Alabama Monroe (2012)

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Alabama MonroeVolta e meia aparece algum leitor furioso por aqui me acusando de ser hipócrita, insensível, nazista, feio e cabeça de melão. O motivo, eles argumentam, é que só uma pessoa assim seria capaz de não gostar e, pior, criticar (cof), um filme lindo e maravilhoso como Um Ato de Coragem. Como alguém poderia ficar indiferente àquela demonstração incondicional de amor entre pai e filho, perguntam-me, embasbacados, os defensores da moral e dos valores familiares. Menos, pessoal, bem menos. Ainda que eu não tenha gostado do filme pelos motivos explicados no texto e que, realmente, eu não tenha filhos e isso diminua o impacto que a história causou em mim, é deveras impossível não reconhecer a beleza que há no amor paternal que sacrifica tudo em nome de sua prole. Acontece que o filme em questão é mal executado e aquele menino fã de halterofilismo é bizarro. Todo caso, fica aqui um pedido de desculpas para quem sentiu-se ofendido com a minha opinião, o aviso de SPOILERS e um convite de reconciliação: choremos, juntos e pelo amor à integridade familiar, assistindo Alabama Monroe.

Concorrente ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o filme (que também pode ser encontrado com o título The Broken Circle Breakdowm) mistura o estilo Bluegrass (algo próximo ao Country e ao Folk), tatuagens, romance e religião para contar a história desoladora de um casal que distancia-se após perder sua única filha, a lindíssima Maybelle, para o câncer.

Alabama Monroe - Cena 2Didier (Johan Heldenbergh) é um ateu que toca banjo em uma banda de Bluegrass. Fascinado pela cultura americana, onde estão as raízes de seu estilo musical favorito, o personagem conhece e apaixona-se por Elise (Veerle Batens), uma loira tatuada e tatuadora (!) que, apesar de compartilhar com ele a admiração pelos EUA, parece ter suas próprias crenças no que diz respeito a Deus e a vida após a morte. Os interesses em comum falam mais alto do que as diferenças e os dois, já completamente apaixonados um pelo outro, passam a cantar juntos na banda de Didier e geram uma criança. Maybelle nasce meses depois e é levada para morar em uma casa com uma varanda de vidro onde o amor reina absoluto. O início do fim desse conto de fadas moderno dá-se em uma manhã qualquer quando Elise percebe que a gengiva da filha está sangrando. Levada para o hospital e diagnosticada com câncer, Maybelle definha diante dos olhos dos pais submetida ao doloroso tratamento que a doença exige até morrer após uma cirurgia mal sucedida com células tronco.

Alabama Monroe - CenaBaseado em uma peça escrita pelo próprio Johan (ator que interpreta Didier), o diretor Felix Van Groeningen conduziu um dos filmes mais tristes de que se tem notícia. A perda de Maybelle, uma facada desferida diretamente contra o coração de seus pais (e dos leitores do blog) acontece em uma daquelas cenas em que palavras não são suficientes para definir toda a tristeza que sentimos. Até eu, monstro sem coração (e sem filhos) que sou, derramei uma lágrima ao ver Elise, completamente derrotada e desesperada, abraçando o corpo já sem vida da filha na cama do hospital. O troço é capaz de acabar com o dia de qualquer um. O que é bom (e ruim ao mesmo tempo) é que o filme não para por aí, nessa exploração pura e simples da desgraça alheia. A morte de Maybelle é a causa, e não o fim, dos eventos que vemos em Alabama Monroe.

