Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum (2013)

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Inside Llewyn Davis - Balada de Um Homem ComumLocal pequeno, luz fraca, clima intimista. Sentado em um banquinho, um homem dedilha um violão e canta os seguintes versos: “Me enforque, oh, me enforque, e estarei morto e enterrado/Não me importo com a corda/Descansarei muito tempo na cova/ Pobre de mim, estive por todo o mundo”. Antes que tu tenha tempo para raciocinar sobre o motivo de tal lamentação, o sujeito encerra a apresentação e é alertado pelo dono do bar sobre um amigo que o espera do lado de fora. Llewyn Davis (Oscar Isaac), o cantor, sai então pela porta dos fundos e recebe um soco bem no meio da fuça de um sujeito pouco amigável. Davis, como veremos nas próximas cenas, não é lá um sujeito muito sortudo.

Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum (o subtítulo, obviamente, é por conta dos nossos conterrâneos) é o novo filme de Joel e Ethan Coen, os responsáveis pelos longas Onde os Fracos Não Tem Vez, Um Homem Sério e Bravura Indômita. Considerando o prestígio que os diretores gozam atualmente em Hollywood, com cada um deles tendo recebido 4 Oscars e outras 9 indicações no últimos anos, é deveras normal que o espectador mais antenado olhe com desconfiança para um filme da dupla que, contrariando o que vinha acontecendo, foi indicado apenas a 2 prêmios técnicos (à saber, Melhor Fotografia e Melhor Mixagem de Som). Eu olhei e, olhando, vi um filme estranho, deveras divertido, é verdade, mas ainda assim não muito legal.

Inside Llewyn Davis - Cena 3Quem assistiu os filmes citados no parágrafo anterior já deve ter percebido que os Irmãos Coen, como eles são conhecidos, abordam questões como justiça e acaso de um modo um tanto quanto inconvencional. Se tivesse saído de casa cinco segundos antes ou depois, o assassino interpretado pelo Javier Bardem não teria encontrado o que ele definitivamente merecia em Onde os Fracos Não Tem Vez. Também podemos dizer que o processo de aprendizado que aquele professor de matemática enfrenta em Um Homem Sério poderia ter sido mais fácil e proporcional a seu bom e inocente coração mas, como desgraça pouca é bobagem, os diretores (que, na maioria das vezes, também assinam os roteiros que dirigem) fazem o personagem arrastar-se pela lama no pior dos cenários possíveis antes que qualquer recompensa lhe seja oferecida.

Llewyn Davis é um músico que tenta sobreviver à custa do próprio talento no início da década de 60, cantando e gravando discos de música folk. Acontece que, no período, o que fazia sucesso mesmo eram músicas alegres e descontraídas “a la” Os Beatles, realidade que diminuía o interesse das gravadoras no trabalho de Llewyn e, consequentemente, deixava-o com os bolsos vazios. Perambulando sem lar pelas ruas do Greenwich Village, dormindo ora no chão da sala de um casal de amigos, ora no sofá de um desconhecido, o músico segue tentando permanecer fiel ao tipo de música que ele gosta, mesmo que isso lhe garanta toda a espécie de contratempos.

Inside Llewyn Davis - Cena 2Em um drama tradicional, Llewyn Davis poderia ser retratado como um mártir na luta contra a indústria fonográfica, um defensor do direito de fazer arte pela arte. Nas mãos dos Coen, o personagem é reduzido a um homem comum (olha eu concordando com o subtítulo rs) que possuí talento mas que, ao que tudo indica, não faz a mínima idéia de como usá-lo em benefício ($$$) próprio. Enquanto todos ao seu redor, incluindo o casal de amigos Jean (Carey Mulligan) e Jim (Justin Timberlake) e o professor Gorfein, parecem estar, se não estabilizados, pelo menos progredindo financeiramente com seus trabalhos, Llewyn continua persistindo em algo que, aparentemente, não trará lucro algum. Quando olhamos para a história de um homem que, apesar de todos os esforços, não consegue dinheiro nem para alugar o próprio teto, é natural que o sentimento de compaixão encha nossos corações, mas aí, novamente, lembro-lhes que estamos assistindo um filme de diretores que adoram brincar com as forças do acaso.

