequência de Fibonnaci, quando vista além de sua aplicação matemática, sugere por vezes a idéia de um criador orquestrando a construção do universo. A repetição dos padrões e números na natureza, na visão dos criacionistas, indica que o mundo é o resultado da execução de um plano pré-concebido por Deus, e não apenas o resultado de uma evolução lenta e constante como aponta o pensamento científico darwiniano. E onde Joe e a obsessão dela entram nisso tudo? A questão é exatamente essa: ela não entra, Joe é uma excluída, uma entre tantas outras minorias que existem no mundo. Quando criança, a personagem ouve do pai (Christian Slater) uma explicação alegórica sobre uma árvore que, por ser a mais bela entre todas as árvores, foi invejada e posteriormente ridicularizada por suas semelhantes no inverno, estação que a deixou sem folhas e com uns “grãos” pretos que a tornavam diferente de todas as outras. Os arranjos das folhas das árvores, Seligman nos explica, são números de Fibonacci, do que entendemos, desenvolvendo a idéia, de que elas são perfeitas, padronizadas e frutos do trabalho divino. Quando uma árvore, por mais bela que seja, desobedece esses padrões, ela torna-se então uma aberração passiva de ser ridicularizada, combatida e exterminada. Eis aí a chave para compreendermos Joe.

Ninfomaníaca - Cena 2Joe perde a virgindade mecanicamente com Jerôme (LaBeouf) naquilo que a caprichada edição do Trier nos mostra como outro padrão de teoria do matemático italiano: 3 penetrações vaginais + 5 penetrações anais. 3 e 5 são números de Fibonnaci, o sexo heterossexual é coisa de Deus, tudo normal e a vida segue. Em outro momento, junto com a amiga B (e aqui vale uma pausa para dizer que vários personagens que passam rapidamente pela vida da protagonista recebem apenas letras como nome, forma de dizer, acredito eu, o quanto eles não significaram muita coisa para ela), Joe invade um trem e começa uma disputa cuja vencedora seria aquela que transasse com mais passageiros. Quando olhamos o prêmio, percebemos o quanto o sexo para a personagem está dissociado da simples perversão : Joe e B levam vários homens para o banheiro e lhes oferecem sexo oral dentro dos vagões disputando um inocente saco de balas. Alguns anos depois, B tenta dar um significado para os atos delas e monta um grupo de mulheres que reivindicam a liberdade sexual, mas logo fica claro que Joe não transava descontroladamente para provar algo para alguém, ela o fazia simplesmente por fazer, como se aquilo fosse a própria essência dela.

Ninfomaníaca - Cena 7Em Ninfomaníaca, Lars von Trier nos mostra uma mulher que tenta entender a si mesma dentro de um mundo em que ela está fora dos padrões. Quando chega para conversar com Seligman, Joe demonstra sentir-se culpada, uma pecadora, como ela mesma diz. À medida que vamos conhecendo sua história, percebemos que ela errou muito, usando outras pessoas inconsequentemente para saciar suas vontades (destaque para a participação doentia da Uma Thurman como uma mulher traída), mas que, como acontece com todo mundo na vida, ela também foi vítima de outras pessoas que viram no vício dela uma oportunidade para se darem bem. Em outras palavras, assim como todo mundo, ela possui qualidades e defeitos e, portanto, não é tão diferente assim. Joe é obcecada por sexo mas isso não a torna uma aberração, um mero erro dentro do mundo perfeito de números e do Design Inteligente de Deus. Seligman também é um obcecado (por cultura), e tão pouco deve mudar para encaixar-se em uma sociedade que pouco lê. O que difere essas duas obsessões, o diretor sugere, é o moralismo, os valores que a sociedade (que é mutável, complexa e passível de erros) atribuem a elas, não algo a priori.

Ninfomaníaca - Cena 4E é em cima do moralismo que o diretor construiu a cena que mais mexeu comigo em todo o filme. Já próximo do final da trama, Joe tenta chantagear um homem que, aparentemente, não reagia a nenhum tipo de estímulo sexual. Depois de muito tentar, ela acaba descobrindo que ele, mesmo que provavelmente nunca tivesse praticado o ato em si, era um pedófilo. Seligman, ouvindo esse relato, posiciona-se imediatamente contra a prática e a recrimina. Eis que Joe, muito calma, o surpreende dizendo que ela ficou com dó daquele homem e fez sexo oral nele para recompensá-lo pois, na verdade, ele merecia uma medalha. “Uma medalha? Mas ele é um pedófilo!”, grita Seligman, espantado. É então que, no diálogo que considero como sendo o mais marcante e significativo do longa, Joe alerta Seligman para o fato de que o tal homem, apesar de sentir tesão por crianças, nunca realizou seus desejos por saber que, moralmente, eles são errados. Ela conclui questionando-se o quão duro deve ser viver uma vida toda reprimindo aquilo que tu é por saber que isso não é socialmente aceito e que, por isso, o homem merece SIM uma medalha, mesmo sendo um pedófilo. Ainda que eu considere a pedofilia um crime horrendo, não posso deixar de concordar com a personagem.

