Segredos de Sangue (2013)

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kinopoisk.ruA idéia de viver em um mundo onde cada um pudesse fazer exatamente aquilo que desejasse é tão tentadora quando impraticável, amedrontadora. Em uma sociedade sem leis, por exemplo, eu mataria todos os motoqueiros que me ultrapassassem pela direita. Isso, é claro, se algum motorista de carro, dono dessa mesma vontade, não me matasse antes quando eu também o ultrapassasse da mesma forma. Aliás, em um mundo assim, onde cada um fizesse o que quisesse, esse tipo de manobra não seria algo normal, expressão de liberdade e coerência com o ambiente? Bye bye coerência.

Obviamente, não são somente as leis que, diariamente, afastam nosso dedo do gatilho. Leis punem, não impedem. O que me faz respirar fundo e contar até mil quando um sujeito dirigindo uma Honda Biz (sempre elas) me corta pela direita não é o medo de ser preso ou algo do tipo. O receio de matar ou, sendo mais realista, ofender ou machucar alguém devido a um desentendimento corriqueiro, advém muito mais, acredito, da auto-preservação e do condicionamento que recebemos desde pequenos (uns mais, outros menos) para sermos “bons”. Essa herança moral conservadora, por assim dizer, apesar de castradora e anti-natural (como é demonstrado no Laranja Mecânica), cumpre um papel fundamental, juntamente com as leis, para que a roda da sociedade continue girando, torta e capengando mas, ainda assim, girando.

Segredos de Sangue - Cena 2

Isso não quer dizer, no entanto, que não possamos, vez ou outra, ceder ao lado negro da nossa condição humana, mandar o bom senso e o politicamente correto para a casa do caralho, falar um ou outro palavrão e rir da desgraça alheia. Nisso, o problema inverte-se: quando queremos, conseguimos deixar momentaneamente a moral de lado, mas ainda assim permanecemos sujeitos aos rigores da lei. A literatura, os jogos e o cinema surgem, então, como uma excelente e perfeita válvula de escape onde, em realidades paralelas, podemos exercitar e extravasar nossos sentimentos mais ocultos e perversos de violência sem corrermos o risco de sermos mandados para o xilindró. Eu não posso matar um sujeito que me ultrapassa pela direita porque eu serei preso e porque isso não é “certo”? Ok, mas ninguém irá me tirar o prazer de ver alguém fazer isso em um filme. NINGUÉM.

Em Segredos de Sangue, Mia Wasikowska, a delicinha que o Tim Burton escolheu para interpretar a Alice em sua versão recente do Alice no País das Maravilhas, vive a introspectiva India Stoker, uma adolescente de 17 anos cujo pai acabou de falecer em um terrível acidente de carro. No monólogo que abre o filme, India descreve-se como alguém que  vê coisas que outras pessoas não veem e que, assim como uma flor não escolhe a própria cor, ela também não escolheu ser o que ela é. Sua personalidade “diferente”, diz ela, é o resultado da reunião de características e valores que lhe antecederam no mundo. Em outras palavras, ela é apenas um produto do meio. Enquanto India declama esse floreado discurso sobre si mesma, vemos um rastro de sangue no meio de um matagal e somos levados a acreditar que a personagem está fazendo algum tipo de confissão. Mas que raios de crime uma menina como India, tímida e desengonçada, poderia ter cometido? pergunta-se o espectador quando o filme segue o tal monólogo com o funeral do já referido pai.

Segredos de Sangue - Cena 4

Segredos de Sangue é o primeiro trabalho na língua inglesa do excelente diretor sul coreano Chan-wook Park (Sede de Sangue, Trilogia da Vingança) e, acreditem se quiser, o roteiro é do brutamontes Wentworth Miller, que nós conhecemos como o Chris Redfield do péssimo Resident Evil 4: Recomeço. Com base no que vemos aqui, podemos afirmar que Wentworth, tal qual o Ben Affleck, deveria mudar de profissão e que, diferentemente do que já aconteceu com tantos outros diretores, (o Walter Salles é sempre o primeiro exemplo que vem na cabeça), a ida do wook Park para Hollywood foi bem sucedida e não demandou mudanças drásticas em seu estilo. Segredos, comparado a filmes como Oldboy, é uma produção deveras contida, mas nem por isso o diretor abriu mão de suas tradicionais sequências estilosas de violência e do conteúdo sexual para enquadrar seu trabalho dentro de um padrão vendável para o público adolescente americano.

