Blue Jasmine (2013)

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Blue JasmineAcredito que qualquer um que tenha assistido Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e que dedique-se à crítica cinematográfica sentirá-se melindrado antes de comentar um filme do Woody Allen. Aquela cena da fila do cinema, divertidíssima pela captura do estereótipo comum desses ambientes, é também uma vingança humilhante contra o pedantismo pretensioso que impera em grande parte das resenhas sobre filmes. Ainda que não queiramos admitir, costumeiramente exageramos em nossos comentários, atribuindo aos diretores e roteiristas (as frases começam, na maioria das vezes, com o diretor quis dizer/mostrar)  interpretações que são exclusivamente nossas. Esse medo de dizer bobagem, é claro, deve funcionar como um filtro e não como um limitador que nos impeça de procurar entender e interpretar esses filmes de acordo com a nossa própria realidade. Dito isso, apresento-vos a minha humilde leitura de Blue Jasmine, longa do Woody Allen que concorre ao Oscar de Melhor Roteiro Original. Espero que, em um cenário improvável no qual o diretor tenha acesso ao meu texto, ele acredite que eu não quis colocar palavras em sua boca, tal qual eu confio, sinceramente, que ele não quis colocar nada na boca (ou em outros lugares) da Dylan Farrow, sua filha adotiva.

Jasmine (Cate Blanchett) sofreu um revés amoroso e foi morar com a irmã, Ginger (Sally Hawkins). Perdida emocionalmente e financeiramente quebrada, a personagem tenta juntar forças para recomeçar a vida. O problema é que Jasmine não está disposta a deixar sua vida de socialite no passado e insiste em encontrar um atalho de volta para a riqueza, criticando incessantemente Ginger por não fazer o mesmo.

Blanchett, que concorre ao Oscar de Melhor atriz pela interpretação, conseguiu a façanha de criar uma dessas personagens que a gente demora a decidir se gostamos ou odiamos. Ok, ela foi enganada e traída pelo marido (Alec Baldwin) e perdeu, do dia para a noite, todo o conforto que tinha, situação digna de compaixão, mas tudo que ela faz na sequência é detestável. Ginger abre as portas de sua casa para a irmã, leva-a para sair e conhecer novas pessoas e até mesmo adia seus planos de morar com o namorado para ajudá-la, mas tudo que Jasmine oferece em troca são críticas contundentes ao estilo de vida simples e sem grandes ambições que ela leva.

Blue Jasmine - Cena 3Há muitas Jasmines por aí. Garanto que vocês também já devem ter conhecido alguma pessoa cheia de potencial, inteligente e bem intencionada, que não conseguiu, seja lá por qual motivo, arrumar-se na vida. Esse tipo de gente, geralmente, acha que está acima das outras pessoas que o cercam e acreditam que, por esse motivo, seu destino deve ser diferente, cheio de glórias, alegrias e riquezas que não são acessíveis as pessoas comuns. Tal comportamento, ao meu ver, é mais digno de pena do que de reprovação, até porque, costumeiramente, essas pessoas realmente possuem capacidades suficientes para vencer, porém não conseguem utilizar seus talentos para alcançarem o que desejam. Esse dilema, que é muitíssimo bem desenvolvido pelo Sam Mendes no Foi Apenas um Sonho, resume bem o que eu tenho para dizer sobre Jasmine: é compreensível que ela, uma mulher bonita e bem educada que viajou por todo o mundo, não queira acostumar-se com uma vida onde ela precisa trabalhar como secretária em um escritório odontológico (o dentista dando em cima dela talvez seja a cena mais forte do longa) e fazer um cursinho de computação à noite. Apesar de não ter terminado a faculdade e ter deixado-se enganar pelo mundo sedutor criado pelo marido, Jasmine é sim uma mulher talentosa que merece ser feliz. O que é inadmissível é a falta de poder de reação diante de uma realidade onde esses talentos não estão levando-a a lugar nenhum e, principalmente, ela usar a paciência aparentemente inabalável da irmã para criticá-la, comportamento que visa claramente fazê-la sentir-se melhor consigo mesma. Jasmine não é uma heróina, e ainda que não fiquemos exatamente felizes vendo-a afundar-se cada vez mais dentro do próprio egoísmo, as punições que Allen impõe a sua personagem não deixam de ter um certo lado cômico.

Blue Jasmine - CenaEssa leitura sobre a personagem, como vocês puderam ver, é algo bem pessoal. Não posso e nem tenho porque dizer que foi exatamente isso que o diretor quis passar com ela. Também só posso supor que, com o título do filme, Allen tenha desejado fazer uma analogia entre a flor e a personalidade da personagem, uma mulher bela e sedutora, mas também triste, como o “blue” sugere. O blue, aliás, é uma constante no roteiro, aparecendo nas citações de Jasmine sobre a música Blue Moon e nos encantadores olhos da Cate Blanchett. Esses detalhes enriquecem a trama e nós tendemos, até pelo respeito que temos pela conhecida genialidade do diretor, a entendê-los e analisá-los atribuindo mais profundeza e importância do que provavelmente eles tenham, caminho que nos afasta do óbvio: o filme é bom ou não? Sim, Blue Jasmine é muito bom, rápido (cerca de 1h30min), com uma trilha sonora leve e os conhecidos diálogos ácidos que tornaram Woody conhecido. Descrevê-lo assim é o suficiente para que o leitor queira vê-lo e, por sua vez, também tire suas próprias e válidas conclusões sobre a trama e os personagens. Eu achei Jasmine detestável, mas pode aparecer alguém que tenha outra leitura da personagem e identifique-se com ela, e nem eu nem esse hipotético leitor precisamos da aprovação do Sr. Allen para pensarmos assim. O que precisa ser dito, no entanto, é que esse filme, independente do gosto do espectador, não merece e não pode ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Original. Explico.

Blue Jasmine - Cena 4Voltem e leiam novamente a sinopse. A idéia de uma mulher que muda-se para a casa da irmã no subúrbio e começa a implicar com ela e com seu namorado não é somente familiar. Estamos falando aqui da base da história de um dos livros/filmes mais conhecidos da literatura/cinema americano, o Uma Rua Chamada Pecado, escrito pelo Tennessee Williams e adaptado para as telas pelo Elia Kazan. Obras de arte são feitas para serem reinterpretadas pelo seu público, experiência, aliás, que eu defendi no último parágrafo, e o Woody Allen também o pode fazer, mas não dá indicá-lo para Roteiro Original quando a história assemelha-se TANTO com um dos maiores clássicos da cultura americana. Aqui não trata-se de pedantismo do crítico muito menos de plágio do diretor. O erro, grosseiro e inexplicável, foi da Academia. Não posso deixar de imaginar, no entanto, o quão engraçado seria se ele ganhasse e, ao contrário do que aconteceu com o Meia-Noite em Paris, ele fosse receber a estatueta e protagoniza-se, tal qual no Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, um novo discurso contra a ignorância alheia.

Blue Jasmine - Cena 2

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  1. Fui assistir esse filme no espaço Itau,na rua Augusta em São Paulo,estava fora de foco a projeção e granulada.O som estava muito grave e fazia scratch toda hora.A qualidade dos cinemas nacionais é deplorável.Depois baixei por torrent e assisti em DTS 5.1 no meu receiver e na tv ficou bem melhor q na telona.Quanto ao filme,achei-o bem fraco,enredo sem mensagem ,nem tambouco estória marcante.Com a atual seca de bons filmes tenho voltado a obras de um passado,assisti ao “ascensor para o cadafalso e perdas e danos ontem,ambos do diretor Louis Malle,baixados via torrent.Abraço,Lucian!

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