Gravidade (2013)

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GravidadeSer uma pessoa solitária tem lá o seu charme. Ler aquele livro clássico, daquele autor consagrado, é bem melhor e  proveitoso do que conversar trivialidades e fazer fofocas. Assistir um filme ou um episódio novo da sua série predileta é extremamente mais divertido do que sentar-se meia hora com sua família para contar como foi o seu dia-a-dia. Jogar vídeo game, onde tu pode desbravar mundos completamente novos, ou sair para correr e desligar-se de tudo enquanto ouve suas música favoritas, muitas vezes, é bem melhor do que encontrar os amigos para botar o papo em dia. O problema é que, com o tempo, a gente vai acostumando-se com esse distanciamento e, o pior de tudo, as outras pessoas também vão acostumando-se a não contarem conosco. O que inicialmente era apenas um estilo de vida charmoso torna-se então uma prisão cujos muros tu mesmo ergueu. Você começa, silenciosamente, a criticar tudo e todos a sua volta. Se as pessoas conversam com você, tu pergunta-se, revoltado, por qual droga de motivo elas não percebem que estão lhe atrapalhando em sabe-se lá o que você estiver fazendo. Se elas não conversam, tu acusa-as de indiferença, falsidade. Tal como o solitário cavaleiro criado pelo Cervantes, tu começa a ver monstros onde há apenas moinhos de vento. Compreensivelmente isolado, constantemente paranoico e com o cérebro a mil (afinal de contas é impossível não tentar racionalizar a situação toda e, claro, atribuir a culpa de seu sofrimento aos outros), você adoece e percebe, tarde demais, que não é possível viver assim. Nesse momento, é pavoroso perceber que as pessoas que tu espera que lhe estendam a mão são justamente aquelas para as quais tu havia virado as costas. Tal qual um astronauta perdido no espaço, você está distante de todos e o seu grito não pode mais ser ouvido. Restam então duas opções: desistir de tudo ou empenhar-se para reaproximar-se daquilo que você ama, mesmo que, para isso, tu tenha que recomeçar do zero, renascer.

GRAVITY

A Dra. Ryan Stone, interpretada por uma saradíssima Sandra Bullock, está finalizando os últimos reparos em um equipamento no espaço. É sua primeira missão e ela está compreensivelmente nervosa. Ao seu lado e em uma situação bem mais cômoda, está o veterano Matt Kowalski (George Clooney), um sujeito falastrão e bem humorado que está aguardando apenas o término do serviço para retornar a Terra e aposentar-se. A destruição de um satélite russo próximo coloca uma chuva de destroços em rota de colisão com os astronautas que, impotentes, observam sua nave e o restante da tripulação serem completamente destruídos. Sozinhos na imensidão do espaço, com pouco oxigênio e comunicação deficiente com o planeta, Stone e Kowalski iniciam sua inglória luta por sobrevivência.

Filmes ambientados no espaço com temas existencialistas serão, necessariamente, comparados ao 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Não fugirei da comparação. Gravidade, dirigido por Alfonso Cuarón, assim como a obra do Kubrick, é um trabalho que utiliza o que há de melhor em tecnologia de seu tempo para proporcionar uma experiência visual arrebatadora. Não que Cuarón também tenha produzido um divisor de águas nesse sentido, mas é inegável que ele criou um dos filmes mais bonitos dos últimos anos (rivalizando até mesmo com o lindíssimo As Aventuras de Pi) e que todos os elogios que a parte visual do longa receberem serão justos. Amigo pessoal do diretor James Cameron, Cuarón alcançou com o 3D um resultado muito próximo daquele que foi visto no Avatar e suas imagens estilo Discovery Channel da Terra também não devem nada a magnífica sequência de nascimento do nosso planeta apresentada no A Árvore da Vida.

Gravidade - Cena

No que diz respeito ao tema, o filme de Kubrick, apesar de toda a sua qualidade técnica, sempre dividiu opiniões por possuir um roteiro intencionalmente aberto e abstrato. Gravidade é mais linear nesse campo, mas nem por isso o roteiro fica em segundo plano para o espetáculo visual e, para mim, é justamente a história o ponto alto do filme. Abri o texto falando, de forma geral, sobre solidão, mas não é muito difícil perceber que o parágrafo contém um relato pessoal. Eu tenho vivido estressado e isolado. Andei tendo problemas em meu relacionamento, com os meus amigos e com a minha família. Além de sintomas físicos (dores nas costas, queda de cabelo), eu experimentei alguns estados mentais de ansiedade, falta de auto confiança e medo que eu não desejo para ninguém. Durante muito tempo, insisti que o problema eram os outros. A situação tomou dimensões tão grandes que não foram poucas as vezes que eu tive vontade de abandonar tudo e sumir. À beira do abismo, olhei para a escuridão, ela olhou para mim, percebi que eu já não a considerava mais tão sedutora assim e, atualmente, estou dando a meia volta que, creio e desejo, me levará cada vez mais para longe desse pesadelo. Gravidade nos mostra como a Dra. Ryan Stone fez o mesmo.

