Os Bastardos – Les Salauds (2013)

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Os Bastardos - Les SalaudsUma hora após a sessão de Tanta Água, comprei outra entrada na bilheteria do Cine Cultura para assistir Os Bastardos. O trailer dele havia sido exibido no filme anterior e, até onde deu para sacar alguma coisa, aparentemente o material era polêmico, com cenas de sexo, mortes violentas e conflitos psicológicos pesados. Haviam outros filmes em cartaz, inclusive algumas comédias bacanas, mas após a aventura infanto-juvenil da menina Lucía eu queria mesmo era uma história sombria para quebrar o clima.

Confundi o horário de início do filme, entrei na sala de exibição uns 5 minutos atrasado e, fora perder os trailers e a primeira cena, dei de cara com um homem pulando para a morte do alto de um prédio na tela. Eis a forma sutil que a diretora Claire Danes escolheu para abrir sua história, um sujeito esborrachando-se todo no chão, com direito ao som seco e alto do impacto e, claro, a poça de sangue que imediatamente forma-se ao seu redor sujando toda a calçada. Quem era ele e o porque de ele ter tomado tão drástica decisão são as perguntas que nos fazemos enquanto vamos conhecendo os outros personagens e o mundo sombrio no qual eles vivem.

A viúva do suicída, compreensivelmente abalada e incapaz de lidar com a situação, chama o irmão para ajudá-la. Marco (Vincent Lindon), abandona então sua vida solitária como capitão de um barco e retorna para Paris para amparar a irmã. O problema é que Marco não aceitou completamente a idéia do cunhado ter se matado e começa a investigar o evento, o qual parece ter alguma relação com o estado de saúde abalado de sua sobrinha, Justine. A investigação o leva até um esquema de prostituição pesado envolvendo torturas físicas e a um empresário (que é a cara do Palpatine rs), com cuja mulher (Chiara Mastroianni) o personagem inicia um caso amoroso.

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Apesar de possuírem temáticas bastante diferentes, não consegui deixar de notar uma semelhança entre Os Bastardos e Tanta Água, semelhança essa, aliás, que pode ser relacionada a maioria do material produzido fora de Hollywood: a estrutura narrativa. Claire Denis, que dirige um roteiro co-escrito por ela mesma, pouco preocupa-se em revelar informações sobre o passado dos personagens de sua trama. As poucas coisas que ficamos sabendo da vida pregressa de Marco são apenas sugeridas durante alguns diálogos, como o fato de ele ser dono de uma excelente reputação como capitão de barco. Esse tipo de informação, que nos leva a crer, por exemplo, que ele seja um cara competente, é dada ao espectador através da exibição de imagens que necessitam de uma certa leitura crítica para revelar todos os seus detalhes. Nada de diálogos mastigados ou cenas auto-explicativas. Também me pareceu que, tal qual o filme uruguaio citado, a intenção aqui é bem mais contar uma história do que realizar alguma leitura metafórica sobre a sociedade ou algum tema qualquer.

Os Bastardos - Les Salauds - Cena 3

E a história que é contada, meus amigos, é de arrepiar os cabelos. As cenas de sexo mostradas não são as mais quentes e/ou depravadas que eu já assisti e as mortes, apesar de impactantes, não são lá tão violentas assim, é o CONTEXTO no qual a coisa toda acontece que nos deixa com saudade do colo da nossa mãe. Não bastasse percebermos a frieza que Marco tem ao usar Raphaelle sexualmente para atingir os seus objetivos, a revelação do motivo da perturbação psicológica de Justine e do suicídio que abre a história são extremamente desconfortantes.

Os Bastardos - Les Salauds - Cena 4

Os Bastardos não é um filme fácil de ser assistido e definitivamente não é recomendado para pessoas sensíveis. Na sessão que eu estava, mais de uma vez, deu para perceber o desconforto dos presentes com o que era mostrado. Por duas vezes, uma mulher quis levantar para ir embora e só não o fez porque a amiga que a acompanhava não deixou. Apesar de possuir algumas imagens bastante explícitas de toda a podreira que o ser humano é capaz, arrisco a dizer que o que mais incomoda aqui é o que fica entendido nas entre linhas, a maldade, a submissão e a conivência que, em casos extremos, geram as monstruosidades familiares que o filme revela. Se pouco ou nada de bom acontece aqui, ainda assim considero válido assistir esse tipo de material para formar repertório e, principalmente, porque a perturbação que ele gera, mais do que nos fazer querer ir embora do cinema, nos sensibiliza para esse tipo de atrocidade e nos tornar, por assim dizer, mais humanos.

Anna Karenina

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