Nebraska (2013)

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NebraskaVerifica-se nas redes sociais um imperativo filosófico de que “gente boazinha só se fode”. Fruto da reflexão de pessoas que sentem-se injustiçadas pela ingratidão alheia, tal pensamento identifica ainda, mais do que a propensão à choradeira, a personalidade de alguém que tem dificuldades para “ler” os outros e dizer-lhes “não” quando necessário. Eu sou uma dessas pessoas. Não sou tão imaturo ao ponto de me considerar um mártir da moral e dos bons costumes que se opõe heróicamente às podridões do mundo e dificilmente utilizo sites como o Facebook para falar sobre meus sentimentos, mas tenho várias histórias, algumas delas bem recentes, que eu poderia utilizar como argumentos para embasar o meu problema com o “não”. Convenhamos, não é o caso de contá-las agora, cito-as apenas para que vocês acreditem nesse que vos fala quando digo que entendi perfeitamente a persistência cega do velho Woody Grant (Bruce Dern) em realizar uma ação que parecia idiota aos olhos de todos que o conheciam.

Woody recebeu pelo correio uma dessas cartas que dizem que você ganhou 1 milhão de dólares. Eu nunca recebi uma dessas, mas todo frequentador de sites adultos sabe que esses prêmios, tal qual os anúncios de que somos o visitante número X daquela página, não passam de uma tentativa barata de nos ludibriar. O personagem, desejoso de comprar uma caminhonete nova e um compressor (!), parece não desconfiar do embuste e, sem o apoio da família, decide ir caminhando sozinho até o Nebraska buscar o dinheiro, empreitada que ele está iniciando quando o encontramos no começo desse filme do diretor Alexander Payne. Parado pela polícia, ele é levado de volta para casa onde o filho, David (Will Forte), e a esposa, Kate (June Squibb), tentam dar-lhe algum juízo. No dia seguinte, lá vai Woody novamente estrada afora em busca de seu milhão. Conformado de que o pai não desistirá da idéia, David resolve pedir licença do serviço e levá-lo até o local indicado na carta, viagem que é interrompida primeiramente por um acidente e depois por uma curiosa reunião familiar.

NEBRASKAWoody, como é revelado posteriormente, já foi um sujeito forte e sagaz, uma homem muito diferente do velho decrépito que vemos caminhando na contramão da rodovia (e da própria vida) no começo da trama. Segundo contam, ele perdeu todas as chances que teve por confiar nas pessoas erradas e por não ter-lhes dito “não” na hora certa.  Além de ter emprestado o pouco dinheiro que tinha para os seus parentes, Woody perdeu um compressor (!²) e sua parte na sociedade de uma oficina para um homem desonesto que ele costumava chamar de amigo e até mesmo casou com Kate, palavras dele, “porque ela quis”. Já próximo do fim da vida, ele decide finalmente impor sua vontade, por mais absurda que ela seja e doa a quem doer. A atitude, que inquestionavelmente carrega tons de desespero, é apresentada por Payne com o mesmo bom humor que ele demonstrou em trabalhos como Sideways e Os Descendentes.

Nebraska - Cena 3Nebraska apresenta algumas características dos road movies, com personagens realizando uma viagem na qual eles aprendem algo sobre si mesmos com as dificuldades e as pessoas que eles encontram no caminho. David, o filho amoroso porém sem pulso, talvez seja quem mais enquadre-se dentro desse tipo de roteiro, já que ele consegue utilizar o exemplo do fracasso do pai para iniciar uma guinada na própria vida. O típico comentário social também está lá, com Payne mostrando cidades pequenas desoladas pela crise econômica americana, sociedades que ficam à margem tanto da estrada quanto da prosperidade consumista que caracteriza aquele país.

Sob a base sólida e atual desse drama, o diretor desenvolve diálogos divertidos e memoráveis. Antes de decidir revidar as injustiças das quais é vítima, David sofre muito (para a nossa alegria) nas mãos de sua família, especialmente nas de seus primos boçais que criticam-no por sua performance atrás do volante. Woody compõe o núcleo dramático, mas o seu estilo rabugento não deixa de garantir boas risadas, como quando ele força o filho a ajudá-lo procurar uma dentadura. Também gosto de como ele passa praticamente todo o filme com um curativo na testa. O grande destaque humorístico, no entanto, fica por conta da simpática June Squibb. Indicada ao Oscar pela atuação, a atriz é responsável pelos melhore e mais insanos momentos do longa, disparando xingamentos e maldições contra a própria família e protagonizando uma cena embasbacante em um cemitério. “Embasbacante” não é lá uma palavra muito bonita, mas nenhuma outra definiria tão bem aquele diálogo que ela trava com a lápide de um antigo admirador.

NEBRASKANebraska chama a atenção ainda pela decisão de seu diretor de ir na contramão do mercado atual e filmar em preto e branco. Payne criou um filme pequeno, sem grandes pretenções de dar lições de moral, onde nos divertimos com pessoas que decidem fazer exatamente aquilo que elas querem, seja gastar uma nota preta para agradar alguém, seja simplesmente ostentar um “brinquedo” novo para quem tu conhece. Às vezes, conclui Payne através da voz rouca e imperativa de Kate, é saudável  e até mesmo necessário dizer “não” e mandar todos se foderem.

Nebraska - CenaTermino aqui a minha cobertura dos indicados ao Oscar de Melhor Filme de 2014. Declaro que o meu favorito é O Lobo de Wall Street, mas que é necessário reconhecer os méritos de filmes como Gravidade e Ela, produções de ficção científica inventivas que correm por fora unicamente devido ao preconceito bobo que há contra o gênero, que não é considerado “sério” o suficiente por muitos. Acredito que o vencedor deva ser o 12 Anos de Escravidão e compreenderei se assim o for pois trata-se de um bom filme com um tema importante, mas ficarei verdadeiramente decepcionado se a estatueta for para o Trapaça, que nada mais é do que um longa mediano com boas atuações. Apostas feitas, aguardemos agora a cerimônia e as decisões sempre imprevisíveis (alguém acreditava no Ang Lee no ano passado?) da Academia.

Nebraska - Cena 2

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