Inside Llewyn Davis - Cena 1Inside Llewyn Davis, ao meu ver, está muito mais para uma comédia do que para um drama. Ainda que apresente elementos desse último, sobretudo em seu final (início?) que recorre a um mito da música folk para sugerir que a batalha de Llewyn não fora em vão, o filme chama a atenção mesmo é pelo seu humor nonsense e personagens caricatos. Explorando os perrengues do músico, os diretores colocam-no em contato com toda espécie de gente maluca, como os velhos ranzinzas do estúdio, o cantor que faz backing vocal na hilária Please Please Mr. Kennedy (minha cena favorita de todo o filme) e, é claro, o sujeito ímpar interpretado pelo John Goodman. Reparem nos díalogos, digamos, “animadores” que ele trava com Llewyn e me digam se há algum amor no coração dos Coen.

Inside Llewyn Davis - Cena 5Em sua pequena jornada, Llewyn dá adeus a várias pessoas e situações que o colocavam pra baixo ou, de alguma forma, impediam-no de viver seu sonho de ganhar a vida com a música que, verdadeiramente, habitava dentro dele. No final das contas, o estranho senso de justiça dos Coen parece apontar que até mesmo os acasos bizarros (o esquema todo com a carteira de identidade é um bom exemplo) e falta de sorte que assombraram o personagem durante a trama impulsionaram-no rumo a algo bom. Essa é a minha interpretação para o roteiro mas, no final das contas, eu fiquei mais emocionado com o retorno para casa do Ulisses, referência bastante clara a obra do Homero, do que com as canções folk que refletem a tristeza de Llewyn. Inside Llewyn Davis possui algumas poucas piadas realmente boas (a maioria envolvendo o gato do Gorfein), personagens secundários engraçados e um tema interessante, no mais não o considero nem digno de indicações nas principais categorias do Oscar nem um dos momentos mais brilhantes de seus diretores.

Inside Llewyn Davis - Cena 4

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  1. Não assisti nenhum dos filmes que concorreram ao prêmios principais do Oscar, mas como bom curioso e louco por filmes (apesar da frase que inicia meu comentário), assisti um pedaço da cerimônia, porque se havia alguma dúvida sobre o vencedor de melhor filme, ela acabou quando começaram a “distribuir” estatuetas para Gravidade. Não posso falar do que não vi, e acho que filmes do mesmo gênero, ou de um mesmo ator ou diretor podem ser comparados, mas escolher entre filmes que nada tem a ver entre si eu realmente não entendo. Por isso, peço sua ajuda para tentar compreender pelo menos o seguinte: como um filme tem o melhor som, os melhores efeitos, o melhor diretor, o melhor “tudo” e não é considerado pelos mesmos que o classificaram assim como o melhor filme no final das contas? É claro que os julgadores são humanos, mas fica difícil entender o critério. A única coisa que se percebe é que existe uma espécie de “compensação”. O que você acha?

    Um abraço!

    • Grande Marcus!
      Pois é velho, fica difícil comentar se tu não viu nenhum dos indicados (e aconselho que tu veja pelo menos O Lobo de Wall Street e o Her), mas o que deu para perceber é que a Academia rendeu-se a grandeza TÉCNICA do Gravidade e do trabalho do diretor que orquestrou tudo aquilo, porém, como o Oscar é e sempre foi uma premiação de viés político, preferiram consagrar o 12 Anos de Escravidão e seu comentário social contra o racismo. Situação semelhante aconteceu em 2010, quando ignoraram a revolução tecnológica e a bilheteria do Avatar do Cameron, dando lhe apenas três estatuetas de prêmios técnicos, e elegeram como melhor filme do ano o sem graça, ainda que importante para o período, Guerra ao Terror. Mas, todo caso, isso são apenas especulações, esses caras da Academia são doidos rs

  2. Pingback: Um Santo Vizinho (2014) | Já viu esse?

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