O Ato de Matar (2012)

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O Ato de MatarPela primeira vez na história desse blog, trago para vocês a resenha de um dos concorrentes ao Oscar de Melhor Documentário antes da cerimônia. Por mais que alguém possa encarar isso (justamente, diga-se de passagem) com um “tá, e daí?”, devo dizer que trata-se de uma importante realização pessoal. Quem acompanha a página regularmente já deve ter lido por aqui que, mais de uma vez, eu quase decretei o fim do Já viu esse?. Problemas pessoais, emprego novo e o meu casamento consumiram grande parte do meu tempo no ano passado, de forma que constantemente eu me senti esgotado psicológica e intelectualmente para escrever textos de aproximadamente 1000 palavras sobre os filmes que eu assisti. A consequência disso tudo foi que, no dia da cerimônia do Globo de Ouro no mês passado, eu havia visto pouquíssimos indicados, um contraste gritante com a cobertura que fiz do mesmo evento no início de 2013. Triste com a situação, decidi encerrar essa empreitada pessoal para poder ver os filmes sem a “obrigação” de resenhá-los depois e cheguei até mesmo a iniciar um texto de despedida. Resultado: fiquei mais triste ainda. Há muito tempo o cinema tornou-se parte inseparável da minha vida e a sensação de que eu já não estava mais tendo prazer com algo que me ajudou a definir minha personalidade foi desoladora. Precisei encarar o sentimento de perda para relembrar o quanto isso aqui me é caro e, com o ânimo renovado, iniciei a cobertura do Oscar disposto a dar o meu melhor. Esse texto sobre O Ato de Matar é, mais do que uma resenha, a celebração pessoal de uma mudança de postura 🙂

Em 1965, um golpe militar comandado pelo General Suharto tomou o poder na Indonésia. Alinhado com a política capitalista ocidental, as forças de Suharto, que eram formadas por paramilitares e gângsters, mataram (números apresentados pelo diretor Joshua Oppenheimer) cerca e 1 milhão de pessoas sob a acusação de atividade comunista.

O Ato de Matar - Cena 3É comum, em documentários sobre esse tipo de episódio, que os produtores foquem suas investigações nas vítimas da tragédia. Em uma narrativa tradicional, portanto, veríamos filhos e netos dos assassinados dando seus depoimentos contra os militares. Ainda que não fosse feito de forma declarada, o filme traria um discurso velado contra as mazelas do capitalismo. Principal atrativo e diferencial de O Ato de Matar, aqui somos surpreendidos com a recriação do genocídio feita, pasmem, pelos próprios assassinos. Oppenheimer, acompanhado pelo ex-paramilitar Anwar Congo e pelo gângster Herman Koto, entrevista pessoas que participaram da matança e registra depoimentos inacreditáveis de apoio ao que foi feito.

Anwar Congo é o que podemos chamar de personagem principal do longa. Tratado por onde passa como um verdadeiro herói nacional, já que os militares e políticos ligados a eles ainda estão no poder, Anwar é convidado pelo diretor a recriar, tal qual ele quisesse, os eventos sangrentos pós golpe de 65. Fã que é dos filmes americanos (ele trabalhou algum tempo na bilheteria de um cinema e é um grande admirador de nomes como Sidney Poitier e John Wayne), o entrevistado decide por gravar um longa encenando os motivos que o levaram a matar os supostos comunistas.

O Ato de Matar - CenaEntre uma gravação e outra (das quais Herman participa quase sempre travestido de mulher rs), Oppenheimer abre espaço para que cidadãos comuns, militares, governantes e empresários que moram atualmente no país também digam o que pensam sobre o que aconteceu. Fruto da seleção tendenciosa do diretor ou do medo de represália, tais declarações não diferem-se em nada do que é falado por Anwar. Percebe-se o apoio incondicional ao extermínio dos comunistas e a glorificação de grupos militares como a Juventude Pancasila e os gângsters, esses últimos defendidos pelo menos umas 5 vezes durante a projeção como os verdadeiros trabalhadores da nação, pessoas dispostas e correr riscos para o bem do país. Gângster, aliás e segundo eles, “deriva do inglês homem livre“, e é exatamente de homens livres, e não de comunistas comedores de criancinhas, que a Indonésia precisa.