Voltando ao roteiro de Wentworth e a questão da nossa sede de violência, India me lembrou muito a personagem Carrie, aquela mesma do filme do De Palma baseado no romance do Stephen King. Com problemas de relacionamento com a mãe e sofrendo bullying na escola, India fecha-se mais ainda quando o pai morre. Só de olharmos para ela, percebemos que há ali uma quantidade enorme de energia negativa prestes a explodir. Assim como Carrie exorcizou seus demônios pessoais (e evocou outros tantos) após a humilhação sofrida no baile de formatura, India encontra sua válvula de escape após conhecer o tio, Charles Stoker, no dia do funeral do pai. Charles, que é interpretado muitíssimo bem pelo ator Matthew Goode (o Ozymandias, do Watchmen), é um homem bonito e sedutor que, assim como India descobrirá após uma visita mórbida ao sótão da própria casa, não tem o menor problema em eliminar aqueles que colocam-se em seu caminho. Mais do que isso, ele demonstra um certo prazer em realizar atos de crueldade.

Segredos de Sangue - Cena 3

Segredos de Sangue sugere que querer matar aquela pessoa que lhe enchem o saco todo dia no serviço ou na escola não é lá algo tão anormal assim. Em sua cena mais polêmica e significativa, India, que acabara de presenciar Charles cometendo um assassinato, pode ser vista contorcendo-se, nua, encolhida no canto do banheiro. A câmera de wook Park vai descendo, acompanhando o jato de água do chuveiro, e revela que a personagem, na verdade, não estava exatamente chorando, se é que vocês me entendem. Nesse momento, estabelece-se uma relação de cumplicidade entre personagem e espectador, pois vemos que India, assim como nós, sentiu um prazer orgásmico ao ver um daqueles típicos brutamontes retardados do colegial encontrarem aquilo que merecem. O brutamontes, claro, poderia ser qualquer um dos párias que somos obrigados a suportar diariamente, inclusive os já referidos motoqueiros navalhas. India não escolheu odiar esses sujeitos, isso simplesmente foi sendo construído dentro dela, dia após dia, humilhação após humilhação. Obviamente, ela poderia escolher o outro caminho, o da paciência, da aceitação e da benevolência, mas é justamente quando ela opta por fazer aquilo que a maioria de nós tem vontade de fazer e não pode que o filme torna-se uma experiência quase terapêutica. Empatia pouca é bobagem. Completando nossas fantasias anarquistas, Wentworth ainda reserva para o final um acerto de contas entre essa violência pura e a lei, quando a personagem, de volta à cena que abre o filme, tem um papo “carinhoso” com um policial que, algumas cenas antes, havia tratado-a com arrogância.

O único ponto negativo de Segredos de Sangue é a participação pífia da Nikole Kidman que, para variar, não consegue disfarçar a apatia que, aparentemente, ela sente pela profissão. De resto, é um filme digno da ótima filmografia do wook Park, com poucas mas memoráveis cenas de violência que fazem bem para os olhos e para nossa sanidade mental. Convenhamos, se não podemos nos livrar (e nem queremos, diga-se de passagem) desse nosso lado violento, que ele seja extravasado através da arte, certo?

Segredos de Sangue - Cena

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  1. Valeu!!! Quando pedi um texto sobre esse filme, você me agradeceu por ter te lembrado, o que significa que já havia uma intenção de falar sobre ele, mas ainda assim posso considerar como meu primeiro pedido que foi transformado em texto. rsrs

    Obrigado por mais uma boa leitura, pois realmente condiz com o que achei do filme e ainda complementa minha visão dele. Confesso que esperava mais uma vingança diabólica e perfeita, mas ainda assim gostei muito do filme. Só espero que ele não migre de vez para Hollywood, pois é sempre bom ter filmes que não precisam se encaixar nas características de lá.

    Um Abração!!!

    Marcus Paiva

    • Também torço para que o wook Park não abandone por completo os trabalhos em sua terra natal. Obrigado pelo comentário e sinta-se a vontade para recomendar outros filmes. Abraço.

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