Philomena (2013)

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PhilomenaDesde 2010, quando a Academia aumentou o número de indicados ao Oscar de Melhor Filme (inicialmente de 5 para 10; nos últimos anos foram 9), alguns longas, como Minhas Mãe e Meu Pai, Tão Forte e Tão Perto e O Lado Bom da Vida tem concorrido ao prêmio sem absolutamente nenhuma chance de vitória. Como já escrevi em alguns textos, considero positiva a iniciativa da Academia de dar visibilidade a mais títulos mesmo que, na prática, eles não tenham condições de levarem a estatueta mais cobiçada da noite. O peixinho que nada entre tubarões esse ano atende pelo simpático nome de Philomena e, ainda que a produção deva sair de mãos vazias da cerimônia (concorre em 4 categorias), é bacana ver um filme despretensioso e “leve” figurando lado a lado de longas sérios e violentos como 12 anos de Escravidão.

Apesar de começar no presente com a demissão do jornalista Martin Sixmith (Steve Coogan), a verdadeira trama do filme tem início no passado, com a então adolescente Philomena sendo seduzida em um parque de diversões por um mulherengo qualquer. Abandonada pelo pai e recebida com reprovação pelas freiras de um convento irlandês, a jovem da à luz a um garoto que lhe é tomado pouco tempo depois e encaminhado para a adoção. Já idosa e interpretada pela atriz Judi Dench, Philomena, que escondera a história até então, sente uma súbita vontade de encontrar o filho, tarefa na qual ela será auxiliada justamente por Martin, que após a demissão procurava uma boa história para escrever um livro e reerguer-se profissionalmente.

Philomena - Cena 2Fiz questão de colocar aspas no “leve” quando classifiquei a trama porque, ainda que o diretor Stephen Frears a conduza sem exagerar na carga emocional e até mesmo abra espaço para uma certa dose de humor, os eventos mostrados em Philomena são baseados em fatos reais. Ser rejeitada pelo pai, não poder ficar junta nem com o amante nem com o filho e ainda ter que esconder toda essa penação até a velhice não é, de forma alguma, uma história feliz e ninguém discordará disso, porém Frears decide abordá-la evitando a chorumela em nome da grande lição de perdão que seu exemplo é capaz de inspirar.

Sempre que o assunto envolve cinema e perdoar, recordo-me de uma cena antológica do A Lista de Schindler. O nazista sádico interpretado pelo Ralph Fiennes é convencido de que, no lugar de matar ou torturar os judeus que trabalham para ele, seria melhor perdoá-los, isso sim uma verdadeira demonstração de superioridade. Quem assistiu o filme sabe que essa mudança de comportamento não dura, mas mesmo assim a imagem de Fiennes estendendo a mão e dizendo  “Eu te perdoo” é extremamente poderosa. No exemplo dado, o personagem, que é um grande filho da puta, nem tem o que perdoar, muito pelo contrário. O que tiramos dele, no entanto, é o ensinamento, nem sempre fácil de ser aplicado, de que o verdadeiro poder reside não em revidar com razão uma injustiça que foi sofrida, mas abdicar-se de fazê-lo em nome do perdão e do amor ao próximo.

Philomena - CenaQuando começa sua peregrinação, Philomena, que é católica, demonstra gratidão para com as freiras do convento que a acolheram quando jovem. Mesmo que Martin estranhe o fato de todos os documentos sobre a adoção do filho dela terem sumido, observamos que a personagem não culpa a ninguém a não ser a si mesma pelo seu destino. “Eu pequei”, ela diz, “e tudo o que eu sofri foi a minha justa punição”. Martin, cético, aparentemente ateu e, sobretudo, revoltado por ter sido demitido, não concorda  com ela e utiliza outros meios para localizar a criança, esforço que leva a dupla da Inglaterra para os EUA, país onde uma triste notícia os aguarda.

Judi Dench, a grande responsável pela humanização da personagem, nos comove com seu choro, faz rir com sua espontaneidade e choca com confissões íntimas sobre sua primeira vez. Acima de tudo, ela agrada por não ser a típica velhinha/bonitinha/bobinha/esclerosada que poderia agradar os fãs ocasionais de drama e/ou humor. Mesmo diante de um intelectual inquisidor como Martin, ela sabe defender-se perfeitamente.  A forma como ela lida com todos os eventos que ocorrem na metade final da trama não é, portanto, unicamente emocional. Philomena escolhe, racionalmente, o modo como ela encarará a vida e as pessoas que a cercam e o único compromisso que ela tem é com a própria felicidade. Quando ela diz para Martin, no melhor diálogo do filme, que deve ser muito ruim ser ele (e, por “ele”, entendam cético e ateu) pois ele está sempre nervoso e com raiva das pessoas, não há inocência ou ignorância nas palavras dela, apenas sabedoria.

Judi Dence and Steve Coogan in PhilomenaPhilomena ataca o ceticismo cínico que visa apenas o mal estar alheio mas também bate com luvas no rosto do catolicismo ao expor o esquema de venda de crianças (das quais, conforme é dito, a personagem foi apenas uma das vítimas) e a forma coerente, porém débil, que as freiras encaram as relações sexuais alheias. O verdadeiro foco do filme, no entanto, é o exemplo do perdão, que é construído em cima de uma trama deveras linear que muitas vezes destoa do padrão de qualidade apresentado pela maioria dos indicados ao Oscar. Algumas cenas, como a decisão repentina da personagem de procurar pelo filho, Martin descobrindo o paradeiro da criança e o desejo dela (Philomena) de permanecer nos EUA após um revés na investigação soam artificiais demais. Pela sua qualidade, não considero o filme digno de uma indicação a Melhor Filme, mas é notável que a atuação soberba da Judi Dentch (concorre como Melhor Atriz) e a reversão exemplar que sua personagem consegue fazer de um destino cruel constituem motivos mais do que suficientes para justificar a visibilidade dado ao longa.

Philomena - Cena 4

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