Zombie – O Despertar dos Mortos (1978)

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Dawn of the Dead 1978 movie posterNaquele dia, não haviam comerciais nem apresentadores comentando cenas de crime na TV. O assunto debatido entre os dois participantes do programa exibido era muito mais sério do que um simples assassinato ou a venda de um produto. Os mortos haviam levantado-se de suas sepulturas e, famintos por carne humana, caminhavam livremente em solo americano espalhando o terror e provocando a falência da sociedade civil. Enquanto muitos recusavam-se a acreditar que o dia do apocalipse havia chegado, outros, e dentre eles os participantes do tal programa, discutiam soluções para lidar com o caos instaurado. Explodir as criaturas com uma bomba atômica? Alimentá-los? Reconhecer que o domínio da espécie humana sobre o planeta havia chegado ao fim?  Diante da falta de consenso, orquestrar um plano individual parecia ser a melhor chance de sobreviver àquela realidade e foi exatamente isso que o repórter Stephen (David Emge) fez: de posse de helicóptero, ele planejou fugir dali naquela mesma noite levando consigo apenas a namorada, Francine (Gaylen Ross). Durante a fuga, o casal presencia a luta de dois policiais contra os mortos (que naquele ponto já começavam a ser chamados de “zumbis”) e a solidariedade leva-os e socorrê-los. À bordo e salvos do que seria a morte certa, Peter (Ken Foree) e Roger (Scott H. Reiniger) veem Stephen conduzir a asa rotativa através de terras desoladas até que, no centro de uma cidade abandonada, o grupo encontra um shopping e decide que ali seria um ótimo lugar para esconder-se. O problema é que, estranhamente, os zumbis parecem obedecer a uma espécie de impulso que também os levam continuamente para o centro de compras…

Zombie - O Despertar dos Mortos - Cena 3

Se a idéia de zumbis atacando um grupo de pessoas confinadas em um shopping não lhe é estranha, é bem provável que tu também tenha assistido Madrugada dos Mortos, filme onde, em 2004 e marcando sua estréia, o visionário Zack Snyder contou a mesma história. Acontece que Madrugada é um remake de Zombie – O Despertar dos Mortos (sequência do A Noite dos Mortos-Vivos), trabalho idealizado e dirigido pelo cineasta que tornou-se referência absoluta para tudo que é feito desde então envolvendo zumbis. Em 1978, George Romero produziu aquele que viria a ser um de seus filmes favoritos e, ao misturar humor, terror e uma bem fundamentada crítica ao consumismo, deu origem a um clássico absoluto do gênero, um desses filmes que a gente verdadeiramente pode classificar como “seminal”.

Não sei vocês, mas eu já sonhei várias vezes que caminhava sozinho pelo mundo podendo desfrutar livremente de tudo que nossa sociedade tem para oferecer. Carros, comida, gasolina, energia elétrica, roupas… tudo estava ali ao meu alcance para ser usado da forma como eu quisesse. Acordado, também já gastei algumas horas pensando sobre isso, com a diferença que, desperto, inevitavelmente a idéia de diversão sempre esbarrava em dois problemas lógicos que os sonhos não contemplam: a falta de alguém para compartilhar a experiência e, principalmente, a certeza que, mais cedo ou mais tarde, o que inicialmente seria um êxtase absoluto acabaria transformando-se em rotina.

Zombie - O Despertar dos Mortos - Cena 2

Grande é a alegria de Stephen, Francine, Peter e Roger quando eles encontram o shopping onde desenrolam-se os eventos de O Despertar dos Mortos. Grande e justificada, porque, em um mundo onde hordas de zumbis caminham em campo aberto matando todos que encontram, a idéia de permanecer trancado dentro de um lugar repleto de comida e diversão é, no mínimo, confortante. Inicialmente, as coisas não poderiam ser melhores: com dois policiais no grupo e todo o estoque de uma loja de armas de fogo a disposição, os personagens promovem uma verdadeira “limpeza” no local, eliminando a maioria dos zumbis que encontravam-se dentro da edificação e fechando todas as portas de acesso para que outros não entrassem. Francine, que revela estar grávida, tem pleno acesso a medicação e comida e sobra tempo até mesmo para que ela e os amigos experimentem roupas novas e joguem videogame nas diversas lojas do prédio. Com o tempo, no entanto, as tensões começam a aparecer: Roger começa a demonstrar um prazer fora do comum em eliminar os zumbis, há uma disputa velada pela liderança do grupo entre Stephen e Peter e Francine, por sua vez, deseja partir dali. Unânimes e alheios aos problemas emocionais dos personagens, os zumbis continuam acumulando-se nas portas do shopping, ansiosos para adentrar o lugar onde, anteriormente, eles iam em vida para divertirem-se. É clara aqui a ironia do diretor, que direciona insistentemente seus monstros descerebrados  para o templo capitalista do consumismo.

Zombie - O Despertar dos Mortos - Cena

Enquanto argumenta que nem mesmo uma vida sem problemas materiais é o suficiente para garantir a paz interior, Romero, auxiliado pelo ator e diretor de maquiagem Tom Savini, nos diverte com todas as possibilidade absurdas que um cenário pós apocalíptico ambientado dentro de um shopping podem oferecer. Antes dos conflitos físicos e psicológicos que o grupo enfrenta na parte final do longa, os personagens podem ser vistos em várias situações engraçadas envolvendo consumo. O diretor, que assumidamente adotou um tom cartunesco em diversas cenas para reforçar o humor, brinca com nossos desejos materiais e nos mostra a parte cômica e até mesmo ridícula desses impulsos, como quando um personagem pode ser visto pegando várias televisões para si e, questionado pelo amigo sobre a utilidade das mesmas, percebe que sua ação não faz sentido e as destrói na sequência. Savini, que deu aos zumbis uma coloração esverdeada intencionalmente falsa, ainda ajudou Romero a produzir vários dos contrastes de gênero que podem ser vistos na tela, como o terror que aparecer nos efeitos usados para mostrar em close a destruição do abdômen de um homem, com suas vísceras sendo espalhadas e devoradas explicitamente pelos mortos, e no humor que vem logo em seguida quando os personagens jogam tortas na cara dos zumbis.

Zombie - O Despertar dos Mortos - Cena 4

Digno de ser resgatado e, principalmente, homenageado em um remake, Zombie – O Despertar dos Mortos é um filme completo em todos os sentidos: o roteiro está acima da média das produções de terror e consegue expandir com naturalidade as idéias e críticas sociais feitas em A Noite dos Mortos-Vivos (lembrando que o tema do preconceito racial também é explorado aqui, logo no comecinho), a maquiagem e os efeitos especiais, apesar de envelhecidos, ainda hoje possuem seu charme e os personagens, com personalidades bastante distintas e objetivos pouco moralistas, provocam empatia. Para os fãs de zumbis, principalmente para aqueles que desejam conhecer as raízes do tema que popularizou-se recentemente com a série The Walking Dead, O Despertar dos Mortos é obrigatório.

Zombie - O Despertar dos Mortos - Cena 5

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