Alabama Monroe - Cena 5O foco do filme de Van Groeningen é o ciclo, que compreende início, meio e fim, do relacionamento entre Didier e Elise. Para tornar as coisas menos óbvias, o diretor abre mão da linha temporal, indo e voltando constantemente no tempo para aumentar a carga emocional de certos momentos. Peguemos o momento da separação do casal para exemplificar o quão bem essa técnica narrativa funcionou para a história. Pouco sabemos inicialmente sobre os motivos que levaram os personagens a apaixonarem-se. Poucos minutos depois que o filme começa, os dois já podem ser vistos transando no trailer velho de Didier. É somente próximo a conclusão da trama, quando a perda de Maybelle e as diferenças religiosas entre os dois transformaram-se em obstáculos insuperáveis para a relação, que Van Groeningen nos conta como eles conheceram-se. Os motivos que os separaram ficam ainda mais fortes e tristes quando vemos os “porques” que os uniram.

Bem, se não posso comentar (cof²) com propriedade sobre o amor paterno, certamente me sinto autorizado, homem casado que sou, a discorrer sobre relacionamentos. Vez ou outra, me pego olhando fotografias antigas das primeiras vezes que saí com a minha hoje esposa e nesses momentos não consigo deixar de pensar em todo o caminho que percorremos juntos. Nossa história, como a de todos os casais reais, é composta por vários momentos felizes que, felizmente, superaram todas as brigas provocadas por nossas crises de imaturidade. Passar por tudo isso e casar é sim uma vitória, mas continuar juntos dia após dia enfrentando todas as frustrações e problemas que a vida costumeiramente joga em nossa cara é o verdadeiro desafio. Alabama Monroe nos mostra que um começo perfeito e meteórico nem sempre garantem o sucesso da relação.

Alabama Monroe - Cena 3Quando Maybelle perde a batalha para o câncer, restam na casa da varanda de vidro dois adultos com jeitos diferentes de encarar a vida e a morte. Ainda que ame verdadeiramente sua mulher, Didier não consegue deixar de olhar com ceticismo (e até mesmo desprezo) a forma como ela reage. Elise acredita, ou quer acreditar, que a filha não partiu completamente, que ela virou uma estrela no céu ou até mesmo encarnou em um pássaro que a virá visitar regularmente. Ainda que ame verdadeiramente seu marido, Elise não consegue concordar com a forma racional e pragmática que Didier escolheu para lidar com a situação, acusando a igreja por dificultar o avanço da pesquisa com as células tronco e repetindo constantemente que a filha “estava morta” e que eles deveriam aceitar isso. Eles acusam-se, machucam-se e afastam-se uns dos outros, destruídos pela perda e incapazes de encontrarem um meio termo entre o ceticismo e a fé para continuarem juntos, e o desespero os levam a adotar medidas desesperadas. Elise muda o nome para Alabama e decide “apagar” Didier da sua vida, o qual, por sua vez, perde completamente o controle emocional em um de seus shows, no qual ele discursa e pragueja contra a religião para uma platéia aturdida em uma cena tão ou mais forte do que a morte de Maybelle. Do desespero, surge uma nova forma de amor e o círculo, teoricamente, reinicia-se.

Alabama Monroe - Cena 4Ao que foi dito, acrescento ainda que as performances da banda de Bluegrass dão um toque todo especial aos temas que são desenvolvidos dentro da trama, aproximando-a muitas vezes de um musical. Coisa fina mesmo. Por tudo isso, o belga Alabama Monroe é um dos melhores filmes que eu assisti até agora nessa cobertura do Oscar. Rivaliza em qualidade com o ótimo A Caça, que também concorre a Melhor Filme Estrangeiro, é sensivelmente melhor do que o favorito na categoria e infinitamente superior, no tema e na execução, do que alguns dos filmes feitos em Hollywood que disputam a estatueta de Melhor Filme e que conquistam o coração da patuleia.

Alabama Monroe - Cena 6

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  1. Realmente esse filme não foca apenas na perca de um filho, ele mostra como os sentimentos mudam a nossa opinião de vida e morte.
    Gostei de como ele apresenta a dificuldade que o ser humano se adaptar a diferença do outro quebrando a noção de um simples encaixe mostrando a complexidade de como cada um se entende e deixa entender .

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