Vampiros de Almas (1956)

Padrão

Vampiros de AlmasAinda ontem, conversando com um amigo sobre o tenebroso período na vida que alguns de nós dedicam à monografia, relembrei a minha leitura do clássico cult Sem Destino. Nunca considerei o filme do Dennis Hopper como um marco da contracultura, pelo menos não enquanto um trabalho que endossava o movimento. Mesmo com sua trilha sonora calcada no rock e no folk, passagens que expõe problemas como o preconceito e os personagens viajando, literalmente com suas motos estilosas e também através do uso de drogas, Sem Destino é, ao meu ver, muito mais um registro melancólico do fim da contracultura, com todos aqueles acampamentos bizarros de hippies fazendo coisas sem sentido, do que uma celebração de um novo modo de viver. A questão que interessa aqui para essa resenha é a intencionalidade. Teriam Hopper, Peter Fonda e T. Southern, os roteiristas, tencionado esse tom pessimista ou ele foi impresso, inconscientemente, devido aos eventos que eles presenciaram no período? Filmes não são, necessariamente, registros históricos fiéis dos períodos e/ou temas que representam, mas não há dúvidas que, procurando nas entrelinhas, é possível entender muito do imaginário social experimentado na época.

Vampiros das Almas, adaptação do Don Siegel (diretor que realizou muitos filmes com o Clint Eastwood, como Perseguidor Implacável e Os Abutres Têm Fome) para o romance do escritor Jack Finney, é um desses filmes que são mais efetivos para compreendermos algumas questões históricas do que muitos livros por aí. Conscientemente, Finney sempre alegou que escreveu “apenas” uma história de ficção científica sobre alienígenas que vem para a Terra (leia-se Estados Unidos) com o intuito de substituir os humanos por réplicas sem emoções e personalidade. “Não há metáforas sobre o macartismo ou comunismo”, ele respondia em entrevistas quando perguntado sobre o suposto conteúdo político de sua obra. Não foi exatamente isso que eu e meu amigo Stephen King, que me indicou o filme (rs) através do livro Dança Macabra, vimos.

Vampiros de Almas - Cena 5Não há nem um vestígio de racionalidade no homem que grita descontroladamente dentro uma delegacia após ser preso por perturbar a paz. Apesar de reivindicar a razão e a credibilidade que o título de médico deveria lhe garantir a priori, o Dr. Miles Bennell (Kevin McCarthy), suado, ofegante e com o cabelo bagunçado, não convence ninguém quando diz que “não é louco” e que eles “precisam ouví-lo antes que seja tarde demais”. O desespero de Bennell só aumenta quando eles mandam um psiquiatra para interrogá-lo. “Eu não sou louco!”, ele repete, mas como o sujeito convida-o à contar a história que o levou àquele estado de euforia, ele senta e começa seu estranho relato.

Regressando a pequena cidade de Santa Mira, Bennell reencontra sua antiga namorada, Becky Driscoll (Dana Wynter), e também alguns relatos deveras incomuns sobre seus pacientes e conhecidos. Pessoas que estavam doente apareceram sadias de uma hora para outra e um menino e uma mulher alegavam que sua mãe e seu tio, respectivamente, não eram as mesmas pessoas que eles costumavam ser. A aparência era igual, assim como o eram as memórias e hábitos mas, eles insistiam, havia qualquer coisa de estranho em seus olhos e emoções. Bennell, homem da ciência, desconfia e “trata” esses pacientes com conselhos sobre prudência e calmantes, mas aí acontece algo que nem mesmo um cético poderia contestar: após ser chamado com urgência na casa de um amigo, o médico é levado até um corpo recém descoberto. Deitado aparentemente sem vida em uma mesa e exibindo um rosto sem expressão com traços genéricos, o corpo assusta por não possuir digitais mas também por ter aparentemente a mesma altura e peso do dono da casa. “Estariam os moradores da cidade de Santa Maria sendo substituídos por réplicas?”, pergunta-se Bennell, e então o que era apenas uma dúvida revela-se uma terrível realidade quando ele e Becky descobrem na cidade casulos em forma de vagem que carregam cópias de corpos humanos em seus interiores.

Vampiros de Almas - Cena 4Não duvido que eu poderia ter chegado sozinho a essa conclusão (sem falsa modéstia, já li uma ou outra coisa sobre os temas discutidos) mas, como não gosto de apropriar-me das idéias alheias, dou o crédito da análise das entrelinhas de Vampiros das Almas para o S. King. No divertido e já mencionado Dança Macabra, o autor destrincha a obra conjunta de Siegel e Finney como uma metáfora para os problemas que ocupavam a mentalidade americana no período da Guerra Fria. Assisti o filme principalmente porque achei engraçada a forma que o King descreveu os tais casulos que abrigavam as cópias humanas, mas não nego que fiquei curioso para ver se o autor estava exagerando ao atribuir ao seu colega de profissão uma leitura de sua obra que o mesmo negava. Acreditem, pelo menos no que diz respeito ao filme, o lance todo é tão explícito que fica até difícil dizer que trata-se de uma metáfora rs

Vampiros de Almas - Cena 2A política do senador americano Joseph McCarthy que ficou conhecida como macartismo foi responsável pela prisão de vários cidadãos sob a acusação de comunismo e atividades anti americanas. Efeito colateral, criou-se entre os cidadãos daquele país um clima de paranóia onde qualquer um poderia ser um espião soviético, inclusive o vizinho ao lado. Quando Bennell e Becky fogem desesperados, desconfiando que todos da cidades pudessem ser alienígenas, divertimo-nos com a trama envolvente e bem desenvolvida de ficção científica, mas é difícil negar que ali, paralelamente, o macartismo ecoa forte. Mais óbvia, acredito, é a referência ao comunismo. Os alienígenas estão substituindo os morados de Santa Mira por réplicas iguais em sentimentos e emoções, pessoas que sacrificam a liberdade individual em nome do fim do sofrimento e das mazelas do mundo. Bennell (ou Tio Sam, como prefiram) recusa-se a levar uma vida sem o poder da escolha e diz, com close e tudo, que “prefere morrer do que levar uma vida sem liberdade”. É preciso ser cego/surdo, ou historicamente ignorante, para não associar esse discurso à Guerra Fria. Siegel, ao que tudo indica, percebeu o material que tinha em mãos e, em um diálogo sobre histeria em massa que é mostrado logo no início do filme, diz que algumas pessoas reproduzem inconscientemente certos comportamentos baseados naquilo que está acontecendo no mundo em suas épocas. Reconhecendo ou não, o falecido Jack Finney perdeu essa.

Vampiros de Almas - Cena 3Independente do conhecimento histórico do espectador ou do interesse do mesmo de relacionar o filme com o contexto em que ele foi produzido, Vampiros das Almas é um ótimo filme. O sentimento de paranóia foi muitíssimo bem exposto pelo trabalho competente do Siegel e o casal de protagonistas tem uma ótima química. A cena do desespero do Bennell na estrada, aliás, é excelente, e é uma pena que pressões do estúdio por um final “feliz” tenham impedido o filme de ter terminado ali.

Vampiros de Almas - Cena

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s