O Ato de Matar - Cena 6Pode-se argumentar que O Ato de Matar é uma declaração contra a violência, inclusive a cinematográfica. Anwar confessa que aprendeu a sua forma favorita de matar (!) assistindo os filmes de gângsters americanos. Atirar, esfaquear e perfurar faziam sujeira demais. Mais prático, limpo e “humano”, ele diz, era enroscar um arame ao redor do pescoço das vítimas e estrangulá-las até a morte.  Marlon Brando, em sua caracterização imortal de Don Corleone, e o cowboy John Wayne que lutava contra os índios em filmes de bang bang, tiveram grande influência na forma que pessoas como Anwar viram o mundo e não podemos nunca desconsiderar o poder do exemplo. Não acredito, no entanto, que esses exemplos determinem o que as pessoas serão, até porque o cinema americano da época também é cheio de heróis de moral inabalável, como o Atticus Finch do Gregory Peck no O Sol é Para Todos de 1962. A questão é e sempre foi a escolha individual, que pode até ser influenciada, mas raramente é determinada.

O Ato de Matar - Cena 4Oppenheimer diz o que precisa ser dito sobre violência, mas é justamente quando ele coloca Anwar para lidar com suas próprias escolhas que o filme dá o seu recado. Acontece que, em suas encenações sobre os assassinatos, o ex-paramilitar participa de uma cena onde ele mesmo é estrangulado com um arame por um comunista. A consciência sobre o que fez, que ele já demonstrara ter anteriormente ao confessar que tem pesadelos onde os assassinados o atormentam, aflora de uma forma insuportável e Anwar desaba diante do espectador. Do homem que anteriormente dizia-se orgulhoso do que fizera e que explicava, rindo e dançando, como o fizera, resta então apenas uma sombra amaldiçoada pelas escolhas de toda uma existência, um senhor de cabelos brancos que mal consegue conter o vômito ao retornar ao local onde ceifou, segundo ele, aproximadamente 1000 vidas.

O Ato de Matar - Cena 2O Ato de Matar é longo (cerca de 2h39min), repetitivo e, não raramente, cansativo e excêntrico (a maioria das cenas envolvendo Herman, como essa do peixe que aparece no poster, são bizarras). Independente de posicionamento político, Oppenheimer ouve e nos faz ouvir muita abobrinha até o momento em que mostra Anwar sentindo o peso de seus crimes. Lê-se no Wikipédia que, antes de serem dizimados, os comunistas do país também assassinaram militares e planejaram um golpe contra o governo. Isso não é falado no filme e também, como foi dito, não vemos a entrevista de nenhuma vítima do genocídio para balancearmos nossa visão sobre os fatos. Todo caso, isso realmente não importa aqui. O grande trunfo de O Ato de Matar é mostrar, tal qual acontece no clássico Crime e Castigo do Dostoiévski, que a punição para o que é errado sempre chega, seja socialmente, através de julgamentos, cadeia e pena de morte, ou seja moralmente, através da implosão pessoal, como acontece com Anwar.

O Ato de Matar - Cena 5

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  1. Não deixe de lado o que te dar prazer. Escreva sempre com todo carinho e dedicação que isso reflete no seus textos.

  2. Nunca comentei, assim como mts pessoas que só entram no blog e não comentam, e eu entro com frequência, acompanho todas as suas resenhas e faço listas dos filmes pra ver, confio muito na sua opnião pois geralmente concordo com as análises dos filmes e as vezes vc me mostra algo que eu não percebi, você é o meu crítico favorito, por isso não abandone o blog, muitos adoram o seu trabalho e a sensibilidade dele.

    • Acredite, Simone, suas palavras me deixaram muito feliz. Obrigado pelos elogios e saiba que, entre outras coisas, é esse tipo de carinho que me dá ânimo para continuar. Apareça mais vezes! 🙂
      Abraço.

    • Acho que muitos não comentam, e confesso que conheço o Já Viu Esse há pouco tempo, mas como a colega acima, sempre leio. Através do seu incansável trabalho recuperei o prazer de ver filmes. Costumo apenas ler o nome do filme, assisti-lo, para depois ler sua resenha. Já indiquei para vários amigos que também destacaram a qualidade das resenhas. Continue o bom trabalho!

      • Muito obrigado! É muito bom saber que não estou aqui no meu cantinho escuro (drama! rs) da internet falando sozinho 😀
        Abraço!

  3. Cara, um dos filmes de ação mais fodas que já vi é da Indonésia. The Raid – Redemption ( me recuso a chamar pelo título nacional escroto Operação Invasão.) Se tu ainda não viu, recomendo brother. Saca o trailer: o/

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