Gravidade - Cena 4

Antes mesmo do incidente que dá início aos eventos que vemos no filme, podemos perceber que a Stone (stone, aliás, pedra em português, é uma pista sobre a personalidade da personagem: rígida, inflexível, imóvel, triste, etc) não é lá uma pessoa muito feliz. Tudo bem, ela está nervosa porque é sua primeira missão no espaço, mas, apesar de todas as tentativas de Kowalski de relaxá-la com brincadeiras e conversa fiada, ela não dá nenhuma abertura ou sinal de que gostaria que a situação fosse diferente. Em determinado momento, inclusive, ela pede para que ele desligue uma música que ele havia colocado na frequência de comunicação para divertí-la. Quando os destroços anunciados pelo pessoal de apoio passam de uma possível ameaça para uma chance real de morte, Stone insiste em terminar a missão antes voltar para a nave e escapar. O motivo dessa amargura e falta de amor à vida é revelado posteriormente: em um acidente bobo, ela havia perdido a filha de 4 anos e, desde então, decidira viver sozinha. O espaço, expressão máxima do isolamento, silêncio e solidão, lugar para o qual a personagem certamente desejou fugir várias vezes durante seu sofrimento, deixa de ser, após o acidente, um local de fuga para transformar-se em um provável túmulo. É aí, nesse fim de caminho que a astronauta começou a trilhar conscientemente, que ela também percebe que era hora de voltar, que ela estava errada e de valia a pena continuar lutando pela vida. Quando ela percebe que ainda tem algo a perder, o filme cresce exponencialmente e nos faz prender a respiração até o último ato. Será que ela conseguirá renascer?

Gravidade - Cena 5

Fiquei impressionado quando, lendo sobre o filme para escrever esse texto, descobri que ele tem apenas 1h30min. Eu poderia JURAR que ele tem pelo menos 2h30min. Isso, obviamente, não quer dizer que ele seja chato, arrastado ou sonolento, a questão é que o cenário criado por Cuarón é TÃO agoniante que temos a sensação de termos sofrido durante muito mais tempo. Sou grato a ele por isso. De vez em quando, é importante encontrarmos mais respostas do que perguntas em um longa e a história e o exemplo da Dra. Ryan Stone me ajudaram muito a encarar os meus próprios problemas sobre outra perspectiva. Se Gravidade, futuramente, terá o mesmo reconhecimento do 2001 eu não sei, mas, pessoalmente, considero-o como uma obra prima, um desses trabalhos que, aliando sequências de ação fantásticas (a fuga da estação é daquelas cenas que, de tão divertida, tu deseja que nunca acabem), um visual soberbo e uma história inspiradora, nos fazem sair do cinema satisfeitos com o dinheiro investido e, principalmente, desejosos de sermos pessoas melhores.

Gravidade - Cena 2

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  1. Texto sensível, gostei das suas colocações e do seu entendimento do filme. Achei a fotografia dele realmente linda e a forma como ele mostra a possibilidade de superação envolvente.

  2. Como já disse várias vezes, entro no site provavelmente todos os dias, faz parte da minha rotina. Não deixo comentários em todas as postagens, mas ainda assim leio quase todas, mesmo que rapidamente. Lembro que, há alguns textos atrás, você mencionou seus motivos para escrever no site e sobre as mudanças na sua vida, que pareciam positivas, e que fariam com que o ritmo de postagens diminuísse. De um mês pra cá, mais ou menos, vi muitos posts novos e me lembro de pensar comigo mesmo que algo estava acontecendo. É ótimo ter novos posts com grande frequência, pois gosto muito do site, porém desejo que eles venham acompanhados de bons momentos na sua vida pessoal! Felicidades, amigo!

    • Desculpe pela demora para responder. Muito obrigado pelas suas palavras e pela atenção! Esse texto foi realmente escrito em tom de desabafo e isso me fez um bem danado! Obrigado por acompanho o blog e por se importar, espero retribuir com boas resenhas. Abraço 🙂

  3. Cara, eu já tinha visto esse filme nas estréia e vi novamente agora, meses depois.
    Devo dizer que os caras criaram algo de fato, sublime. A fotografia do filme é impecável, até mesmo a localidade que escolheram no fim, um lago no Arizona, não poderia ser melhor.
    O roteiro como você disse é baseado nas adversidades. Acredito que seja uma metáfora ao que nós passamos diariamente, e assim como a Dra. Ryan, nós escolhemos a vida.
    Outra coisa muito marcante neste filme é o jogo de câmeras, onde não há esquerda, direita, cima ou baixo. Fica a impressão que estamos a deriva no espaço.
    E se reparar bem, a trilha sonora muda de “direção” junto com a câmera. Por muitas vezes podemos ouvir a trilha na esquerda, depois na direita, depois vindo de cima e etc.
    Eu fico feliz por poder presenciar tais obras que para mim, são marcos na história da cultura e do entretenimento.

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  5. Me arrependo de não ter assistido no cinema, não consegui perceber todo o espetáculo visual na tela do computador… Quanto a história, apesar da aventura ter sido emocionante, o drama da Stone não foi tanto assim, não engoli a história da filha nem a vida solitária que ela leva, simplesmente não me comoveu.

    O começo do seu texto, por outro lado, me atingiu em cheio. A identificação que eu senti com o que vc escreveu, infelizmente, foi imensa. Obrigado pelo alerta.

    • Infelizmente, tu perdeu grande parte do impacto do filme por não tê-lo visto no cinema. Os efeitos visuais e o som somam muito ali. Sobre o que tu escreveu à respeito de sua vida pessoal… Amigo, tu não tem noção do quão importante foi ler isso. É ESSE tipo de comentário que me motiva escrever. É fundamental pra mim, como escritor, saber que o que escrevo serve para alguma coisa, seja fazer alguém interessar-se por um filme, seja ajudar alguém a ver alguma situação de uma forma diferente. Se, com essa resenha, eu te ajudei a ficar um pouquinho mais longe do inferno do qual estou saindo, acredito, sinceramente, que fui vitorioso no meu propósito. Muito obrigado pelo suporte. Abraço 😀

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