12 Anos de Escravidão (2013)

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12 Anos de EscravidãoOscar de 2014, aqui vamos nós. Na verdade, as nomeações saem apenas no dia 16/01, mas como 12 Anos de Escravidão concorreu a impressionantes 7 Globos de Ouro, é praticamente certo que ele também figure entre os títulos que concorrerão nas principais categorias da premiação da Academia. Apostas feitas, vamos ao filme.

Baseado em fatos reais, a trama do diretor Steve McQueen (Hunger) adapta para o cinema as memórias de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um homem negro que, mesmo tendo conseguido sua carta de liberdade nos EUA pré-Guerra Civil, acabou sendo sequestrado e vendido para fazendeiros do sul do país. Tal como o título não faz questão alguma de ocultar, Solomon permanece novamente na condição de escravo durante longos e penosos 12 anos e é exatamente isso que vemos por aqui.

Em comum, as cinebiografias costumam partilhar a apresentação de uma história de vida espetacular e utilizá-la para passar uma mensagem edificante de luta e superação ou, no caso de personalidades controversas, oferecer novos pontos de vista sobre fatos conhecidos mas não inteiramente apreciados pelo público. Em outras palavras, o formato é uma verdadeira vitrine para os valores que seus produtores cultivam ou condenam. No caso de 12 Anos de Escravidão, Steve McQueen partilha com o espectador o respeito pela paciência e até mesmo pela subserviência quando esses comportamentos visam a preservação da vida.

12 Anos de Escravidão - CenaExiste uma frase um tanto quanto batida, mas nem por isso menos significativa, de que os homens só dão valor à liberdade após perdê-la. No caso de Solomon, não chegamos a saber se ele já nascer escravo (o que é bem provável), ou se, após o sequestro, ele experimenta essa sensação de perda pela segunda vez. Todo caso, é verdadeiramente PAVOROSA a expressão de desespero no rosto do sujeito quando ele acorda acorrentado em um quarto escuro vítima de um golpe sórdido. Na contramão da imensa maioria dos outros escravos da época, o personagem fora educado, o que, além de lhe garantir as capacidades de ler e escrever, o ajudou a desenvolver outros talentos, como tocar violino e aplicar o raciocínio lógico em suas atividades diárias. Retornar à condição de escravo, além de privá-lo da liberdade de ir e vir e de permanecer junto de sua família, significou a necessidade degradante de anular-se perante os seus senhores e capatazes que, como acontece mais claramente com o personagem do Paul Dano (em uma reedição, aliás, do que ele fez no Sangue Negro), são intelectualmente inferiores a ele.

12 Anos de Escravidão - Cena 3Quando oculta suas capacidades e opta pela paciência em detrimento do enfrentamento para lidar com o cativeiro, Solomon é julgado e até mesmo taxado de covarde pelos outros personagens e também por nós, espectadores. Acostumados que estamos com figuras heróicas a la Django que preferem morrer do que deixarem-se dominar, ficamos decepcionados quando o protagonista cala-se diante das injustiças cometidas contra ele e seus semelhantes. Procurando agir nas brechas, conquistando a simpatia de seus donos e arquitetando planos individuais para escapar, não raramente nos pegamos classificando-o como puxa-saco e egoísta.

Solomon não é, portanto, um herói nos moldes tradicionais. Sua história não é inspiradora no sentido de que ele reverte uma grande injustiça coletiva e/ou traz redenção para o seu povo. Não seria errado, inclusive, dizer que ele, por ter sido educado e vivido livremente, não se considera nem mesmo nas mesmas condições dos outros escravos (consciência essa que ele adquire progressivamente durante a trama, culminando na tocante cena do canto coletivo no velório). O que há de genuíno em sua história é o seu amor pela vida e vontade de regressar para sua família, objetivo que ele persegue sacrificando muitas vezes a própria dignidade. Tal comportamento, em uma sociedade que valoriza os mártires por representarem algo que ela não dispõe-se a ser/fazer, tende naturalmente a ser visto como covardia, subserviência e falta de personalidade, mas McQueen propõe que vejamos o personagem e a idéia que ele representa além desse julgamento superficial.

12 Anos de Escravidão - Cena 512 Anos de Escravidão retrabalha a imagem dos heróis, mas o faz a custa de vilões clássicos. P. Dano e Paul Giamatti interpretam homens medíocres que sustentam pequenos poderes, usando seus cargos e a brutalidade arbitrária para humilharem os outros. Fassbender e Cumberbatch, dois dos melhores atores da atualidade, representam duas faces do mesmo problema chamado indiferença. O primeiro, incrivelmente violento e desumano, é responsável por algumas das cenas mas agoniantes do longa (eu penso na cena do tronco e me vem um AI! automático à mente), abusando sexualmente e ferindo os escravos sem nenhum sinal de culpa ou arrependimento. Os negros, ele diz, não são humanos assim como os macacos também não o são e, portanto, não há motivos para tratá-los como tal. Cumberbatch faz o tipo bom patrão, cuidadoso com seus escravos e ciente de seus problemas, mas assim que aparece uma oportunidade de ajudar Solomon de verdade ele vira as costas e afasta-se para não colocar sua reputação em risco.

12 Anos de Escravidão - Cena 2Sem nenhuma grande estrela no cast (Brad Pitt, que também produz o longa, faz apenas uma breve aparição como um abolicionista), 12 Anos de Escravidão conquistou a crítica e abocanhou o Globo de Ouro de Melhor Filme na categoria Drama devido a esse roteiro que evita o lugar comum e o endeusamento de seu protagonista, às ótimas escolhas para os papéis principais (ressalto que o Fassbender está o cão) e, sobretudo, pelo magnífico trabalho de direção do McQueen. Com uma fotografia arrebatadora que captura toda a beleza e melancolia dos estados sulistas dos EUA e uma abordagem que não evitou cenas de nudez e violência para suavizar uma história que não poderia ser suavizada, McQueen construiu um filme sólido dentro de um tema que já está deveras batido. Que ele e sua equipe recebam os devidos méritos por isso.

12 Anos de Escravidão - Cena 4

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