Círculo de Fogo (2013)

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Círculo de FogoAssim como quase toda criança nascida na década de 80, eu cresci assistindo a programação de séries e animações da saudosa Rede Manchete. Os meus favoritos, assim como o da maioria dos molecotes da época, eram os Cavaleiros do Zodíaco. Com os protetores de Athena, eu gastei tempo assistindo as muitas repetições da Saga do Santuário, dinheiro comprando aqueles bonequinhos legais que vinham em caixinhas de isopor cuidadosamente recortadas e, principalmente, minha criatividade, que eu usava para desenhar os personagens em milhares de “cadernos de arte” que infelizmente eu perdi.

Sim, eles eram meus favoritos, mas como no coração de uma criança sempre cabe mais alguém, eu também adorava as séries Tokusatsu exibidas pelo canal. O gênero, cujo título eu acabei de descobrir, era muitíssimo bem representado na época por títulos como Jaspion, Changeman, Flashman, Cybercops, Kamen Rider, Jiraya, Winspector e, claro, pelos Power Rangers, que surgiram algum tempo depois na Globo e, até mesmo devido a visibilidade oferecida pelo canal, passaram a ser referência no assunto. Cada uma dessas séries tinha seus atrativos, como monstros feiosos, canhões de energia super colorida, motos em formato de gafanhoto e cartões que, se inseridos em locais estrategicamente espalhados pela cidade, davam acesso a um divertidíssimo delivery de armas bacanudas, mas nada, nada mesmo, superava os robôs gigantescos que os personagens usavam para combater seus inimigos. Dentro desse quesito, guardo um carinho especial pelo episódio dos Flashman onde um monstro destrói o robô dos personagens e também pela “montagem” do veículo de combate dos primeiros Power Rangers, aqueles que eram inspirados em dinossauros. Eu adorava o fato de cada um deles ter seu próprio dino mecanizado e como todos eles uniam-se para formar uma poderosa máquina de guerra. Não foram poucas as vezes que, durante as minhas férias na fazenda, eu brinquei simulando aquelas lutas, construindo armas de madeira e usando uma velha colheitadeira no lugar do “cockpit” dos robôs. Bons tempos.

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Obviamente, a inocência sobre o formato cedeu lugar a nostalgia de uma infância bem aproveitada. Como não poderia deixar de ser, hoje em dia eu não consigo mais olhar com os mesmos olhos aqueles atores vestidos em roupas de látex soltando faíscas após serem atingidos por um golpe. Esse amadurecimento, no entanto, não foi o suficiente para sufocar completamente o meu interesse pelo tema e foi com um misto de empolgação e medo que eu entrei no cinema para assistir o Círculo de Fogo. Não haviam argumentos, até o momento, que desabonassem o trabalho do Guillermo del Toro, muito pelo contrário, mas eu não gostei nenhum pouco do primeiro trailer feito para o filme e, pelo que vi, fiquei com a impressão de que o diretor tivesse sucumbido ao mercado “pós-Transformers” na hora de elaborar sua aventura/homenagem ao universo Tokusatu. É com muito prazer que comunico-vos, leitores, que o meu medo foi vencido, ou melhor, explodido em uma cascata de faíscas, por um dos filmes mais divertidos e empolgantes dos últimos anos.

Círculo de Fogo - Cena 2

No mundo criado para Círculo de Fogo, monstros alienígenas conhecidos como Kaiju atravessam uma fenda oceânica para provocar o caos e a destruição em nosso planeta. O exército consegue vencer os primeiros inimigos, mas o aumento do tamanho dos monstros e da constância de seus ataques levam as nações do mundo a unir esforços para criar uma máquina eficiente de combate. Os Jaegers, robôs gigantes que exigem dois pilotos mentalmente conectados no comando, surgem então como resposta da humanidade àquilo que parecia a extinção de nossa espécie. Os monstros são vencidos, os pilotos tornam-se celebridades mundialmente conhecidas e o tempo passa. O filme começa quando o robô americano Gipsy Danger, que é comandado pelos irmãos Yancy e Raleigh Becket (Charlie Hunnam) é acionado para interceptar um novo ataque. Eis o que se segue.

