Braindead – Fome Animal (1992)

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Braindead - Fome AnimalÉ inevitável: sempre que conseguimos tempo para nos encontrarmos, eu e meus antigos amigos da faculdade bebemos, rimos da vida amorosa alheia, discutimos sobre futebol e, claro, falamos sobre filmes. Conheço esses caras há muitos anos, aprendi muito com eles e, portanto, não me contento apenas em saber qual o último filme que eles assistiram. Eu gosto mesmo é de provocá-los e, geralmente, faço isso usando dois nomes: Michael Bay e Peter Jackson. O primeiro, exemplo mor do cinema blockbuster hollywoodiano atual, sempre traz para a mesa a alegria e o exercício do raciocínio vicioso conhecido como sofisma: é engraçado e justo criticar os roteiros rasos e o excesso de explosões usadas pelo diretor, mas é ainda mais divertido defender vigorosamente esses mesmos elementos. Já quando o papo é sobre o segundo a conversa tende a ficar um pouquinho mais polêmica.

Assim como a maioria esmagadora do público, eu conheci o Peter Jackson através da trilogia do O Senhor dos Anéis. Li os livros do Tolkien apenas depois de assistir os filmes, voltei a reassistí-los para efetuar a comparação óbvia e, mesmo percebendo que uma ou outra mudança drástica foi feita na história, fiquei encantado com a qualidade da adaptação conduzida pelo diretor. Um desses meus amigos não pensa assim. Além de falar dessas mudanças tal qual um padre fala de um sacrilégio, ele possui na ponta da língua uma infinidade de críticas técnicas ao estilo do Jackson de dirigir. Ele sabe que eu não sou um grande conhecedor da área técnica do cinema, eu sei que às vezes ele é pedante e nós dois sabemos que, no final das contas, os filmes são bons sim, mas, certamente, eles poderiam ter sido melhores. Como concordar com o próximo não é exatamente uma forma de manter animada uma conversa regada a cerveja, ele sempre me coloca contra a parede com um argumento que, até hoje, eu não tinha como rebater: segundo ele, o melhor filme do Peter Jackson, na verdade, é o Fome Animal. Seus dias de opressão intelectual acabaram, Sr. Lucas! Assisti o seu queridíssimo filme e venho através dessa resenha dizer-lhe o que eu penso dele e da sua opinião! rs

Braindead - Fome Animal - Cena 2O nome Ilha da Caveira (ou, no original, Skull Island) lhes é familiar? Não? Pois saibam que foi dessa ilha ficcional que saíram duas das criaturas mais destrutivas de que se têm notícia: o gigantesco King Kong e o pequeno, porém não menos mortal, Macaco Rato da Sumatra. O primeiro o Jackson reviveu no divertido, ainda que deveras longo, King Kong de 2005. O segundo carrega a chave das portas do inferno que abrem-se em Braindead – Fome Animal: o animal bizarro é capturado por um pesquisador na famigerada ilha e levado para o zoológico de uma cidade pequena. Lá, antes de morrer esmagado por um salto de sapato, ele morde e infecta a mãe (Vera Cosgrove) do covarde e imaturo Lionel (Timothy Balme). Avisado pela faceira Paquita (Diana Peñalver) de que a velha foi amaldiçoada e de que a morte o cerca, Lionel recusa-se  a abrir mão da mãe mesmo quando ela, literalmente, começa a cair aos pedaços.

Braindead - Fome Animal - Cena 4Com um título desses, e indicado por quem o foi (vale lembrar que o cara gaba-se de conhecer mais de um filme de ‘canibal italiano da década de 60’), eu esperava algo grotesco e foi justamente isso que eu encontrei. Fome Animal trazia em um de seus cartazes uma frase que lhe atribuía o título de filme mais gore e sangrento de todos os tempos e não há motivos para ninguém duvidar disso. Após ser mordida pelo Macaco Rato, a mãe de Lionel começa a morder outras pessoas que, por sua vez, também mordem outras pessoas e logo o local todo está repleto de zumbis putrefatos sedentos do sangue alheio. Ainda que a computação gráfica usada para dar vida a algumas das aberrações do filme esteja extremamente datada (olhem aquele ‘zumbi-víscera’ e me digam se eu estou errado rs), é necessário reconhecer o excelente trabalho de maquiagem usado aqui para compor o pandemônio conduzido por Jackson. Mesmo que, depois de um tempo, a gente acabe ficando indiferente (devido, principalmente, ao tom cômico utilizado) as intermináveis mortes, decapitações e dilaceramentos resultantes da luta de Lionel e Paquita contra os mortos vivos, é difícil não notar e, por vezes, não enojar-se, com a qualidade da maquiagem usada para criar as tripas, carnes, peles e demais materiais pútridos exibidos. Para ver esse tipo de filme e curtir, além de um gosto pelo bizarro, a pessoa precisa necessariamente ter bom humor e estômago forte.

Braindead - Fome Animal - Cena 3Além das referências óbvias a trabalhos como O Exorcista e os filmes de zumbis do Romero, o roteiro de Fome Animal também me lembrou bastante a trama do Psicose. Tal qual o Norman Bates, Lionel possui uma relação doentia com a mãe, os problemas que conduzem a trama começam após ele conhecer uma mulher e há uma cena importante dentro de um porão, cena essa, aliás, que repete a famosa tomada do Hitchcock onde uma lâmpada pode ser vista balançando no teto. Lionel, porém, não é um vilão atormentado como Bates. Acredito que a intenção dos roteiristas com o personagem tenha sido mostrar as dificuldades que um homem enfrenta para amadurecer, impor-se como adulto e conquistar a mulher amada, já que, antes de ter o seu “momento agora chega!” e empunhar seu poderoso cortador de grama (adorei a idéia rs), Lionel precisa superar as forças da violência (o gângster no cemitério), a religião (o padre lutador) e os cuidados excessivos da própria mãe.

BRAINDEAD Timothy BalmeConhecendo o meu amigo como eu julgo conhecer, não me espanta que ele REALMENTE considere esse o melhor trabalho do Jackson. Repetindo, ele gosta de filmes de canibal italianos da década de 60. Quanto a mim, ainda prefiro O Senhor dos Anéis, por motivos que eu acho óbvios demais para descrever, mas não hesitarei em concordar com ele que Fome Animal é um filme legalzão. Seja por seus personagens caricatos e seus diálogos fantásticos (A sua mãe comeu o meu cachorro!), seja pela absurda, desnecessária e extremamente divertida cena do passeio no parque com o bebê, seja pela carnificina que fecha o filme regada a litros e mais litros de sangue falso, esse trabalho do Peter Jackson mistura com competência podreira, violência e diversão em um nível raramente visto. Boa, Lucas!

Braindead - Fome Animal - Cena 5

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