Ninfomaníaca - Cena 3Ninfomaníaca conclui com Joe aceitando-se como aquilo que ela é  (reparem na poderosa cena da árvore torta e seca, sozinha no topo da montanha, que o diretor usa para reforçar essa idéia) e livrando-se do peso do pecado e dos julgamentos mundanos graças, entre outras coisas, a racionalização de sua condição que a conversa com Seligman lhe permite. Novamente fazendo uso do niilismo nietzschiano, Lars von Trier nos desafia a enxergar além do óbvio, a sacrificar nossas noções de moral, de certo e de errado em nome de uma nova compreensão de um mundo que, por estar em constante evolução, requer novas análises e valores. Nessa reavaliação, nem mesmo a razão pura é capaz de fornecer todas as respostas, como fica claro quando Seligman, a personificação do intelecto aqui, também cede as tentações humanas e é morto por isso no final devastador da trama.

Vi Ninfomaníaca, portanto, como um exercício de combate ao moralismo, uma obra que trabalha a nossa mente para desafiar o óbvio. É preciso ver o filme além daquilo que ele oferece na superfície, além dos pipis africanos e do estilo Cláudia Ohana de ser da Gainsbourg, para aproveitar o que ele tem de realmente útil, que é o convite a reflexão. Tenho certeza que há mais para ser compreendido e comentado aqui, mas encerro esse texto (o maior que eu já escrevi) feliz com o que consegui captar, com as reflexões que isso me permitiu e dizendo-lhes ainda que fiquei extremamente satisfeito com a montagem, as citações de vários campos do conhecimento (inclusive a auto citação na cena que remete ao Anticristo) e a trilha sonora (Rammstein!) que o diretor usou no filme. Ao meu ver, Ninfomaníaca não deixa dúvidas de que, atualmente, o Lars von Trier é um dos melhores diretores em atividade.

Ninfomaníaca - Cena 8

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  1. Concordo quando você comenta do fato de todos aqueles que gostaram do filme, ressalvar o fato de que não é um filme apenas de sexo. É muito mais que isso, é muito mais profundo, muito mais humano. É um filmaço.

  2. Concordo com o que você falo LucianF (O filme nunca tinha ouvido falar, sobe que ate tem um livro sobre ele não sei ) Asim o filme e muito difícil de entender no começo mais acena que mais me choco não foi todo o sexo com os atores famosos mais sim o que acontece com a personagem Joe ela perde o orgasmo o tesão não sente nada isto deve ser uma tortura infernal para uma pessoa que sempre ando fazendo sexo e este filme abril minha mente como algumas pessoas partem para o sadomasoquismo o sexo com a tortura este filme muito bom recomento muito agora que me deixo muito surpreendido que rolo ate penetração sem corte para vermos tudo filme muito bom mesmo

    • Tu falou sobre perder o tesão. Lembra que ela pergunta como ele, apaixonado por cultura que ele é, se sentiria caso ele nunca mais pudesse ler um livro ou algo do tipo? Cara, só de pensar nisso eu arrepio.

  3. Pingback: Cinquenta Tons de Cinza (2015) | Já viu esse?

  4. Pingback: Love (2015) | Já viu esse?

  5. Olá, LucianF! Eu assisti somente este fds passado a esse filme. Gosto muito da interpretação que meu marido faz a filmes, livros, música e arte em geral então deixo aqui sua interpretação para a cena final que, no momento nos deixou meio decepcionados…no dia seguinte ele disse: “Sigman era o homem puro, analogia com Adão que não distingue o bem e o mal. Joe era a mulher que representa a condição humana. Qdo Sigman se deixa cair na tentação humana seu destino é morrer assim como Adão foi expulso do Paraíso. Não te disse que esse filme era carola?” Rsrsrs …essa piadinha no final é típico do esquerdisto e ateu que ele é qdo vê que algo faz analogia filosófica à Bíblia…abço!

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