Círculo de Fogo - Cena 4

Yancy e Raleigh, empolgados pela possibilidade de entrarem novamente em ação e já com os trajes de combate, adentram o gigantesco Gipsy Danger e, içados por vários helicópteros, são levados até um ponto longínquo no mar onde o monstro aparecera. Chove e a escuridão é absoluta. De dentro das águas agitadas, um ser grotesco e colossal salta inesperadamente contra o robô, arrancado-lhe o braço e ceifando a vida de Yancy. Destroçado e vencido, Gipsy Danger só seria visto horas depois, em uma praia, para onde Raleigh o conduz com o resto de suas forças.

Círculo de Fogo - Cena

A minha reação a essa primeira cena foi algo do tipo “UAU!”. Círculo de Fogo, cujo visual baseia-se declaradamente em outro sucesso com robôs, o anime Neon Genesis Evangelion, consegue, já em sua cena de abertura, recriar todo aquele clima legal de nostalgia relatado nos primeiros parágrafos e conferir a ele a seriedade necessária para que seus fãs, hoje adultos, vejam-se novamente e sinceramente entregues àquele mundo de batalhas épicas contra monstros gigantes. Guillermo del Toro, que aqui mais do que nunca assina o atestado de nerd, respeita, homenageia e evolui a forma dos Tokusatsu, criando movimentações convincentes para robôs e monstros, enchendo os primeiros de armas fantásticas e os segundos de personalidade e comportamentos viciosos. Os combates, que acontecem em 3 longas cenas (mas não tão longas ao ponto de tornarem-se chatas, como o final do Transformers 3), são violentos, repletos de perfurações, explosões (sem faíscas) e danos maciços, exatamente como o embate entre criaturas gigantescas deve ser. del Toro, que já havia conduzido uma cena épica de combate contra um ser descomunal no final do Hellboy 2, alcança um resultado final próximo a perfeição aqui quando filma e enquadra as lutas, produzindo constantemente imagens belíssimas e evitando os cortes frenéticos. Mais do que mostrar muitas coisas ao mesmo tempo, o diretor opta por zooms, câmeras lentas e planos sequência que mostram a ação desenvolvendo-se detalhadamente. Filmadas em 3D real, as batalhas de Círculo de Fogo tornam-se, à partir de agora, parâmetros de comparação para cenas de ação.

Círculo de Fogo - Cena 7

Entre uma batalha e outra, desenvolve-se um drama que, sinceramente, não faz a mínima diferença. Raleigh sente a falta do irmão, Mako (Rinko Kikuchi) tenta superar um trauma do passado e o Comandante Stacker Pentecost (Idris Elba) sente a responsabilidade de carregar o peso do destino do mundo nas costas. É aquele tipo de roteiro manjado que evoca lugares comuns de filmes de ação, ou seja, não é necessário mais prestar atenção nele se tu assiste filmes frequentemente. O que tornam essas cenas (sem os robôs) interessantes aqui são os personagens secundários, cientistas nerds loucos que estudam os Kaiju e que, com seus excessos de caracterização e comportamentos, tornam-se um bom alívio cômico para a história. Vale ainda citar a participação do Ron Perlman, o Hellboy, como um figurão engraçadíssimo do mercado negro.

Círculo de Fogo - Cena 3

Círculo de Fogo, portanto, abre com a cena sensacional e sombria descrita acima, reserva algum tempo para o desenvolvimento de seus personagens e para o humor e caminha para um final que, felizmente, sugere uma continuação muito bem vinda. É um filme de ação com mais de 2 horas que possui apenas três grandes cenas do gênero (apesar que, cenas menores, como a primeira aparição do Striker Eureka, não podem ser desconsideradas), é verdade, mas o poder que o longa possui de nos levar de volta a infância é algo que há muito tempo eu não experimentava. Assistam a cena intermediária, onde Mako usa a espada do Gipsy, e me digam se não dá vontade de pilotar o robô para fazer o mesmo. Me digam se lutar ao lado de chineses e russos – cada um conduzindo a arma mais potente de seu país – contra monstros alienígenas não parece ser algo extremamente legal. Me digam se, considerando a qualidade inquestionável dos efeitos especiais e o mundo fantástico que o del Toro criou com eles, não podemos considerar Círculo de Fogo um dos filmes mais divertidos dos últimos anos. Aliás, não me digam nada, eu já estou convencido disso tudo e aguardo, mais do que crianças aguardam pelo Natal, a sequência dessa divertidíssima aventura com sabor de infância.

Círculo de Fogo - Cena 6

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